O pianista de Curitiba

Um instrumentista que manteve longo e incessante caso de amor com seu piano. Aos 11 anos teve quatro aulas com Cláudio Stresser e depois seguiu pela vida a aprender sozinho, na força de sua vontade e na dádiva de sua inteligência, o que poderia fazer com as teclas.
Num tempo em que a profissionalização da música deixava ainda mais a desejar do que nos dias de hoje, para sustentar a família se dedicou a ocupação mais estável: era um faz-tudo da eletrônica, o que garantiu a educação dos sete filhos.
Mas o fato de ter casado com a profissão e com a família nunca o separou do piano. Gebran Sabbag fez carreira e mais, fez história. Não existe jazz em Curitiba nas décadas de 1950 em diante sem sua presença. Ele figura em todas as investigações de música em nossa cidade da metade do século passado pra cá. Inexplicável é pensar que tamanha importância é tão dissonante com o que está gravado (fora os registros informais, que são muitos, principalmente recentemente em época de celular-gravador-câmera, todo mundo que o ouvia tinha vontade de levá-lo pra casa), Gebran tem um único CD. “Feltro e Bronze” foi gravado na iniciativa e companhia do filho Jeff, o pai aos 81 anos com toda memória e sabedoria na ponta dos dedos, o filho, quase a superar o mestre – feras. A obra desfila todas as possibilidades dos Sabbag pelo mundo, é mais fácil encontrá-la nos catálogos internacionais do que nas ingratas lojinhas físicas.
Gebran era também um homem delicado, gentil, educado. Um desses gentlemans que não se encontra todo dia. Sabia que seus conhecimentos de música eram maiores que da imensa maioria e mesmo assim, ou por isso mesmo, a fala vinha mansa, a explicar didática e humildemente o que os outros não sabiam. As conversas eram aulas sem tom pernóstico e seus ouvintes sempre saíam delas com uma informação a mais, uma dica de audição, um disco para conhecer.
Sua última apresentação começou às 20:30 de 11 de novembro, no Dizzy Café Concerto, que tem assinatura e administração do Jeff. Morreu na noite seguinte, aos 83 anos, deixando o nome em todos os cantos de Curitiba, herança aos filhos e à cidade.

 

 

Foto: Divulgação

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