Os Átrios de Memória de Rones Dumke

“A bondade atenciosa do anjo me acalmou consideravelmente, e aliviado pela água com a qual ele havia repetidamente diluído meu vinho, eu finalmente encontrei a calma suficiente para ouvir seu extraordinário discurso.”
(Edgar Allan Poe, O Anjo do bizarro)

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Rones Dumke – Foto: Dico Kremer

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Fernando Bini e Rones Dumke – Foto: Dico Kremer

Ele é um gentleman!
Elegante no agir e no falar. Seu presente se fundamenta no passado, é um verdadeiro herdeiro dos 25 séculos de cultura Ocidental. Mas sempre foi vanguarda desde quando ressentiu, mais do que qualquer outro artista do Paraná, o choque conceitual dos anos 70 no século passado.
Logo no início de nossa conversa ele me advertiu, lembrando-se dos tempos do Colégio Medianeira, onde ambos fomos estudantes e, por vezes, quando o nosso professor de religião não conseguia dar uma resposta satisfatória para seus alunos, afirmava: “um pouco de mistério sempre fica”.
“Um pouco de mistério sempre fica!”
Aceitamos o conselho, pois a crítica de arte não pretende decifrar todos os mistérios embutidos nas obras de arte, o que tentaremos fazer é, em observando atentamente a obra de Rones Dumke, procurarmos algumas portas, mesmo que pequenas, para conseguir penetrar em seu mundo com o intuito de iniciar um diálogo, no qual a nossa percepção de mundo, fará a leitura daquilo que ele se dispôs a nos mostrar.
Como para Leonardo da Vinci, ou então posteriormente para Marcel Duchamp, “a pintura é coisa mental” e está “a serviço da mente”. A famosa janela de Duchamp, “Fresh Widow” (de 1920), não é mais a Janela de Alberti – aberta para o espaço –, ela é uma janela negra, bloqueada, seus vidros são lacrados com couro preto, onde nada se vê, mas que abre a nossa mente para tudo ver. Diz Duchamp: “eu poderia ter feito vinte janelas, com uma ideia diferente em cada uma, sendo as janelas chamadas ‘as minhas janelas’”, mas ele fez somente mais uma “La Bagarre d’Austerlitz” (em ambas estão presentes os seus jogos de palavras) e continua dizendo que usou “a ideia de janela para tomar como ponto de partida”. “Fresh Widow” faz referência ao privado, ao indivíduo fechado no seu mundo interior, ao contrário em sua reflexão de “La Bagarre”, esta se refere ao público, a tudo o que o espectador tem a ver, mas não vê, seu bloqueio agora é intelectual.

 

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Tupi or not Tupi – Foto: Maria Anita “Maita” P. Franco

Dos trabalhos recentes de Rones Dumke, nesse ver e não-ver, uma primeira obra que pede a nossa atenção inaugurou a série que ele denominou de “Átrios da Memória” e ela foi exposta no Museu Oscar Niemeyer, na mostra Tupi or not Tupi, em 2014; é um grande painel de 200 x 92 cm., com colagens, dividida em 27 compartimentos e cujo título completo é: “Visita ao interior da vista: Onde se imprimem as imagens no olho e nos espelhos (Da série átrios da memória)”, realizado em 2013. Nela, em seus compartimentos, estão presentes aqueles indícios tanto de Da Vinci como de Duchamp, anteriormente citados.
O Index (o índice) retira a especificidade da obra de arte, abre-a para a sua re-simbolização e que pode conduzir o espectador para a sua literalidade ou para a “arte como ideia”, que é o que Duchamp queria. Os “Átrios de Memória” estão próximos a isso, eles nos lembram também da fórmula inscrita nos “Cantos de Maldoror” do Conde de Lautréamont, que, no 6° Canto diz: “Ele é belo… sobretudo, como o encontro fortuito sobre uma mesa de dissecação de uma máquina de costura e um guarda-chuva”.
Ainda bastante preso às fotografias, índices por excelência, quem dá o “ritmo” é Heitor Villa-Lobos, começamos como uma Bachiana, “suave”, unindo o erudito e o popular, o nacional e o internacional, pois o painel termina com um jovem Pelé (Prodígio), tendo antes passado por Ingres, pela Vitória de Samotrácia, o Semeador do Zaco Paraná, Jacques Louis David e entre atrizes, princesas, o sol, a lua, o olho humano – metáforas da visão, do olhar –, ainda céus, nuvens e ondas do mar: “L’arte è cosa mentale”.
“É a doutrina da ideia, que vem a ser a doutrina de toda a arte contemporânea. São artistas inventores, artistas da ideia”, diz o artista.

