Um Paraná diferente

A igreja poderia estar explodindo de pessoas, mas no banco dos Homens Bons ninguém sentava. Sem teatros, sem passeios públicos, sem clubes, estamos falando dos anos setecentistas. A elite paranaense tinha que dar um jeito de ver e ser vista. As damas e os cavaleiros se aprumavam pomposamente para que na casa de Deus pudessem mais do que agradecer e se desculpar, apontar e ser apontado.
Esta foi uma das histórias contadas por Fernando Cunha, professor universitário na área de História do Paraná, que falou à Ideias sobre o nosso estado, tentou resolver enigmas identitários, esclareceu fatos históricos, salientou a importância da imagem do tropeiro para a formação de nossa sociedade, discorreu sobre o Paranismo e suas distorções e apropriações.
Enfim, na entrevista a seguir o leitor poderá ter um parâmetro da história do Paraná contada de um jeito diferente, que foge daquele positivismo clássico, a praga dos historiadores. Mais. Fernando Cunha ultrapassou nesta conversa a pura e simples descrição dos acontecimentos, levantou teorias, hipóteses, algumas conclusões sobre o ser e pensar paranaense. Do Litoral ao Norte Pioneiro quem somos, o que nos une?

 

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Fernando Cunha. Foto: Divulgação

 

Qual foi o papel desempenhado pelo tropeiro na sociedade paranaense, se é que podemos chamar assim?

Algumas coisas devem ser destacadas. Começando com a ideia de que ele era muito mais que um braço econômico – que pegava o gado em Viamão levava para Sorocaba e de lá seguia para Minas Gerais –, ele era uma espécie de caixeiro-viajante, ou seja, as pessoas faziam encomendas, afinal elas estavam “perdidas” dentro do mato e o tropeiro era quem ia para a cidade e quem trazia coisas que faltavam. Logo este papel de integração entre o interior e a cidade foi uma de suas mais importantes funções.

 

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Imagem: Reprodução/site portaldorancho.com.br

Além disso, o tropeiro também desempenhou uma formidável função no que dizia respeito a casamentos. Pois pense, naquele período as habitações em determinados locais eram muito distantes umas das outras. Então chegava esse tropeiro e avisava a família que tinha uma moça em idade de casar lá não sei aonde e aí avaliavam se o jovem queria ou não. Muitos casais foram se conhecer na porta da igreja. E para o casamento se concretizar durava meses porque os supostos noivos dependiam do tropeiro, da sua viagem. E outra coisa é o papel de correio, recebia e entregava cartas.
Ele também foi responsável por romper com a prática portuguesa de trazer tudo pelo mar: do litoral para dentro. O tropeiro fazia só interior, não tinha nenhum contato com o mar, ou seja, mostrou que é possível, se é que podemos falar assim, fazer uma economia desatrelada dos portos, da metrópole.
Mas tem uma pergunta que deve ser feita: quem era o tropeiro? Era índio, português, castelhano, negro? E há outra questão, de onde ele veio? Era gaúcho, era mineiro ou um bandeirante paulista? Há uma tendência em acreditar que ele era o mulato, isto é, a mistura de todos esses povos.

 

Fábio Campana, jornalista, escritor e estudioso da história paranaense, escreveu em seu livro A Árvore de Isaías que “De Nabuco a Feijó todos eram contrários ao desmembramento da 5ª Comarca. Venceu o Barão de Antonina e o Paraná surgiu sem empreendimento ou luta que deixassem marcas definitivas”. Alguns consideram que o Barão de Antonina “comprou” a nossa emancipação. Confere?

A questão é: por que foi criada esta outra província, sendo que nós éramos a 5ª Comarca de São Paulo? São Paulo já tinha uma oligarquia muito forte e começava a peitar o Rio de Janeiro que na época era o governo central. Então uma das formas de diminuir o poder e a riqueza desta oligarquia foi dividir o estado, afinal São Paulo ia até o Rio Grande Sul. Isso responde o lado do Império.
Pensando na perspectiva local pode-se pensar que era uma questão de se desatrelar da oligarquia paulista. A elite local não tinha autonomia. Cria-se esse estado e ele vai de novo surpreender, como já havia surpreendido com o tropeiro, só que desta vez com o mate. De repente, sem ter condições industriais, comerciais e de exportação, o Paraná começa a vender mate para o mundo, isso mostra como foi importante a emancipação. E nessa história toda quem saiu perdendo foi apenas São Paulo.
A ideia de que o Barão de Antonina botou dinheiro ali não posso confirmar cientificamente, mas é uma história que falam.

