O pôquer viciado

A situação política brasileira, posto que mais próxima de um teatro do absurdo padrão Kafka, tem tudo de uma disputa de batoteiros com todos os jogadores de pôquer blefando ao mesmo tempo. É uma situação reveladora da degradação moral e institucional que o país vem sofrendo com o ritual de barganha entre as forças do “impeachment” de Dilma e as que pedem a remoção de Eduardo Cunha da presidência da Câmara Federal por causa da grana nos bancos suíços.
Até mesmo a proposta de repatriação de recursos no exterior, que o governo intenta para reduzir suas aflições orçamentárias, é alvo da sordidez de parlamentares que pretendem dela valer-se para proteger a turma da Lava Jato ou pelo menos, com essa indicação generosa, evitar a sequência de delações premiadas que afinal asseguram a integridade das provas obtidas e a firmeza da condução do processo por Sergio Moro.
O conflito de versões apresentadas tanto pelo doleiro Youssef como pelo lobista Fernando Baiano e o diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, é agora a esperança maior dos advogados dos réus e indiciados na perspectiva de conseguir o que pretendiam desde o início: “melar” tudo de uma vez e devolver a paz a empreiteiros e ex-ministros já encarcerados ou na expectativa. Durante muito tempo uma das convicções da defesa era a de que Alberto Youssef ao romper o prometido ao juiz Sergio Moro, lá atrás, governo Lerner, a não mais operar como doleiro no caso CC5-Banestado era suficiente para desmontar a delação premiada da Lava Jato e isso, felizmente, não surtiu qualquer efeito. Haverá em função das contradições observadas uma nova e agora desesperada tentativa de anular os procedimentos, o que no entanto passará necessariamente por novos rituais para ver quem mentiu e em que medida isso pode anular os benefícios conquistados na diminuição das penas e até mesmo em relação à integridade formal e substancial do processo.
É nesse sentido que vai agir o advogado José Roberto Batochio, que defende o ex-ministro Palocci, visando anular acordos de delações, objetivo obsessivo desde o início dos colocados no polo oposto das denúncias dada a extrema dificuldade em patrocinar os seus clientes.
A greve dos caminhoneiros acrescenta um ponto dramático na situação institucional: nosso rumo à anomia, a ausência de referenciais legais, está aí exposta num movimento que não tem o apoio das entidades representativas – sindicatos e federações – diante de um governo também moralmente fraco e sem condições de expressar a vontade da maioria que as urnas consagraram, algo bem próximo do anarcosindicalismo da guerra civil espanhola. Daí a coerência do pôquer em que todos blefam.

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