Liberté, Egalité, Fraternité e MPB

La Musique

La musique souvent me prend comme une mer!
Vers ma pâle étoile,
Sous un plafond de brume ou dans un vaste éther,
Je mets à la voile…

A música p’ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar…

(Charles Baudelaire, tradução de Delfim Guimarães)

 

Se já fosse possível tratar do papel com dispositivo que toca música, você iniciaria esta leitura embalado por Michel Legrand a interpretar Alegria de Viver de Luiz Eça. É assim que escrevo do lado de cá, na companhia do intérprete e do compositor, aula excelsa. O mergulho do pianista, arranjador e compositor pelo jazz o fez namorar com a Bossa Nova, com o Brasil, com nossos grandes. O fato só não me encanta mais que a própria música de Legrand.

Para a coluna deste mês, penso em Paris iluminada pelas luzes de dezembro e nas chansons que compõem o cenário e a vida. Porque é assim a Paris que todos conhecemos, não importa o que tentam, o que queiram, o que aterrorizem. Paris é maior.

E deste pensamento pulo para o diálogo entre França e Brasil, num antigo vai e vem de informações musicais.

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Michel Legrand – Foto: Reprodução site/jazzfinland.fi

Charles Trenet e Leon Chauliac compuseram, em 1942, Que reste-t-il de nos amours?, a primeira gravação foi do próprio Trenet de lá pra cá ganhou versões em vários idiomas. No Brasil, conheceu a voz de João Gilberto e depois de Rosa Passos que teve ainda a companhia de Henri Salvador para interpretação, com versão delicadíssima de Ronaldo Bastos e Celso Fonseca “O que restou de um dia azul / De um mês de abril na Côte d´Azur / E das canções que me ensinou o vento? / Falar françês / Sonhar a dois / Baisers volés / Rever Truffaut / O que será que vai ficar para depois? / Ao conjugar um temps passé / Vejo o lugar onde você / vai me esperar / E o nosso amor vai morrer”. Algum tempo depois, agora, bem pertinho, ontem, em janeiro de 2015, Maria Bethânia também quis se aventurar pela onda de Trenet e encomendou a Nelson Motta nova versão. Não conheço os pormenores que guiaram a opção de ter uma versão exclusiva, sem aproveitar a antiga e tão bonitinha, mas Motta aceitou a empresa e partiu da versão americana de Albert Beach, de 1957, para dar jeito nos traços da última Flor do Lácio: “Um novo amor no coração / Um céu azul, uma canção e mais que um beijo / Eu te desejo: um novo amor / Que te alegre e faça rir / Que faça teu corpo sentir frio e calor, prazer e dor / Mais do que eu / Meu coração já aceitou que o nosso tempo já passou / Que para nós não há depois e nem talvez / Eu te desejo: amor sem fim”. Ficou bonita e cheia de altruísmo, uma voz que conhece o amor e o coloca acima do final de um relacionamento, também gostei.

Por aqui são muitos os cantores que se arriscam nos biquinhos da língua francesa e se dedicam a interpretá-la. Alguns têm mais sorte que outros, porque cantar em francês não é só se preparar diante do idioma, mas é também, e principalmente, enfrentar a força de uma cultura que tem registro desde antes dos anos 1000, é saber, respeitar e se misturar a isso.

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Charles Trenet – Foto: Reprodução site/heritage-charles-trenet.fr

Maysa soube visitar Jacques Brel. Gravou de forma inesquecível uma das melhores interpretações de Ne me quitte pas, até arrisco a dizer que a dela ficou melhor que a do próprio Brel, que sofreu tanto por Suzanne Gabriello e é também definitivo em sua súplica e pedido de reconciliação. Nossa Maysa visitava Paris no final da década de 1950 e foi na boate La Louisianne que subiu ao palco e cantou o clássico pela primeira vez. Repetiu o feito três anos depois no Olympia para comoção geral da plateia, inclusive do próprio Brel que acompanhou tudo. A coragem de enfrentar franceses numa composição tão aclamada, de um belga louvado pelos parisienses, poderia ser suicida se alguma coisa desse errado. Mas Maysa era mais que qualquer julgamento e foi aplaudida de pé e os franceses pediram bis, e quando acabou pediram bis mais uma vez e repetiram o feito ao final da terceira vez. Maysa era mais e deu por encerrada a apresentação no Olympia mesmo com a plateia a gritar por sua volta e pela quarta interpretação.

Temporada em Paris fez Renato Braz conhecer vários tons da música francesa, da música feita na França. E entre outras que estão em seu repertório, também figura o belga Jacques Brel. Gravou em seu álbum Outro Quilombo a belíssima Dulcinea (em parceria com M. Leigh). Na faixa o acompanham, com toda a delicadeza, o contrabaixo de Sizão Machado, violão de Mario Gil e flautas de Teco Cardoso. Bom de ouvir, tocante.

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Jacques Brelh – Foto: Reprodução site/sicnoticias.sapo.pt

Paul Misraki nasceu na Constantinopla, foi para Paris ainda menino e de pronto começou a ter aulas de piano, de harmonia e contraponto. A carreira foi cheia de sucessos e variada, com obras sinfônicas, músicas para cinema, estudos de folclore e coisas esotéricas a que destinou livros. Andou pelo Brasil, Argentina, Estados Unidos, em cada lugar, plantou e colheu. Joyce olhou para a obra de Miskari e pinçou “L’Étang”. Bonito!

