Nudez maldita até na Playboy

A decisão da revista Playboy de tirar de cena as mulheres peladas, que sempre foi o seu forte, decorre de vários fatores: o estresse desse tipo de material por estar competindo agora com os blogs da internet e mais ainda em função também da perda de originalidade na nudez. Claro que o lado intelectual da publicação, suas entrevistas e reportagens-ensaio sobre temas comportamentais, sempre foi bem explorado e até se poderia afirmar que essa decisão decorre de um compromisso com esse aspecto da revista.
Numa reunião social uma educadora falou que seu venerando pai se ocupava justamente desse lado intelectual da publicação, como se estivesse alertando que o culto à anatomia não o empolgava, ao que um dos presentes frisou que essa seletividade era como comer a casca e jogar fora a banana, grosseria que não combina com humor.
Obviamente a competição não é apenas com a internet e seus exageros de cunho narcisista, mas também a desmistificação do nu nos calendários de borracharias e até no dia a dia dos ambientes sociais e no cinema e na televisão. Essa exposição do corpo chegou à saturação em que pese as manipulações que faziam de jogadoras de vôlei e basquetebol transfiguradas em pin-up girls e postas com a aura do mistério na revista. Jogadoras e árbitras de futebol pintaram nessa relação e até uma líder sem terra, bonita e que mais tarde apareceria dirigindo caminhão, expressão também de libertação e competitividade da mulher.
Lembro que certa ocasião duas veteranas da televisão, Ana Maria Braga e Hebe Camargo, essa à época perto dos oitenta, se apresentaram em trajes mínimos numa publicação em atitude talvez posta a serviço da “melhor idade”: essa forma de erotismo não poupava a gerontocracia e ao contrário a punha em merecido destaque como se não existisse a permanente Sofia Loren.
A marcha do tempo tem mexido com tudo isso e não estivesse eu, ousando entrar na seara da Adriana Sydor nesta publicação, lembraria da forma como a música popular mexeu com esses valores às vezes caricaturando o pudor em “A casta Suzana” com os versos: Eu conheci a tal Suzana/ a casta Suzana lá do posto seis/ coitada como está mudada/ teve apendicite e ficou sem it. Esse eufemismo malandro aparece na apologia à mulher: Papai Adão, Papai Adão já foi o tal/ hoje é Eva quem manobra/ e a culpada foi a cobra. A melhor sequência é sincopada: Uma folha de parreira/ uma Eva sem juízo/ uma cobra traiçoeira/ lá se foi o paraíso. Ou ainda a Chiquita bacana lá da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica/ não usa vestido, não usa calção/ inverno pra ela é pleno verão/ existencialista com toda razão/ só faz o que manda o seu coração. E assim Sartre virou também uma alusão carnavalesca como já havia ocorrido com Balzac na exaltação da mulher com mais de trinta anos. Não quero broto/ não quero, não quero não/ não sou garoto/ pra mudar de opinião/ sete dias na semana/ preciso ver minha balzaqueana.

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