Ócio

A matéria do New York Times, tempos atrás, chamou minha atenção para o que algumas pesquisas haviam mostrado e que se constitui num verdadeiro paradoxo. O homem, via de regra, reclama da correria do dia a dia, da falta de tempo para atividades físicas e de lazer, em função do excesso de compromissos e da sobrecarga de tarefas. Pois bem, a Universidade de Virginia, nos Estados Unidos, através do psicólogo Timothy Wilson, conduziu estudos cujo resultado final nos mostra como conclusão um paradoxo. Em experimentos que envolveram 700 pessoas, a maioria relatou ter achado muito desagradável ter ficado sozinho em uma sala com seus pensamentos, por períodos entre seis e quinze minutos. Isso mesmo, entre seis e quinze minutos!
Eis aí um paradoxo moderno. Reclamamos da falta de tempo, mas quando temos tempo e nos deparamos com nossos pensamentos, nos entediamos rapidamente por não termos o que fazer e pelo incômodo em pensar.
Que necessidade é essa de ter que estar fazendo algo o tempo todo? Talvez venha do conceito do capitalismo com sua máxima: “tempo é dinheiro”. Talvez venha de concepções religiosas que pregavam que “mente vazia é oficina do diabo”. Muitas outras concepções dos mais diversos cunhos poderiam ser usadas para tentar-se justificar essa necessidade de estarmos fazendo sempre algo, caso contrário nos vêm uma sensação de ócio pecaminoso.
Claro que ao desenvolvimento das tecnologias possa ser creditada boa parte disso, haja vista que seus sistemas nos conduzem de maneira sutil a uma interatividade permanente, nos dando uma sensação de isolamento mortal quando não estamos plugados. Tudo é sabido em tempo real e as opiniões e suas repercussões são imediatas.
A necessidade, não menos vital, de estar em contato consigo mesmo para as reflexões e amadurecimento interior, proporcionando um crescimento emocional no sentido da superação de nossas angústias e dores, só se faz possível pelo processamento mental ocioso que estimula a criatividade e as soluções. “Pois, imaginar seu problema quando se está dentro dele não é o mesmo que a realidade.”, afirmação de Jonathan Smallwood, neurocientista inglês da Universidade de York.
Que problema é esse que enfrentamos quando estamos com tempo diante de nossos pensamentos? Que medo surge nessas circunstâncias? Seria o enfrentamento de nossa consciência dura e implacável? Recorreríamos novamente a concepções religiosas ligadas ao pecado e a penitência? Desaprendemos de pensar face às facilidades da tecnologia? Abdicamos de pensar face aos temores religiosos? Claro, eis aqui um exagero meu, proposital, para fomentar esta discussão.
Independentemente do que seja e o porquê seja devemos nos lembrar que sentir o que se sente é uma capacidade que atrofia por falta de uso.
Se fomos brindados e distinguidos pela nossa capacidade de pensar, por que estamos nos tornando tão robotizados?
Encerro este artigo com a pérola de Jean d’Omersson, no seu livro “Quase nada sobre quase tudo”, quando em dado momento de reflexões sobre o pensamento, diz: “Eis o homem, enfim… Que faz ele? Mantém-se ereto em duas pernas, vira o rosto para o céu, defronta o polegar com os outros dedos, ri, canta, maneja instrumentos e joga críquete. Antes de tudo e sobretudo, porém, faz algo estranho: PENSA.

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