Todas as armas contra o câncer

(incluindo a fé religiosa)
Intestino

 

Quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou em outubro passado um documento alertando para os perigos da ingestão de certos alimentos – carnes vermelhas, com destaque – não tive dúvidas: deveria ouvir meu amigo, e companheiro de diretoria  do Instituto Ciência e Fé de Curitiba, Raul Anselmi Junior, 43, sobre o assunto que se tornou viral na mídia tradicional e noutras. É tema de utilidade pública. E a razão é bem explicável: Anselmi Junior tem hoje um reconhecimento enorme, na categoria médica do Sul do país, e na comunidade em geral, como cirurgião que  enfrenta  “cânceres cabeludos”, como me garantem dois outros cirurgiões, antigos companheiros de Raul.
O fato de ser muito solicitado, e reconhecido, não mudou em nada a maneira humana, simples, afável, com que o cirurgião trata sua clientela, no Hospital Nossa Senhora das Graças ou na Oncoclínica,  de Curitiba, onde atua ao lado de profissionais como Cícero Urban e da sua própria mulher, Karina Furlan Anselmi, especialistas em doenças da mama.

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Raul Anselmi Junior – Foto: Felipe Rosa

O que mais me impressiona em Raul Anselmi Junior é a convicção com que ele encara o atendimento aos seus pacientes: geralmente reza com eles (quando percebe que há clima para isso) e estabelece profunda empatia com o doente e familiares.  E a oração é ecumênica. Às vezes, será mesmo oração inter-religiosa, com pacientes judeus, islamitas, budistas.
Juram enfermeiros e colegas de Raul que, não raras vezes, o veem chorando com pacientes e suas famílias, diante do bom sucesso de uma operação cirúrgica ou perante frustração de expectativas de cura.
“Não me compare com a missão curadora de Jesus, sou apenas discípulo dele”, responde-me Anselmi quando lhe falo sobre a cura e a oração. Entramos, assim,  no assunto que é uma de suas “especialidades”. E que, em certa reunião do Instituto Ciência e Fé de Curitiba o vi dividir experiências com Elaine Adami, farmacêutica Bioquímica de Curitiba (professora da UFPR), que recentemente  teve aprovada dissertação de mestrado justamente sobre a oração religiosa como elemento de cura de pacientes graves.
Raul não se surpreende com o alerta da OMS sobre alimentos, sabe que é matéria de certa forma “antiga”, a relação de comida  e estilo de vida, mais DNA, com o câncer. “Comida é essencial para nossa sobrevivência, assim como água ou oxigênio. Não podemos absolutizar ou satanizar nenhum alimento. Devemos evitar os excessos de alimentos processados, álcool, cigarro, conservantes, produtos químicos na alimentação.  Devemos fazer o possível  com a informação disponível hoje, preventivamente, e ter um bom médico nos cuidando”, receita. No Brasil, os tipos e câncer que mais semeiam vidas são os de intestino, próstata, mama e pulmão.

 

“Na maioria  dos portadores de câncer há predisposição genética”

O elemento ambiental é importante. Mas a questão do DNA, como considerá-lo na geração da patologia?

O DNA deve ser predisponente em 100% dos casos de câncer. Nas síndromes hereditárias, na qual há uma incidência por si só aumentada de câncer nos indivíduo de uma mesma família, isso é bem evidente. Essas síndromes representam menos de 5% de todos os  casos de câncer. Na maioria dos portadores de câncer, há uma predisposição genética, ou seja, há múltiplas mutações no DNA do órgão acometido em tempo que varia de acordo com o indivíduo, e em determinado momento acontece o aparecimento do tumor maligno. Portanto, mutações de DNA devem acontecer em 100% dos pacientes portadores de câncer e são condições sine qua non para surgimento desta doença.

 

 

As escolas de Medicina do Brasil formam o médico com disciplinas seguras sobre o câncer?

Não, há uma deficiência muito grande na graduação quanto ao câncer. Quando o estudante demonstra interesse, vai, após término do curso de Medicina, procurar formação especializada, fazendo Residência Médica focada em Oncologia, podendo ser em Clínica ou Cirúrgica ou até mesmo em Radioterapia. O problema é que a prevenção é feita principalmente pelos clínicos, ginecologistas, cirurgiões gerais. Para melhorar a prevenção, o paciente deve procurar o melhor profissional que o atenda e que o cuide como um todo, não com exames desnecessários, mas com história clínica adequada, exame físico e exames complementares direcionados em doenças preveníveis, entre as quais o câncer.

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Raul com Dr. Cristiano Huscher, seu chefe em Roma – Foto: Acervo pessoal

Qual o período ideal para realização de exames preventivos de câncer?

Há protocolos de prevenção de câncer bem estabelecidos. Para o câncer colorretal, terceiro mais frequente e letal tanto no homem como na mulher, deve-se iniciar aos 50 anos de idade, caso não haja história familiar de câncer. Na mama, por exemplo, aos 40 anos de idade. O exame ginecológico com avaliação do colo de útero é feito a partir do início da vida sexual na mulher, e é um exame preventivo. O importante, repito, é ter um bom clínico que o atenda e o cuide e faça a prevenção adequada. Portanto, a escolha é do paciente. Ele escolhe quem o atende. Não se deve procurar um médico sem referência, pois há o risco de o paciente ser mal cuidado, e até mesmo perder a chance de ter um diagnóstico de câncer inicial, com chance grande de cura.