 

O Paraná nunca teve ciclos econômicos longos, o mais substancioso que tivemos foi o do mate. Na sua perspectiva, esta falta pode ter influenciado na formação de uma elite intelectual e política com representatividade nacional?

Existe essa questão do ciclo econômico sim. Mas, eu acho – aqui careceria um pouco mais de estudo – que é uma coisa que ainda hoje é discutida, a falta de identidade paranaense, acredito que passa mais por aí, pois já teríamos como formar essa elite política que partisse de uma elite econômica.
Podemos pensar a partir do meu estudo no mestrado, os Homens Bons de Curitiba entre os séculos XVIII e XIX. Quem eram esses Homens Bons? Quem poderia ser eleito para a Câmara Municipal e quem poderia ser eleito? Quem não tinha mistura de sangue – ou seja, brancos –, quem já era metido à governança – isso quer dizer homens já envolvidos na política de alguma forma.
Então de alguma forma essa elite política já existia. Quando vem o mate e toda a ascensão econômica era o momento para o Paraná se destacar nacionalmente, por que não se destacou? Por essa falta de identidade. O se pensar paranaense. Isso porque foi preciso inventar o Paraná, pois até ontem éramos paulistas e a partir de hoje somos paranaenses.

 

O Paranismo foi um movimento identitário que começou logo após a emancipação política e se consolidou na década de 1920 com o Manifesto Paranista. Em qual escala o Paranismo deu mais identidade à capital do que ao estado?

Estava-se pensando o paranaense de um jeito muito próximo do que era o paulista, afinal éramos. Não é de um dia para o outro que se faz uma coisa nova. Nós tínhamos coisas em comum: as duas capitais não estão no litoral, como é Salvador, Rio de Janeiro, Recife, etc.
Entre os intelectuais e a elite já vinha sendo fomentada esta ideia, mas eles precisavam passar isso para o povo, a solução encontrada foi com o Alfredo Andersen pintando para mostrar através das imagens o que era o Paraná. Naquela época não tinha televisão, não tinha rádio, então essa foi a saída.

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Alfredo Andersen. Imagem: Reprodução/site cultura.pr.gov.br

Mas aí, no final do século XIX surge outro fator: o processo imigratório europeu. E essa ideia que estava sendo construída de um paulista melhorado, civilizado é deixada meio que de lado. E a partir daí Curitiba assume essa coisa de várias colônias, o que nada tinha a ver com o interior, o Paraná é outra conversa. Estavam tentando pensar a capital.
Hoje se você perguntar para os paranaenses, ou mesmo para os curitibanos, sobre o movimento paranista, não vão saber responder. Tornou-se uma conversa reduzida a um nicho que estuda e lê a respeito e não uma identidade paranaense, nem mesmo curitibana.

 

 

 

 

 

Romário Martins quando escreveu sua História do Paraná transformou o índio num bom selvagem, com atributos positivos, como valente, generoso e exótico. Porém, aparentemente é uma contradição, pois os índios em processos de colonização foram combatidos e até mesmo silenciosamente exterminados. Além do mais, Romário Martins, como homem de seu tempo, carregava o típico pensamento eurocentrista com os ideais de civilização. Logo, qual a importância para o Paranismo romantizar o índio?

 

O Tindiquera, o índio que mostrou onde seria Curitiba, vai entrar num contexto um pouco maior; na ideia de criar um mito do início da cidade, assim como Roma tem Rômulo e Remo. E para isso precisava ser alguém da terra, que era de fato daqui, ou seja, o índio. E onde começou tudo foi no Atuba, só que lá passava um rio que alagava toda a região, então eles não poderiam permanecer, é aí que vem a mitologia e diz que a santinha estava virada para a direção que teriam que ir. Então já entra a Igreja Católica, a fé do povo e o homem da terra. E uma vez tendo que descrever esse homem da terra, aproveitou-se da onda da literatura que tornava o índio um bom selvagem, mas o objetivo inicial não era a sua valorização, era mostrar que já existia um Paraná mesmo antes do português chegar.