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A ideia de compartimentação não é nova na obra do Rones, como também não é nova a associação de imagens, normalmente retiradas de um tempo longínquo, um tempo que passou e que restou na memória, um tempo sem tempo de uma visão apolínea, estável, entre o simbólico e o narrativo: a estatuária clássica greco-romana, Rafael, Ingres, David, os simbolistas franceses como Gustave Moreau, ainda William Blake, Dante Gabriel Rossetti. A colagem também não lhe era desconhecida, é o seu repertório material para descrever a “aventura humana”.
Rones se faz artista com um desenho claro e meticuloso, como convém a um desenhista filho de relojoeiro, preocupado com o detalhe e o acabado da obra. É assim que participa dos Salões Paranaenses nos anos 70 e conquista o título de Melhor Artista Paranaense no 37º Salão em 1980.
Não tendo mais nada a provar da sua excelência como artista plástico ele se aventura por novos caminhos, mas a tendência escolhida já se abria dentro da arte do Paraná, uma tendência “metafísica”, surreal, com forte apelo ao inconsciente do observador e de grande rigor formal (que aparece também na obra de Isabel Bakker e Rubens Esmanhotto, entre outros).
O contato com o artista Carlos Scliar foi decisivo para sua obra (o mesmo ocorrendo com outro paranaense, o pintor Carlos Eduardo Zimmermann); a partir de um comentário de Scliar dizendo que seu trabalho “tinha uma qualidade metafísica”, foi a motivação para continuar produzindo, assim ele nos explica: “Eu já tinha algumas sementes, antes de ler sobre a estética, principalmente, do surrealismo, que me interessou muito, de princípio, eu já tinha intuitivamente, já sabia mais ou menos a direção que eu iria tomar. E que eu queria inclusive, fazer uma obra que tivesse uma mitologia pessoal, que tivesse uma alquimia pessoal, das minhas coisas, dos meus elementos, das minhas ideias.”

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Foto: Dico Kremer

A crítica de arte e professora Adalice Araújo caracteriza a sua obra desse momento dizendo que ela continha a “imobilidade paradoxal da esfinge”, certo! Mas é o Baudelaire do poema “A Beleza” que ela nos lembra: Eu sou bela, ó mortais! Como um sonho de pedra, / Eterna e muda assim como a matéria. / […] Eu reino no azul como uma esfinge incompreendida. E também do “Hino à Beleza”: Vens-tu do céu profundo ou sais do abismo, / Oh Beleza? Teu olhar, infernal e divino.
É o olhar da medusa que tudo petrifica, congela, fixa, produzindo uma nostalgia mágica, uma impressão de estranheza, justamente uma “beleza que vem do abismo” (Christine Buci-Glucksman). Rones trabalha o fragmento, a exatidão do detalhe, petrifica a imagem saída de um tempo para se tornar permanente. É alegórica, carregada de melancolia, quem sabe de um paraíso perdido onde tudo seria perfeito.
Talvez por isso essa atmosfera de luto que se origina na crise dos ismos nos anos 70, a partir do triunfo da arte conceitual e de outras vanguardas, ele se propõe a uma arte mais “pura”, intelectualizada, que encaminhou para a reflexão sobre a própria arte e seu passado. Há algo que foi perdido na crise do moderno, é isto que precisa ser recuperado, é esta a situação de luto, de perda, de algo que talvez não tenhamos mais, uma nostalgia da beleza que a sua obra reflete.
Apesar da grande semelhança com os métodos surrealistas que Rones Dumke utiliza para a elaboração de suas colagens, não é nem o insignificante, nem o ridículo, que ele apresenta, mas ele busca seus personagens, antigos ou atuais, em uma mitologia pessoal e atemporal, mais próxima da de “De Chirico” do que de “Max Ernst”. Talvez ele esconda sobre uma forma próxima de Ernst, o colar, raspar, esfregar ou riscar um conteúdo de sabor mágico e metafísico que faz lembrar De Chirico.
A divisão em compartimentos, que também existiram em Max Ernst e que continuam em toda a série dos “Átrios da Memória”, sugerem as mônadas leibzinianas, pois elas são espécies de unidades simples que vão construir um todo, a partir daí, inseparáveis, indissolúveis, que comporão um mundo à parte, o seu mundo – os átomos da natureza (com referência à “metafísica da substância” de Leibniz).
Agora, são claras as referências ao Leonardo da Vinci, já presente na primeira obra: “Arte è cosa mentale”, a “pintura é coisa mental”, é a doutrina da ideia, que é também a doutrina da arte contemporânea, segundo o próprio artista.
Ao menos dois trabalhos da série mencionam o Tratado de Pintura de Leonardo, a união de ambos mostraria a face de Ginevra de Benci, melancólica e alegórica. Teria ela pretensões literárias e que o seu casamento próximo destruiriam? Melancolia, motivada pelo luto, de algo que ainda não se perdera? Na parte posterior deste retrato, uma alegoria de Leonardo diz: “Virtutem forma decorat” (A beleza adorna a virtude).

