Livros – Um amor táctil

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Foto: Divulgação

Inspirada na data que comemora o Dia Nacional do Livro, 29 de outubro, a coluna de hoje faz uma volta no teor do conteúdo e em vez de indicar música, tratará de livros que têm a MPB como tema.

Sem levar em conta ordem de importância ou alfabética ou qualquer outra que não seja a memória, as indicações começam pelo maravilhoso e definitivo A Música Popular Brasileira na Vitrola de Mário de Andrade. É sabido que o escritor modernista ocupava o tempo de se barbear pelas manhãs para deixar que a música invadisse suas paredes. Mais que companhia prazerosa, as audições foram ocupadas para pesquisa e as anotações eram feitas na capa de cada disco. Depois de um tempo, o vasto material sobre música erudita, popular urbana e folclórica, que tratava de autores dessa e de outras terras, gravados aqui e acolá, passou pelas mãos de Flávia Camargo Toni e foi organizado em meio a outros textos e cartas. O resultado está nas livrarias e é um documento de pesquisa e opinião riquíssimo.

Outro que não usou a vida de plateia apenas como contemplação e passou a dividir os conhecimentos colhidos ao longo de audições é Ricardo Cravo Albin. Pesquisador respeitado nos assuntos musicais, ele tem várias publicações relevantes em torno do tema, entre elas, MPB – A História de Um Século conta das origens da música popular brasileira, os gêneros que a compõe e compositores que foram essenciais nas mudanças e desenvolvimento de nosso grande patrimônio. A obra ainda é brindada com 400 fotos que também dizem muito sobre as mudanças ocorridas no século passado.

Sérgio Cabral, o original, é jornalista em pele de historiador inclinado pro lado da música. Suas habilidades de pesquisa resultaram num leque imenso de biografias de grandes nomes da MPB como Tom Jobim, Nara Leão, Pixinguinha, Ary Barroso e Elisete Cardoso. O destaque do parágrafo vai para A Música Popular Brasileira na Era do Rádio, livro que começa na década de 1920 e investiga a chegada dessa transformadora tecnologia como fundamental para projetar o choro e o maxixe. Também trata de questões que correm nos corredores paralelos da música: política, nomes que roubaram composições dos mais ingênuos, salas de espera de cinemas e teatros com música ao vivo e execuções obrigatórias.

E o Tinhorão? Qual músico não se arrepia ao ouvir o seu nome que vem com uma crítica implacável sobre o que é bom e o que é altamente decepcionante e atrasado em todos os aspectos de nossa música? José Ramos Tinhorão é formado em Direito e em Jornalismo, mas a atuação em torno da música se dá desde 1966 e de maneira exclusiva a partir da década de 1990, tem quase 30 livros publicados a respeito. Nesse ano o seu aclamado e temido O samba agora vai: A farsa da música popular no exterior foi reeditado e chegou causando o mesmo rebuliço de 1969. Na nova edição ele não mexeu no passado, deixou todos os pontos, vírgulas e informações, as novidades estão por conta do que aconteceu de 1970 pra cá e se você se interessou por essa leitura, prepare-se, a metralhadora está mais potente do que nunca, em entrevista ao Globo em julho deste ano quando se preparava para a FLIP, ele deu pistas de como andam suas impressões: “Não tem mais música brasileira para criticar […] o iê-iê-iê foi uma simplificação do rock, um rock trocado em miúdos para otário; Roberto Carlos, no regime militar, era aquele menino que as mães até admitiriam como namorado das filhas e até Chico Buarque, me diz uma composição nova dele de 20 anos para cá. […] DorivalCaymmi, é chamado ‘cantor dos mares da Bahia’, embora sua canção ‘O mar’ seja montada num tema de Grieg.” Como se pode ver, não há nomes incontestáveis para a caneta de Tinhorão. Com ele é tudo ou nada, não há meio termo. Pra quem gosta de certezas e verdades definitivas é uma boa indicação, pra quem não gosta vale a diversão.

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O que Tinhorão tem de chato, sobra em bom humor para Nelson Motta. E não só isso, a ele também é creditado um texto gostoso, fluido, como quem conversa na sala ou se estica num longo telefonema a imaginar as caras e bocas que faz ao contar uma história. Não sei dizer de seu mais recente lançamento, As Sete Vidas de Nelson Motta, mas me parece que é um resumão sobre tudo que lhe aconteceu até o seu septuagésimo aniversário, boa parte de nossa música deve figurar ali. Agora, tanto o Noites Tropicais e o Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia são obras de um fôlego só, daquele tipo em que conhecemos o enredo e o final, mas que nos tomam de forma inédita, a cada página, uma surpresa.

