Quantos, Vale?

Quando os portugueses invadiram o Brasil trouxeram tudo que podiam. Não queriam saber de Tupã ou qualquer deus indígena que fosse. Jesuítas, seus santos e seus cantos desembarcaram com toda a fé que cabia e protegeram aqueles que julgaram ter alma pura.
Mineração não era trabalho para índios, para isso tinham os escravos negros africanos. Os gajos se preocupavam com seus tesouros e os brilhos de suas igrejas. Minas Gerais foi a galinha dos ovos de ouro de Portugal, como Potosí foi a galinha dos ovos de prata da Espanha. Tinha muito ouro. Era tanto que chegou a se perder por toda a Europa em troca de manufaturas, se perdeu pelas igrejas, sobrou até um pouco para as construções eclesiásticas tupiniquins. E assim nascia o sincretismo desta terra, entre igrejas, ocas, negros, índios e portugueses.

 

Barra Longa(MG) - A cidade de Barra Longa/MG, atingida pela enxurrada de lama tóxica proveniente do rompimento da barrragem tenta se recuperar dos transtornos causados pelo incidente (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Barra Longa(MG) – A cidade de Barra Longa/MG, atingida pela enxurrada de lama tóxica proveniente do rompimento da barrragem tenta se recuperar dos transtornos causados pelo incidente – Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Mas a fonte secou, extraíram tudo que podiam, levaram a exaustão os mineradores. Quinto, Derrama e Capitação, que outrora eram impostos a preço de banana, passaram a pesar no bolso dos colonos, revoltosos colonos. Nasceram as revoluções nativistas, depois as emancipacionistas, tudo isso porque o ouro tinha acabado, todos pararam de ganhar. E de tudo isso legou-se os santos, as praças, as igrejas, as cidades históricas mineiras. A mineração do ouro legou outra, três séculos depois o ferro tornou-se a chance de fortuna, pelo menos para aquelas cidades banhadas pelo Rio Doce, que recebem mais de 80% de seu orçamento devido a Vale do Rio Doce, da Vale, depois de privatizada. Dizem que venderam a preço de banana, assim como eram cobrados os tributos no Brasil colonial.
Mariana, capital de Minas Gerais em tempos coloniais, assistiu vários ciclos de ascensão e queda. Hoje cai, hoje desaba, hoje desliza. A lama asfixia Mariana, mata pessoas, mata a história. Nossa maldita história. Manchada pelo colonialismo, pela escravidão, pela lama. Agora nem mais as marcas dos anos seiscentistas é possível ver. Os santos que desembarcaram com os Jesuítas hoje estão soterrados por causa da irresponsabilidade da Samarco, por causa da irresponsabilidade dos fiscais, por causa da irresponsabilidade política, e alguns corajosos, feito garimpeiros, tentam encontrar o ouro da história que está enterrada, quiçá em definitivo. Enquanto uns procuram santos, outros procuram gente, esta gente desaparecida, são doze, é o que dizem.
O minério de ferro rende para a Samarco quase R$ 3 bilhões em lucro, a multa por todo o desastre é de R$ 250 milhões, por hora é bem verdade, mas não interessa quanto. Há coisas que a Samarco não pagará jamais, coisas como os álbuns de família, os enxovais de casamento, a primeira roupinha, as figurinhas da Copa do Mundo de 1982 e todas as miudezas passíveis ou não de coleções, os santos coloniais que desapareceram. Mais: o Rio Doce com seus peixes, agora extintos, existirão para sempre apenas no passado.
Os especialistas falam que pode demorar séculos para o rio se recuperar, quantos? Será o tempo do ciclo do ouro das Minas Gerais? O tempo da escravidão? Mas, mais que isso, esta irresponsável tragédia matou pessoas. Matou pessoas, animais, o rio, arrasou cidades em troca de R$ 3 bilhões ao ano. Quanto vale tudo isso? A Vale sabe?

 

O que são as barragens?

De maneira bem simplificada é como se fosse um depósito dos rejeitos da exploração do minério de ferro. A Samarco para exportar esses produtos precisa ter o teor de ferro aumentado. Os rejeitos da exploração e desse processo são estocados por barragens – como a que se rompeu.

 

Quem é a responsável pelas barragens?

Em instância direta a Samarco, uma empresa que beneficia minérios da região de Mariana, em Minas Gerais, porém ela é a mineradora da Vale e da anglo-australiana BHP, o que faz destas também culpas e responsáveis pelo acontecimento.

 

Quantas pessoas foram atingidas?

É uma pergunta com resposta relativa, pois muitas cidades precisam do Rio Doce para sobreviver, logo a falta de água torna os habitantes desses locais como vítimas. Mas vítimas de fato até agora são 12 pessoas desaparecidas e onze mortas.

 

E por que se rompeu?

Ainda não há certezas, a investigação ainda está sendo realizada. A Samarco tenta sustentar a hipótese de pequenos tremores na área duas horas antes do rompimento. Especialista, no entanto, não garantem nem acreditam nesta teoria uma vez que na hora do rompimento não chovia, tampouco ventava.
Além disso a maneira como fora construída a barragem é desaconselhada por engenheiros, e é o que diz um laudo que a imprensa teve acesso: “O contato entre a pilha de rejeitos e a barragem não é recomendado por causa do risco de desestabilização do maciço da pilha e da potencialização de processos erosivos”, diz o documento.

Por que o estrago foi tão grande?

Segundo o Ibama, a quantidade de lama levada aos distritos está estimada em 50 milhões de metros cúbicos. Isso significa que seria possível encher 20 mil piscinas olímpicas com esses detritos. Essa onda de barro devastou as cidades por onde passou e atingiu o leito d’água da região: além de destruir a infraestrutura dos municípios, também é possível que ocorra o assoreamento desses reservatórios, que é quando sedimentos se acumulam na calha dos rios.
Não bastasse, muitas pessoas foram pegas de surpresa. Apesar de afirmar que entrou com um plano emergencial e que chegou a ligar para moradores e pedir que deixassem suas casas, a Samarco não usou alertas sonoros. E mais: a lama já ultrapassou todo o estado do Espírito Santo e chegou ao Oceano Atlântico.

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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

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