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Foto: Dico Kremer

Mas Leonardo também ensina a ver o mundo nas coisas mais simples, por exemplo, em um “muro recoberto de musgos […] poderás aí ver semelhanças com paisagens enfeitadas de montanhas, rios, rochedos, árvores, planícies, grandes vales e colinas de formas variadas. Poderás ver também batalhas diversas, gestos ativos de figuras, rostos de estranhos aspectos” (Tratado de Pintura, 493).
“A Sinfonia Patética de P.I.T.”, “Os Átrios de Lucrécio”, “Memórias de Adriano” ou “O Verdadeiro Rosto do Marques de Sade”, são como manchas saídas de um muro, nuvens nas quais projetamos os objetos de nossa própria memória como em um jogo metafísico na correspondência do eu e do mundo.
Nesta série fica também claro o diálogo que Rones faz com toda a história da arte e a sua relação com a atualidade: “O Encontro de Dante com Gina”, “O menino de Velásquez”, ou “Isabelle Hugo”. Estivessem eles em nosso tempo, a musa amada de Dante não seria mais Beatriz, mas Gina Lollobrigida; a paixão de Victor Hugo por sua amante Juliette Drout é agora por Isabelle Adjani, e assim por diante. Há referências a Diego Velasquez e não mais às Meninas, mas ao “Menino”, ao Cristo Crucificado do Prado, também de uma infância sacrificada; a Edgar Allan Poe com seus “Contos de Mistério e imaginação”, o tempo congelado de Ligéias ou de Berenices, nos devaneios que segundo Gaston Bachelard: “Por si só, o devaneio é uma instância psíquica que frequentemente se confunde com o sonho. Mas quando se trata de um devaneio poético, de um devaneio que frui não só de si próprio, mas que prepara para outras almas os deleites poéticos, sabe-se que não se está mais diante das sonolências. O espírito pode chegar a um estado de calma, mas no devaneio poético a alma está de guarda, sem tensão, descansada e ativa.”
Nesse mundo noturno dos devaneios de Bachelard, a menor ideia, por mais insignificante que seja, será suficiente para produzir novos mundos. O artista é sempre um construtor de mundos.
Estes trabalhos de colagem, raspagem e de decalque, são realizados a partir de material retirado de antigas reproduções, livros ou revistas, que são como palavras separadas de seus contextos e que ao se reagruparem novamente em situações diferentes, geram novos significados, lembrando os famosos “cadavres exquis” dos surrealistas, usados por eles tanto com palavras como também com imagens.
Uma nova série de obras, começadas neste ano de 2015, dão continuidade deste tipo de técnica sempre no caminho de uma maior precisão. A colagem digital já faz parte do seu trabalho há algum tempo. Ele tira proveito da invisibilidade da montagem e que simulam uma nova realidade, o simulacro virtual é “o crime perfeito”, conforme a descrição de Jean Baudrillard.
As colagens digitais se prestam para criar realidades simuladas ou hiper-realidades, isto é, produzir um questionamento do real, para Rones elas possibilitam que ele se aproxime cada vez mais da abstração quase negando o real.

