Por que ainda temos que falar de Paris?

No mês passado, numa sexta-feira qualquer para a maioria do mundo, houve a surpresa, a comoção, a revolta dos novos atentados em Paris. De lá para cá, a internet proporcionou um espetáculo de argumentos opinativos e de versões muito descabidas dos acontecimentos. O portal Fórum, por exemplo, publicou um artigo assinado por “redação” em que afirma que os atentados não aconteceram, que tudo não passou de um plano para calibrar a força do presidente François Hollande e oferecer um produto pronto para imprensa do mundo.
É bem verdade que é difícil acompanhar e entender o calendário internacional de guerras que há muito se espalha no Oriente Médio e em outros lugares. Os noticiários se ocupam dos grandes eventos e as informações são retalhadas e para o público comum, que já tem tanto para se preocupar dentro das fronteiras verde e amarela.

Taliban, Salafistas, Hamas, Al-Qaeda, Estado Islâmico são a mesma coisa: grupos que querem expandir, do mesmo jeito e nos mesmos lugares, o islamismo. E esse pode ser o primeiro passo em um caminho perigoso, que confunde os preceitos de uma religião com maluquices terroristas. 23% da população do planeta é muçulmana, apenas este dado já é suficiente para separar o joio do trigo, se um bilhão e meio de pessoas no mundo fossem adeptas ou apoiassem ações terroristas estaríamos todos mortos.
Depois desse tempo em que recebemos informações dos mais diversos tipos de especulação sobre o assunto, ainda é preciso falar de Paris. É importante que voltemos aos dados primários na tentativa de entender um pouco o mundo em que vivemos. Para que possamos além de nos solidarizar, sem saber ao certo o que significa isso fora pintar o perfil do Facebook com a bandeira da França, reconhecer o momento da história em que estamos.
Histórias interrompidas, civis, como eu e você, que estavam imersos nas diversões do final de semana, famílias que foram amputadas por suas perdas, centenas que continuarão suas vidas sabe-se lá como depois de ter sobrevivido à experiência tão extrema, pessoas que viverão durante um bom tempo com medo de um inimigo que não tem rosto. Para quem conhece o mundo a partir do conceito de liberdade, ainda que haja muito a se discutir sobre isso, é preciso falar de Paris e continuar falando por muito tempo.

Refugiados da Síria
Migrants pull an overcrowded dinghy with Syrian and Afghan refugees arriving from the Turkish coasts to the Greek island of Lesbos, Monday, July 27, 2015. Nearly 50,000 people have illegally entered the country this year, mostly Syrian refugees who risk the sea crossing from Turkey in dangerous, overcrowded boats. From Greece, most try to continue north through the Balkans to more affluent European countries such as Germany. (AP Photo/Santi Palacios)

Refugiados da Síria chegam às margens da ilha grega de Lesbos, a bordo de um bote inflável em frente ao Mar Egeu da Turquia, em setembro de 2015. – Foto: Reprodução/site qusnews.com

A Síria existe há 10 mil anos e desde a década de 1960 está sob o comando ditatorial da família Al-Assad. Em 2011, de uma série de protestos e revoltas nasceu a Primavera Árabe, que acabou derrubando várias ditaduras no mundo árabe. Na Síria, os Assad não aceitaram deixar o poder e grupos de etnias e religiões diferentes começaram a guerrear entre si na tentativa de derrubar Assad e impor os próprios preceitos, entre eles estava o Estado Islâmico, jihadistas militarmente bem organizados (jihad é um termo árabe que significa a obrigação de muçulmanos na defesa do Islã, de proteger a religião através da luta, da luta armada).
O Estado Islâmico era um pouco diferente dos outros grupos porque ousou a submeter o território todo à sua autoridade. O extremismo das ações e a propaganda do terror rapidamente deram-lhe fama, medo e poder. Os cidadãos da Síria conheceram a tríade do caos: os grupos rebeldes, um ditador e os jihadistas sem freios.
Boa parte da população foi deportada, a outra fugiu do país. 95% das pessoas se estabeleceu nos países vizinhos Iraque, Jordânia, Egito, Turquia e Líbano. Ainda que contrariando o que rege a Anistia Internacional, os Emirados Árabes, Arábia Saudita, Quatar, Bahreine Kuwait não aceitaram um único refugiado, fecharam os olhos e as fronteiras para o assunto.
As dificuldades dos países que ofereceram auxílio aos sírios em absorver e prover tanta gente, mais de quatro milhões, a demora da ONU para encaminhar suprimentos básicos e um plano para resolver a situação e as condições de alimentação e saúde precárias naquela nova população geraram um novo movimento de sobrevivência: alcançar a Europa Ocidental.
A União Europeia determina que quando um refugiado chega a um país, ele deve permanecer lá, o que complica a vida dos que são fronteiriços, estas nações acabam dependendo da boa vontade das do interior do continente em aceitar os novos moradores. A Grécia, por exemplo, que enfrenta enormes problemas econômicos, teve que aceitar, sem contar com muita ajuda extra, milhares de refugiados. Boa parte das ilhas que antes eram destinos turísticos foi ocupada pelos sírios em fuga.
Com a situação cada vez mais inflada, em 2014, a UE sugeriu uma medida extrema e pouco simpática para comunidade internacional: cancelar a operação Mare Nostrum, que consistia em buscas navais para que os imigrantes não se afogassem no Mediterrâneo, a conta era simples e trágica, com mais mortes no mar, menos seriam os refugiados no continente.
Aquela imagem da criança síria de bruços numa praia da Turquia mudou o panorama. A Alemanha imediatamente informou que aceitaria todos os refugiados sírios, a comoção se espalhou, outros países, inclusive de outros continentes, tiveram que adotar atitudes mais solidárias e a população civil do mundo Ocidental se empenhou em campanhas, num grande movimento organizado de arrecadação de doações.
Do outro lado, há as preocupações sociais com o Islã, a população muito maior em suas casas, as providências e limitações de inserção dessas pessoas. A Europa abriu as portas, mas ainda está descobrindo como lidar com tudo isso. Mais que saber se a ação gira em torno de causas humanitárias ou obrigações políticas, os planos de como acomodar tantas diferenças e novidades e fazer delas parte do cotidiano está sendo pensado e executado ao mesmo tempo.