Zuza Homem de Mello é nome conceituadíssimo na cena da MPB. Largou o curso de engenharia da PUC na década de 1950 e tratou de ir para os Estados Unidos estudar musicologia na Juilliard School of Music de Nova York e na School of Jazz de Tanglewood, Massachusetts e literatura inglesa na New York University. Deixou de lado o contrabaixo para se transformar num dos mais respeitados produtores musicais desses tempos que começaram lá na metade do século passado. Tem no currículo dezenas de livros que mapeiam as transformações da nossa sociedade sob a ótica da música popular, entre eles, A Era dos Festivais: Uma Parábola, nele, o autor trata de todas as transformações que ocorreram na música brasileira a partir dos festivais de música da Record, é um relato de quem estava presente, observando, anotando e vivendo bastidores e coxias.

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Para quem é músico, imprescindível a coleção que Almir Chediak colocou no mercado. Mas os Songbooks também servem para a plateia porque sempre trazem biografias, depoimentos e fotos interessantíssimas.

Há quem deteste o Ruy Castro, quem em rodas maltrapilhas de conversas afirme a frase “Ruy não pensa, publica”. Mas cá pra nós, ainda que peque em um ou outro detalhe de pesquisa, o que é perfeitamente aceitável num trabalho que investiga um tempo em que a documentação não era um forte, Ruy tem um texto corrido, gostoso e seus livros nos chegam como crônico nas romanceadas de momentos que foram gloriosos para a música urbana, e uma delícia pra ele certamente. Não há como não se render a A Onda que se Ergueu no Mar, por exemplo, e que alguns críticos chamaram de “resto de informações de gaveta”, por ser uma espécie de continuação de seu Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova. Sugiro um desprezo à crítica e um mergulho nos escritos de Castro.

Radialista e produtor de várias mídias, Ruy Godinho, paraense radicado em Brasília, começou em 2008 sua série Então, Foi Assim em que entrevista compositores e traz para o público o que acontecia no momento da criação de suas músicas. Histórias engraçadas, tristes, parcerias e várias curiosidades são desvendadas pelo autor, que já está no terceiro volume, num acumulado de 186 canções.

Quem ouve Luiz Tatit sabe bem do seu poder de comunicação. Mas não dá para misturar estações, uma coisa são os acordes outra as letras, certo? Em alguns casos sim, mas no de Tatit a mesma competência desfila nos dois segmentos. Em 2004 publicou O Século da Canção e lá em sua página na web o resumo explica que quem se aventurar por suas páginas, encontrará as pesquisas e ideias do autor que “sugere que, em princípio, todo e qualquer estilo de canção, independente da procedência e do grau de prestígio que lhe sejam atribuídos, pode ser decisivo para a compreensão de uma época musical. Daí a necessidade de frequentes releituras que identifiquem novos matizes no interior do mesmo processo evolutivo.”

VOU+TE+CONTAR

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Só para sair do campo da pesquisa e história, um momento totalmente relax e ficcional: Vou Te Contar – 20 histórias ao som de Tom Jobim, coletânea de contos organizada por Celina Portocarrero. 20 autores partiram de músicas do nosso Maestro Soberano para compor suas histórias. A leitura é agradável e não há como passar pelo livro sem se imaginar sendo o vigésimo primeiro.

Não posso continuar a escrever porque há um número sem fim de registros sobre nossa música, sem falar das incontáveis teses acadêmicas que circulam em cursos de todos os tipos. A coluna é pequena para tanto. Mas é bom lembrar sempre, conhecer a história de nossa música é saber um pouco mais sobre nós mesmos, é entender importantes transformações da sociedade. Hábitos, política, comportamentos, modismos, linguagens, preferências tudo está nos versos da MPB.

E só para não dizer que não falei de flores, para o encerramento a música Livros de Caetano Veloso, que também é autor do prolixo e saboroso Verdade Tropical:

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“Tropeçavas nos astros desastrada

Quase não tínhamos libros em casa

E a cidade não tinha livraria

Mas os livros que em nossa vida entraram

São como a radiação de um corpo negro

Apontando para expansão do Universo

Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso

(E, sem dúvida, sobretudo o verso)

É o que pode lançar mundos no mundo

 

Tropeçavas nos astros desastrada

Sem saber que a ventura e a desventura

Dessa estrada que vai do nada ao nada

São livros e o luar contra a cultura

 

Os libros são objetos transcendentes

Mas podemos amá-los do amor táctil

Que votamos aos maços de cigarro

Domá-los, cultivá-los em aquários

Em estantes, gaiolas, em fogueiras

Ou lançá-los para fora das janelas

(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)

Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los

Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas

E de mais confusão as prateleiras

 

Tropeçavas nos astros desastrada

Mas para mim foste a estrela entre as estrelas”

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