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Foto: Dico Kremer

A “Série Atropos” alia os princípios da manipulação manual e digital da imagem. O papel, normalmente antigo e já impresso, é operado manualmente através da raspagem, do tingimento e de todo um processo de elaboração físico-químico do material de base, para depois ser processada virtualmente eliminando completamente a fronteira entre a fotografia, a impressão e a pintura.
As mônadas de antes agora se tornam unidades em si mesmas. O que resta do antes são somente vestígios, fragmentos, os traços, ampliados digitalmente, um destruir para recompor em busca de novas realidades. Rones age como um “mágico do maravilhoso” desviando cada objeto de seu sentido original para produzir uma nova realidade (Louis Aragon). Atropos é uma das três Moiras, aquelas que tecem o destino da história da vida, do nascimento, da existência e da morte. A Atropos cabe cortar inevitavelmente o fio da vida com sua tesoura.
Nestes trabalhos o vestígio é o outro da imagem, uma arqueologia do moderno, feito com colagens de pequenos papéis com figuras ou letras – vestígios, fragmentos, cortados com a tesoura, ou com instrumentos cirúrgicos, mas reelaborados também com produtos químicos (a alquimia) e sobre os quais ele ainda pinta com a tinta a óleo.
“Deixe falar os pequenos papéis”, como na canção de Serge Gainsbourg (1965) e ocasionalmente, liberte os pequenos papéis, “que eles possam, uma noite, te consolar” ou “te aquecer”. Apesar do valor gritante da cor, Rones continua atraído pelo silêncio, pelas sutilezas filosóficas, estéticas e artísticas a partir de sua matriz conceitual.

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Foto: Dico Kremer

São citações estilísticas e iconográficas junto às sugestões surreais e metafísicas, a serenidade trágica dos gregos, que explode na “bela totalidade” a partir dos fragmentos, das ruínas no sentido de Walter Benjamin, provocadoras de extrema ambiguidade e cujo significado é colocado em abismo. Novamente ressurge a beleza, como no processo de anamnese platônico, de fazer surgir, de fazer voltar àquilo que estava perdido: “da amnésia herdamos o tudo é arte e o nada é arte, com a anamnésia se quer reabilitar os valores do passado, reinscrever na arte contemporânea a memória da arte”, já o disse em outro momento.
Para ele é maravilhosa a manipulação desse material, a alquimia, o hermetismo, afinal “um pouco de mistério sempre fica”, ele nunca quis que a facilidade de leituras fosse característica dos seus quadros, sempre trabalhou com significados, por isso: “E talvez essa questão de que meu trabalho tenha ficado uma coisa hermética, foi deliberado… foi a minha escolha.” […] “Porque eu poderia ter deixado mais fácil, mais acessível, de repente, mas não, eu sempre procurei mergulhar” (R. Nott magazine, 14 mar 2015)
Rones Dumke sempre procura o seu assunto lírico através da natureza ou das alegorias poéticas da tradição clássica, como os simbolistas ele valoriza as formas e os elementos, a espuma, o fluído, a superfície, a água, a profundidade ou o abismo.
E assim ele faz que o espectador também tenha que mergulhar, muitas vezes em águas bem profundas e que só podem ser encontradas naquilo que a memória guardou, seja do artista ou do espectador, algo que pertence ao humano, no limiar da comunicação e que interroga nosso conhecimento do mundo. Nesse universo intelectual no qual o ato de pintar sugere uma reflexão metafísica, Rones coloca em questão o lugar do homem na sociedade contemporânea, antes que a tesoura de Atropos lhe corte o fio da vida.

 

Fernando A. F. Bini
Professor de História da Arte e Crítico de arte (ABCA/AICA)

 

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Foto: Dico Kremer

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