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Imagem: Reprodução/site cultura.pr.gov.br. Imagem: Reprodução/site educacao.curitiba.pr.gov.br

A santinha, que é a Nossa Senhora da Luz, deu a direção, mas não disse onde, então o Tindiquera foi fincando um monte de lança e uma delas floresceu e virou uma árvore, que até hoje dizem que é uma daquelas árvores que está na Praça Tiradentes. Mas isso não é do Romário Martins, se não estou enganado é uma adaptação do livro do Êxodo.
Curitiba não escapou do modo de colonização portuguesa. Então tínhamos a praça, de um lado a igreja e de outro a câmara municipal, como qualquer cidade do interior. Curitiba é uma grande cidade de interior. Onde hoje na esquina da Rua Mons. Celso é a Pernambucanas era a Câmara Municipal. Era bem pequeno, começa aumentar depois que fazem o ponto final de carruagens.

 

Ainda sobre o Paranismo, é possível que ele tenha catalisado um preconceito racial, sobretudo com a obra Um Brasil diferente, de Wilson Martins?

Acredito que houve uma apropriação do Paranismo. Usou-se uma coisa que já vinha sendo construída para misturar com outra. Então aproveitou-se do Paranismo para esconder, tornar invisível a população negra e indígena. Podemos comparar nas devidas proporções que foi mais ou menos o Nietzsche para o Hitler e não tem nada a ver. O Wilson Martins descreveu o que já tinha aqui, era o olhar dele. E quando digo “aqui” estou falando de Curitiba, o Paraná não tinha e não tem nada a ver com a capital.
E é simples de perceber isso: o litoral tem abundante presença portuguesa; no Primeiro Planalto temos tudo; depois que você passa São Luís do Purunã começa uma mistura. O sudoeste é gente de Rio Grande e Santa Catarina; o Norte Pioneiro só tem mineiro e paulista que chegaram no período do café; e o centro (o Segundo Planalto) ficou vazio, que é onde entra minha teoria sobre os tropeiros e a integração.
E o que o Wilson Martins descreve é o Primeiro Planalto, não tem nada a ver com essa ocupação cabocla feita pelos tropeiros do Segundo Planalto, nem com o Sudoeste gaúcho e catarina e tampouco com o Norte Pioneiro.

 

A falta de identidade talvez seja a nossa identidade?

Tem uma fala, que agora não me recordo de quem, que diz que a nossa identidade é o vir-a-ser. Estamos sempre nesse movimento. Então os outros conseguem estabelecer limites e o nosso é justamente o contrário, é uma identidade de relações.
Eu penso que quem seria o nosso grande personagem paranaense seria o tropeiro, pois fica difícil pensar somente em Primeiro Planalto. Mas, agora imagina, no final do século XIX começo do XX você associar a imagem de um estado novo ao “caboclo”? Todo mundo associava ao homem-branco-europeu e vivíamos aquele processo de europeização, fazer disso aqui uma nova Europa. Lá no século XVIII já se distinguia, os Homens Bons não têm mistura de sangue, como falamos. Por isso o tropeiro caboclo ficou de lado.

 

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Paulo Leminski. Foto: Dico Kremer

 

 

O instituto Paraná Pesquisas realizou em 2013 uma pesquisa com pessoas de todas as regiões do Brasil e mostrou que o nosso estado é desconhecido. 99,1% dos entrevistados não souberam citar o nome de um escritor nascido aqui no Paraná. Sendo que temos em vida e atuante um dos principais nomes do gênero de contos do mundo, Dalton Trevisan, e além dele o icônico Paulo Leminski. A que se deve esse “anonimato”?

Se você perguntar um ícone baiano para um baiano ele vai te falar de Jorge Amado, de Dorival Caymmi. Se fizer o mesmo com um carioca ele vai te falar de Noel Rosa, Cartola. Para o mineiro, imediatamente vem Drummond. Agora se você perguntar para um paranaense, pior, para um curitibano, me diga um nome? Bem provável que mais de 50% não saiba falar.
E é mais sério ainda. Só é obrigado a ensinar história do estado na terceira série do ensino fundamental, aí ensinam daquela maneira lúdica, adequado para a idade, mas espera-se que a partir deste conhecimento aquilo se desenvolva, porém estaciona no conhecimento da terceira série que fala da Gralha Azul e do Pinhão.
É algo que eu não sei dizer por quê. Não sei se esse conhecimento vai ameaçar alguma coisa, não sei se tem interesse em desconstruir o que se construiu. É de se pensar.

 

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