“Não podemos viver numa bolha, respirando oxigênio sem poluentes, comendo somente comida esterilizada…”

Vida rural à antiga ou vida moderna – qual dela menos propicia o desenvolvimento de câncer?

Não há nenhum estudo na literatura que mostre qual o melhor, portando não tenho uma resposta. Precisamos sobreviver, independente de onde vivemos e quando vivemos. Não podemos viver numa bolha, respirando oxigênio sem poluentes, comendo somente comida esterilizada. Lembro que há gente no mundo ainda morrendo de fome, ou assassinada, muito antes de pensar em ter qualquer tipo de câncer. Além disso, viver em lugares ermos tem seu ônus, como por exemplo não conseguir tratar um infarto de miocárdio a tempo. Os dois lados apresentam ônus e bônus, portanto.

 

A mesma indagação vale com respeito à alimentação: alimentação elaborada ou comida “rústica”?

Alimentos processados são piores, pois colocam conservantes e outros produtos químicos para dar um sabor ou tirar outro, e portanto não recomendo. Agora, alimentos bem preparados, com tempero adequado, produtos frescos, e se possível com um sabor agradável são o ideal. O prazer de uma boa alimentação faz parte de nossa vida, e se pudermos comermos comida saborosa e saudável é o ideal. Quanto ao rústico, posso dizer que se puder dar preferência aos orgânicos, é mais saudável. O problema é o custo, maior, e o acesso mais difícil para a maior parte da população.

“O INCA, no rio, é o centro de referência… O problema é o calvário que o paciente  enfrenta”

Você tem uma receita para uma vida saudável, que dê a menor chance ao câncer possível?

Recomendo praticar exercícios físicos, evitar obesidade, evitar uso abusivo de álcool, não fumar, comer frutas e verduras diariamente, evitar produtos defumados ou processados em excesso, evitar exposição excessiva ao sol, e logicamente ter um bom médico clínico que cuide de você.

 

O poder público do país fornece aos mais pobres apoios essenciais, como remédios e tratamentos adequados, ao câncer?

Há centros de referência no Brasil, como o INCA, no Rio de Janeiro. O problema é que geralmente, na saúde pública, o paciente com câncer enfrenta um calvário de dificuldades após dificuldades, tempos longos de espera e nem todos os protocolos com já comprovada eficácia na literatura médica são autorizados. Além disso, pela demanda reprimida de pacientes, há uma certa “desumanização” no estilo de medicina exercido nos hospitais públicos de oncologia. Sei disso pois atendo de maneira privada vários pacientes provenientes de instituições públicas e que reclamam situações como: “cada dia um médico me atende”, “não me chamam pelo nome”. Por favor, se você for num pet shop os veterinários chamam os animaizinhos pelo nome!
Comida é essencial para nossa sobrevivência, assim como água ou oxigênio. Não podemos absolutizar ou satanizar nenhum alimento. Devemos evitar os excessos de alimentos processados, álcool, cigarro, conservantes, produtos químicos na alimentação.  Devemos fazer o que pudermos com a informação disponível hoje, preventivamente, e ter um bom médico nos cuidando. Devemos viver um dia de cada vez, tentar ser feliz na vida, curtir amigos e família, focar no que nos interessa e estarmos preparados para as inevitabilidades que nos acontecerão.

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Raul com os amigos da turma C (da faculdade de medicina) – Foto: Acervo pessoal

 

Criado para a matemática

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Raul Anselmi Junior – Foto: Acervo pessoal

Raul Anselmi Junior, 43, foi criado pelo pai para voltar-se à Física e Matemática, às ciências Exatas de um modo geral. Num primeiro momento, o roteiro deu certo, embora o Junior reservasse algumas horas para o violino, que aprendeu, um pouco influenciado pela mãe – Eni, mulher ativíssima, catequista católica muito requisitada pelo didatismo com que transfere seus conhecimentos da fé. Raul chegou a entrar na UTFPR, começou a fazer engenharia. Mas, no fundo, estava  mesmo interessado em estudar Medicina. Nas horas de folga, lecionava Matemática e Física para vestibulandos, pois a ordem na família – não rica, mas proprietária de fazenda e com certa folga material – era não jogar dinheiro “pela janela”, mentalidade herdada,  o que parece, dos ancestrais italianos que chegaram ao Brasil no final do século 19 dispostos a “fazer a América”. Entrou um ano depois do que estava previsto, para o Curso de Medicina da UFPR (ficara um ano na Engenharia) e formou-se em 1996.
Médico, hoje doutorando em Medicina pela PUCPR, Raul  é, em si, um personagem fascinante, sem similar, na maneira como vive a profissão-sacerdócio. A começar pela realidade que deixa bem clara aos pacientes e aos que se aproximam dele:  divide com eles e familiares um pouco do caminho da cura, que  se propõe a trabalhar como cirurgião do aparelho digestivo. Não há exagero em classificar Anselmi Junior como um dos mais procurados cirurgiões oncológicos do Paraná. Com um detalhe:  não se trata de um “mero” cirurgião – é o médico que encarna – é a impressão que passa – um pouco da imagem do Grande Médico a quem ele é muito fiel, “o Jesus libertador de todas as doenças físicas e espirituais”, como ele se refere a Cristo.

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Raul Anselmi Junior e família – Foto: Felipe Rosa

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