O Olympia é o mais antigo endereço de espetáculos de Paris. Está lá, soberano, desde 1893 a testemunhar os costumes franceses, os shows, as óperas, balés, festivais e crises. Teve momentos difíceis: virou cinema, depois cedeu aos alemães e teve suas paredes a ecoar hinos de outras tribos, bailarinas decadentes de cancan subiram ao palco. Mas sobreviveu, recuperou prestígio e se refez como uma das grandes salas do mundo. Os dois mil lugares na plateia já foram preenchidos mais de 30 milhões de vezes. Se apresentar no Olympia era um feito e tanto para um artista. Alguns dos nossos já pisaram naquele palco, caso da já citada Maysa, o Baden, o Vinícius, Caetano, Chico, Milton e muitos outros, até Michel Teló, veja só. Em 1968, com o teatro tinindo e mais critério com a agenda, Elis Regina foi convidada. Até então, o Olympia não permitia que um artista repetisse show numa mesma temporada, era preciso um intervalo mínimo de um ano para que fosse novamente convidado. Elis fez tanto sucesso em sua primeira apresentação, que meses depois quebraram regra e a chamaram de volta. Nós ainda temos na memória o que era a Pimentinha no palco e em terra francesa ela não foi diferente. Tratou de aprender um pouco do idioma para se arriscar em versões feitas por Pierre Barouh e fazer agrado aos ouvidos parisienses. Há registro em CD, no YouTube, em fotografias. Temos documentadas suas apresentações, é uma delícia ouvi-la ao lado de Barouh em La nuit des masques, versão para, claro, Noite dos Mascarados, de Chico Buarque ou em La nuit de mon amour, A noite do meu bem, de Dolores ou, ainda e principalmente, sua incursão por Samba da Bênção e uma mistureba deliciosa entre português e francês. Fantastique! Músicos franceses visitaram a Bossa Nova, o samba, nossos compositores. Henri Salvador, também já citado aqui foi uma inspiração para muita gente boa e foi também inspirado por esta mesma trupe, cantou muito as coisas do Brasil em francês e em português – um corredor de mão dupla. Georges Moustaki, nascido no Egito mas artista super francês, cantou, entre outras, Águas de Março com versão própria e charme de tirar o fôlego: “Un pas, une pierre, um chemin qui chemine / Un reste de racine, c’est un peu solitaire / C’est un éclat de verre, c’est la vie, le soleil / C’est la mort, le sommeil, c’est un piège entrouvert”. Brigitte Bardot, a mais carioca das francesas também se dedicou à música; Pierre Vassiliu, tem uma versão muito graciosa para Partido Alto, Nicolleta canta Fio Maravilha, Dalida sopra em bom francês A Banda. George Brassens cantou bossa, Charles Aznavour também. E por aí vai…

Pierre BAROUH chez lui à Paris le 19 février 2013

Pierre Barouh – Foto: Reprodução site/coupdecoeur.ca

Mas nem tudo é Liberté, Egalité e Fraternité. Liberdade, em excesso, talvez. E foi assim, livremente, que um ídolo meia-boca da década de 1960 passou a perna no nosso Luiz Vieira e seu Menino de Braçanã. Marcel Amont disse que era sua a Des larmes de tendresse e gravou e cantou e se aprensetou em idioma franco no falar e muito desonesto no fazer. Luiz Vieira custou a acreditar e quando conheceu o ocorrido procurou a justiça, queria reconhecimento. Parece que não deu certo. Há disponível na internet, na página do TJ de São Paulo, a ação que foi movida por Luiz, mas a leitura é de um juridiquês tão sofrível, que não tive fôlego para a tradução, mas lá no finalzinho reconheci, com tristeza, “Nega-se provimento.” De qualquer forma, ouvir a versão de Amont, dá a certeza sobre o ocorrido.

Há em nossa música o bom humor de importar expressões para fazer graça. Não sei se foi Assis Valente quem começou com essa tiração de sarro, mas sua Tem francesa no morro, de 1932, é uma divertida sátira da burguesia carioca, que na época achava super bacana adotar algumas expressões naquele idioma para se mostrar. Assis era um homem muito inteligente e um compositor divertido: “Quandla dance comece on dance icion dance aculá / Dance Ioiô / Dance Iaiá / Si vu nê vê pá dancê, pardon mon cherri, adie, je me vá / Dance Ioiô / Dance Iaiá”. Outros também entraram na onda chiquetérrima de adular o francês para dar disfarce à limitação cultural; não sei se Maurício Carrilho e Paulo Cesar Pinheiro foram os últimos, mas a Cabrochinha, de 1997, tem muito humor: “Mas ‘sivuplé’, ô, ‘messiê’ garçon / Leva o menu que eu não entendo lhufas / Eu vou pedir esse Don Perignon / Um escargot e um filet com trufas / Depois daquela sobremesa que flamba / A gente volta pro samba / A gente encerra o glamour / No fim da noite um bangalô / Penhoar e um abajur / Pra gente fazer l’amour / (L’amour toujour)”.

Ainda há muito a tratar sobre este flerte tão prazeroso entre as duas culturas. Mas a coluna precisa de um ponto final, e como começou a citar Legrand, é com suas palavras, de nome de música e título de livro, que tratamos de nos despedir, sem lamentos: “rien n’est grave dans les aigus” ou, em bom português, “nada é grave nos agudos”. Au revoir!

 

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