O Estado Islâmico
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ISIS – Foto: Reprodução/site report.az

Filho da organização terrorista Al-Qaeda, o EI, ou ISIS na sigla em inglês, rompeu ligações e interesses com o pai em 2013. Com os conhecimentos adquiridos em longos anos no doutrinamento de espalhar o terror, os extremistas dos extremistas decidiram que era hora de ter um território próprio: suas leis, suas vontades, o que hoje conhecemos pelos jornais com o nome de califado.
O poder veio pela força, primeiro na Síria e depois em territórios do Iraque, os fronteiriços, que somados ao primeiro, totalizam uma grande área (ainda há divergências a respeito do tamanho, alguns se referem a 40 mil km² e outros chegam a 90 mil km²).
A liderança se concentra na figura de Abu Bakr Al-Baghdadi, que se autoproclama o califa de todos os muçulmanos, não dos terroristas, não de seus soldados, mas de todos os muçulmanos. Esta fala e algumas passagens do Corão, interpretadas à sua moda para dar assinatura às ações de seu grupo, confundem e geram uma série de problemas entre muçulmanos e não-muçulmanos que estão longe da guerra.
O aumento do preconceito com os islamitas os faz precisar de mais força, mais voz e mais tinta para terem sua religião respeitada; os que se entregam à causa do EI o fazem pela empatia inicial da força religiosa. Não-muçulmanos, socialmente frágeis, também passam a aderir à “causa islâmica” e à luta armada porque se reconhecem no discurso de que as regras do mundo ocidental estão erradas e precisam se rebelar e acabar com todas. Há também a parcela de desajustados emocionalmente que têm o sonho de armas e combates e um imenso número que é obrigado a fazer parte do exército pelos líderes na medida que as cidades formam um exército com cerca de 30 mil soldados, de uma maneira ou de outra, entregues às causas do Estado Islâmico, em que morrer por elas é a prova maior de fidelidade.
Soldados estrangeiros recrutados, particularmente, depois de uma rápida, superficial e direcionada conversão ao Islã, se tornam potencialmente uma força maior, sempre podem voltar aos seus países de origem carregando na bagagem as ordens ou os ensinamentos para um ataque. E quando não isso, também podem se entregar a um dos princípios pregados: fugir dos ensinamentos é um pecado sem solução, o que leva ao suicídio, normalmente em atos terroristas, o que significa, grosso modo, que mesmo abandonando o EI a última ação é a seu favor. Quando algo assim acontece, mesmo que seja um movimento autônomo e isolado, o EI assume imediatamente a responsabilidade se tornando maior e mais temido.
Apesar do grupo lidar com questões mundanas e assumir atitudes extremamente agressivas em combate, o seu objetivo é baseado na religião: expandir o califado por todo o Oriente Médio, estabelecer conexões na Europa e caminhar até que o modelo teocrático radical islâmico se torne a verdade do mundo e assim se torne portador do apocalipse.
No início de seus combates, o grupo conseguiu apoio financeiro de indivíduos de países árabes do Golfo Pérsico e hoje tem autonomia financeira com milhões de dólares da venda de petróleo e gás, impostos, contrabandos, sequestros e as posses de todos os lugares em que estabelecem controle. O EI é o grupo insurgente mais rico do mundo.
Eles se comunicam com o mundo da mesma forma como eu e você, utilizam o Twitter, o YouTube, o Facebook, fazem propaganda de seus eventos e contam, sem cerimônias o que pretendem. Em alguns casos soldados fazem postagens em que ensaiam humor, piadas e trivialidades. Para as comunicações secretas são sofisticados, conseguem articular ações com êxito, estudiosos afirmam que imagens em jogos de Playstation 4 estabelecem diálogos complexos e comunicação de ação.

Por que a França?

