A hora do sacrifício

Quanto tempo dura uma crise? Eis a pergunta do brasileiro desempregado, o amedrontado, e também aquele que não está nem aí e só se incomoda com o tema que domina as capas dos jornais.
Nos jornais, no rádio, na televisão e no Facebook, os especialistas, os entendidos e os palpiteiros oferecem suas projeções como resposta. Uns dizem que 2016 será menos pior que 2015 e que o país começa a se recuperar em 2017. Outros deixam a recuperação para 2018 ou 2019. Há respostas que agradam vários humores, dos pessimistas aos otimistas, passando até pelos entediados.
Assumo o papel de especialista, palpiteiro, chato ou qualquer coisa que o leitor prefira e ofereço a minha resposta: uma crise dura enquanto suas causas não forem revertidas.
Aí está o problema das tais projeções que estabelecem uma data derradeira. Como ter a certeza de que os “fundamentos da crise” serão revertidos até o ano tal ou tal? Aliás, para que sejam revertidos, eles precisam ser corretamente identificados e esse é o ponto que torna a situação patética e também desesperadora. O horizonte das análises e palpites é o fim da Era Dilma Rousseff, como se isso levasse automaticamente o país ao rumo certo. Veremos que não é bem assim.
O causador da crise chama-se Estado Brasileiro, vulgo “Pai de todos”. O “Pai de todos” sofre de uma doença horrível que é a elefantíase. A elefantíase estatal tem suas peculiaridades. Ela provoca um inchaço generalizado em seu corpo e também gera alterações em seu comportamento, levando-o a se meter em todo assunto ou área que não lhe diz respeito.

Campinas - SP, 29/08/2013. Presidenta Dilma Rousseff durante a cerimônia de entrega de 520 U.H. no Residencial Campinas Sírius, do Programa Minha Casa Minha Vida e Anúncio de R$ 1 Bilhão em contratações do Programa Minha Casa Melhor. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Dilma Roussef – Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Acontece que nossa elite intelectual, seja em sua veia política ou acadêmica, sofre de uma paixão pelo Estado que a torna incapaz de enxergar nele seus defeitos nefastos, suas atitudes lesivas e principalmente, sua doença. Se não enxerga sua doença, obviamente não oferece o tratamento correto. É por isso que o Estado passa quase ileso pelas críticas, diagnósticos ou projeções. Ele não é visto como o problema. O problema é simplesmente a gestão. Daí a enxurrada de números e soluções mirabolantes cujo único objetivo é solucionar o problema de caixa do Estado e não raramente estas soluções dão ainda mais força para o mal da elefantíase estatal não diagnosticada. Quem discordar pode ir conversar com a CPMF.
É claro que a paixão pelo Estado que faz a mente e o coração da elite também encontra amparo no povo.  Desinformado pelo bombardeio de “estatices” que sofreu ao longo da nossa história, o povo se sente incapaz e enxerga no Estado a solução para os seus problemas, quando muitas vezes é a causa. Está aí um terreno fértil para os oportunistas populistas se apresentarem como salvadores que colocarão o Estado a serviço do povo. Como uma bondade estatal é algo irrecusável, a demanda se agiganta e o Estado se agiganta pra suprir a demanda. Foi assim que chegamos até aqui.
Para quem ainda não entendeu ou não acredita, vai uma pitada de números: em 2014 a arrecadação de impostos atingiu 1,8 trilhões de reais, mas como isso ainda é insuficiente para o tamanho da bondade do “Pai de todos”, fechamos o ano com uma dívida pública acumulada de 2,29 trilhões de reais, o que equivale a mais de sete vezes o PIB do Paraná.
Neste ponto surge o agravante mais desconhecido das massas e até da elite. Como pagar as contas do dia a dia e continuar a ser o “Pai de todos” se você deve mais do que arrecada? “Ah, empurra a dívida pra frente e depois vê o que faz”, diz o malandro. É exatamente o que é feito. O Estado faz a “rolagem” da dívida. Emite títulos com promessas de bons rendimentos para resgate futuro, ora em prazo mais longo, ora em prazo mais curto e honra os títulos no vencimento com o dinheiro que ele toma do povo via impostos.
Como a necessidade de dinheiro é muito grande, o Estado se torna um grande player do mercado e abocanha boa parte da oferta de crédito disponível. É claro que consequentemente vai faltar crédito para todo mundo que precisa e então, pela lei de oferta e procura, o custo do aluguel do dinheiro, os famigerados juros, ficarão mais altos tanto para o Estado quanto para as pessoas.
Significa que a elefantíase do “Pai de todos” distorce e contamina o mercado de dinheiro, pressiona os juros para cima, o que faz com que o trabalhador sufocado por impostos pague juros exorbitantes em um empréstimo pessoal e o empresário fique sem opções de dinheiro barato para financiar um novo investimento ou mesmo buscar capital de giro para uma empresa já em atividade. Bingo! A economia está travada.
Pra reforçar a trava a fundamentar a crise, há outra ação estatal que enche os olhos dos apaixonados por ele: o protecionismo. O Estado impõe barreiras tarifárias ou regulamentos que dificultam ou simplesmente impedem a entrada de produtos e investimentos estrangeiros no país. Assim o país abre mão do intercambio tecnológico, da oferta de melhores produtos para os consumidores e do livre equilíbrio entra oferta e demanda por produtos, o que proporciona o controle da inflação. É pra proteger a indústria nacional, dizem. A Câmara de Comércio Mundial concluiu que o Brasil é a economia mais fechada do G-20. Nossa indústria deve estar bombando, só que não.
A participação da indústria no PIB de 2014 foi de 10,9%. Em 1980 era de 27,2%. Calma, é verdade que há outros motivos para a decadência da indústria, como o incremento do setor de serviços e especificamente no nosso caso, a carga tributária e encargos trabalhistas. Mesmo assim, se a proteção fosse eficaz, não deveria estar tão ruim. Na Coréia do Sul a indústria é responsável por 31% do PIB e por 15% na bolivariana Argentina, 50% a mais do que no Brasil.
Volto agora às projeções de futuro. Dilma Rousseff não deve resistir até o final de seu mandato, mas isso não significa que o país vai dar um “pedala” na crise assim que se livrar de Dilma. Dilma é incompetente e é parte de um esquema sujo de poder que é responsável pela corrupção generalizada, mas tirando isso, é só mais um membro (em Dilmês, membra) de uma elite política estatista que provavelmente será substituída por outro membro desta mesma elite. Haverá uma troca de gestão, não uma troca de conceito. O Estado continuará a ser o eixo da sociedade. O “Pai de todos” continuará a sofrer de elefantíase e só vestirá uma limpa ou nem tanto. Quem discorda, pode ir conversar com o José Serra, o homem de economia da oposição. Serra é uma mente da Cepal, uma escola tão intervencionista que faz Guido Mântega parecer um liberal da Escola Austríaca.
Se o Estado, o fundamento principal da crise, não é atacado pela situação, nem pela oposição e nem pela academia, não há nenhuma base para alguém dizer que o Brasil vai sair da crise em 2017 ou 2018. Como assegurar que o “Pai de todos” não vai tentar crescer ainda mais até lá? Só se faz isso por dever profissional.
No meu papel de especialista, palpiteiro ou chato, não cravo uma data. Digo que a crise só vai passar quando suas causas forem revertidas. Mas pra reverter as causas, o brasileiro, as elites política e acadêmica terão que aceitar fazer um sacrifício. Será preciso matar o Estado doente. Será preciso enfiar uma bala na cabeça do “pai”.

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