Os países que têm como valores a democracia, a tolerância, a liberdade são exatamente opostos a tudo que o Estado Islâmico prega. E estes países são muitos. Então, atacar qualquer outro lugar da União Europeia poderia causar o mesmo pânico da presença do terror naquele território. Mas a França, por vários motivos, é um lugar simbólico. Ao atacá-la, como aconteceu em janeiro na redação do jornal Charlie Hebdo, no mercado judaico em Paris, na decapitação de um empresário em Lyon, em outras tentativas frustradas ao longo do ano e agora, na sexta-feira, 13 de novembro, o EI luta contra a estrela do Iluminismo e de tudo que ele representou, representa e desenvolve a partir de então. É uma investida contra o maior símbolo de ideias, ideais e valias que se opõe ao que exaltam e propagam.
Ainda que as vontades republicanas partam do Século das Luzes, a França continua constantemente revalidando estas ideias e adaptando-as ao seu presente. Como por exemplo quando há alguns anos, para garantir sua natureza laica proibiu o véu islâmico em escolas e prédios públicos.
Mas há outros pormenores de igual importância. Não é possível só pensar ideologicamente, o EI também sabe que uma estratégia militar é necessária e fundamental para ter êxito. Da União Europeia, a França é o país que mais tem jihadistas. O número parte de 600, mas pode chegar até 2 mil, conforme fonte consultada. Cada um deles representa uma ameaça de volta ao país, de atentado, de ação que não é possível prever. 600 ou 2 mil, é muito difícil imaginar que se possa monitorar integralmente, principalmente considerando os sistemas de comunicação cheios de códigos ainda indecifráveis e os valores franceses de liberdade a seus cidadãos.
Atentados como foram vistos em novembro disseminam também um outro tipo de situação muito preocupante: cada vez mais, apesar das campanhas afirmarem sobre as diferenças entre a prática da religião e do terror, os muçulmanos são estigmatizados. O outro plano, dentro do plano maior, é atiçar uma guerra civil. De um lado, franceses a desconfiar de islâmicos e do outro islâmicos a sofrer tais consequências começarem a achar que não valem os esforços de se integrarem pacificamente e conviverem com outras religiões.
Gilles Kepel, especialista francês no mundo árabe, falou ao Le Monde no sábado após os ataques: “O que o Estado Islâmico deseja é provocar a guerra civil: o linchamento de muçulmanos, os ataques a mesquitas e as agressões a mulheres com véu, para provocar assim uma guerra entre enclaves que semeiam o fogo e o sangue na Europa, percebida como o ponto fraco do Ocidente”, ele também lembrou alguns fatos que se relacionam ao passado colonial do país e que resultaram em problemas recentes sofridos pela França em nome do islamismo: “Recordemos que Mohamed Merah [francês de origem argelina] matou alunos, professor e militares na escola  de Toulouse em de março de 2012, no 50o aniversário do cessar-fogo da guerra da Argélia”.
E ainda há a posição da França em relação a coibição do avanço do terrorismo. O primeiro ataque francês contra o EI foi em setembro. No mês seguinte, aviões bombardearam um campo de treinamento com o objetivo de matar Benghalem Salim, apontado como responsável por aliciar jovens franceses ao Estado Islâmico. O The Guardian noticiou que a França realizou 271 ataques aéreos contra a Síria com caças que partiram nos Emirados Árabes e na Jordânia.

Estamos em guerra
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François Hollande – Foto: Reprodução/site france3-regions.francetvinfo.fr

Após três dias dos atentados em Paris, François Hollande reuniu-se com o congresso francês para dizer que era preciso que o Legislativo votasse imediatamente ajustes na Lei de 1955 sobre o estado de emergência do país. As adaptações pediam aumento de doze dias para até três meses nos decretos de estado de emergência do território nacional, a mudança na Constituição para agir contra o terrorismo, a permissão para invadir residências em casos de ameaças à segurança e fazer buscas administrativas, a proibição do cidadão com dupla nacionalidade volte ao país caso apresente risco terrorista e a expulsão de estrangeiros que representem ameaça à ordem pública. Com o pedido para que a votação não passasse de uma semana, veio a frase definitiva e clara sobre a atualidade do país: “Estamos em guerra”.
O primeiro movimento sobre isso foi dois dias depois dos atentados. No domingo dez caças bombardearam o Estado Islâmico. Enquanto Hollande conversava com o congresso o segundo ataque era comandado.
Estados Unidos e Rússia intensificaram os combates às regiões dominadas pelo Estado Islâmico e a União Europeia aceitou o pedido de assistência mútua feito pela França.
Por que ainda temos que falar de Paris? Porque esse terrorismo priva a liberdade individual, diferente de outras ideologias – o EI não é uma ideologia, é um fanatismo – que privam a individual em favorecimento do grupo, do conjunto, o Estado Islâmico não trabalha a favor de nenhum conjunto, ele impõe regras, aliena as pessoas, a partir da primeira alienação que é a ideia do transcendente. Querer que não se fale de Paris é fomentar as práticas do EI, é asfixiar a liberdade, é fechar os olhos para o real inimigo do Século XXI. O EI é sim o inimigo do Século XXI, como Hitler foi do XX. As comparações são esdrúxulas perante o espetáculo do absurdo que estamos a assistir. Logo, falar de Paris é uma obrigação. Falar de Paris é liberdade.

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