2016 – O bicho vai pegar

Não há um só indicador da economia ou da política que possa nos dar esperanças de que o pior passou e ficará na memória do funesto ano de 2015. A inflação ultrapassa dos dois dígitos, o PIB retrai 2,5%. Todas as instituições consultadas pelo Boletim Focus, do Banco Central, pioraram suas expectativas para inflação, Selic e Produto Interno Bruto após o aprofundamento da crise política que se realimenta constantemente com a revelação de escândalos de corrupção.
A projeção para inflação subiu de 10,38% para 10,44%. Para 2016, avançou de 6,64% para 6,70%, acima do teto da meta (6,5%). A leitura do mercado é a de que a crise política que fragiliza Dilma Rousseff, seja qual for seu desfecho, vai deteriorar ainda mais os fundamentos econômicos.
Um pouco de economês. A revisão das projeções de inflação também reflete, em parte, a maior estimativa para a inflação de preços administrados, (de 17,50% para 17,65% neste ano), e passou de 7,08% para 7,35% em 2016. Preços administrados são aqueles sobre os quais o governo tem ingerência direta, como os de energia e de serviços públicos essenciais.

A crise e o povão

Mais 2,4 milhões de consumidores tiveram os nomes incluídos em cadastro de devedores, entre janeiro e setembro, de acordo com dados da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil. Há 57 milhões de consumidores registrados em cadastro de devedores. Esse total equivale a 38,9% da população adulta do país (faixa de 18 a 94 anos).
O número de consumidores com contas atrasadas subiu 5,45%. Os atrasos no pagamento de contas de serviços básicos, como água e luz, foram os que mais cresceram: 12,55%, na comparação entre setembro deste ano e o mesmo mês de 2014. As dívidas bancárias, incluídas pendências com cartão de crédito, empréstimos, financiamentos e seguros, subiram 10,32%.
As dívidas do setor de telecomunicações, atrasos no pagamento de telefone fixo, celular e TV por assinatura, cresceram 4,17%, enquanto as pendências no comércio tiveram alta de 0,85%. Segundo a CNDL, quase metade das dívidas em atraso são de bancos (48,17%). A segunda maior participação no total das dívidas é com o comércio (20,3%).
A inadimplência está em todos os segmentos da economia, o que gera preocupação. O cenário futuro também está ruim, com menos contratações no comércio, aumento de desemprego, rendimentos menores e queda menor da inadimplência.

Erosão de Dilma

O processo de erosão do poder de Dilma começou há muito tempo – tanto que o PMDB, especialista em colocar-se nas proximidades de quem tem a caneta das nomeações, foi-se aos poucos afastando dela. Com o acirramento da crise – e especialmente se houver manifestações nas ruas – a tendência é que até os fiéis entre os fiéis prefiram mudar de lado. Até Paulo Paim, que parecia ter PT no nome, está descobrindo insuspeitadas simpatias ecológicas e buscando abrigo com Marina Silva. Não quer ser confundido com os corruptos petistas que estão na cadeia.
O que se comenta é que, dos 171 deputados de que Dilma precisa para não ser afastada durante um julgamento do impeachment, ela tem no máximo 140. Se ela mostrar força, o número cresce. Mas até agora mostrou apenas inabilidade. E a cada uma das delações premiadas a margem de manobra de Dilma se reduz.

Selic

Com a inflação mais alta, os economistas consultados pelo BC elevaram a projeção para a Selic em 2016 de 14,13% para 14,25%. Ou seja, os agentes de mercados já não acreditam que o Banco Central (BC) faça os cortes anteriormente esperados. Na última ata do Copom, o BC deixou ainda mais claro que pode voltar a subir juros no próximo ano.

PIB

A projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 se deteriorou de queda de 3,15% para tombo de 3,50%. Chama a atenção as constantes revisões do desempenho da atividade econômica. Para 2016 a expectativa para o PIB passou de -2,04% para -2,31%.

Dólar

A cotação para a moeda norte-americana ao fim de 2015 permaneceu em R$ 3,95 e, ao fim de 2016, a estimativa continua em R$ 4,20 há 6 semanas. A perspectiva para a dívida líquida do setor público subiu de 35,50% para 35,55% do PIB no ano passado e deve subir para 40%/PIB em 2016.

Mais pobres

Os que mais perdem com Dilma Rousseff são os mais pobres. A FGV divulgou que os alimentos subiram 2,32% em novembro, afetando diretamente as famílias de baixa renda. Os deputados que trabalham contra o impeachment ainda não se deram conta do que vai acontecer com a economia neste ano. Eles nunca mais vão se eleger.

Instabilidade permanente
paulinho_da_forca

Foto: Reprodução/site blogs.oglobo.globo.com

A verdade é que a situação político-econômico-social do país muda tanto que o escrito hoje pode estar superado amanhã. A situação é grave. A paralisação do governo, a impossibilidade de tomada de decisões, tanto no Executivo quanto no Legislativo, a percepção de que vivemos um estado de anomia, coloca o país em cheque. O governo Dilma Rousseff toma iniciativas desconexas ou ineficientes para tentar preencher o vazio de autoridade. Bloqueou R$ 10 bilhões de despesas correntes, um gesto desesperado que na prática, não significa nada.
O Brasil teve um déficit primário real (somando os juros) de cerca de 1% do PIB. Para evitar que a dívida pública continue a crescer, deveríamos ter um superávit de 2,5% ao longo dos próximos anos, com a economia crescendo pelo menos 2% e o juro real a cair em 4%.
É possível alcançar esses objetivos. Não no quadro político atual. Para evitar a perda de controle sobre a evolução da economia, são urgentes atos e gestos que abram um horizonte de esperança e devolvam a confiança perdida. Mas como confiar num governo que perdeu completamente confiabilidade e respeito. Há uma crise político-moral. Desnecessário repetir os fatos que nos levaram a tal situação: basta a prisão, com anuência do Senado, do líder do governo, senador em pleno exercício do mandato, para exemplificar a gravidade extrema do momento vivido pelo país.

Apodreceu
6mar2013

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

A política brasileira está podre. Ela é movida a dinheiro e poder. “Dinheiro compra poder, e poder é uma ferramenta poderosa para se obter dinheiro”. É disso que se trata as eleições: o poder arrecada o dinheiro que vai alçar os candidatos ao poder. Saiba que você não faz diferença alguma quando aperta o botão verde da urna eletrônica para apoiar aquele candidato oposicionista que, quem sabe, possa virar o jogo. No Brasil, não importa o Estado, a única coisa que vira o jogo é uma avalanche de dinheiro. O jogo é comprado, vence quem paga mais.
Esse diagnóstico assustador é do juiz Márlon Reis. Ele foi um dos articuladores da coleta de assinaturas para o projeto popular que resultou na Lei da Ficha Limpa. Foi o primeiro magistrado a impor aos candidatos a prefeito e a vereador revelar os nomes dos financiadores de suas campanhas antes da data da eleição. Seu livro Nobre deputado: Relato chocante (e Verdadeiro) de Como Nasce, Cresce e se Perpetua um Corrupto na Política Brasileira, editora LeYa, 2014, merece leitura e reflexão.
A radiografia do juiz Márlon Reis se confirma nas revelações feitas pela Operação Lava Jato. Durante os governos petistas, ancorados num ambicioso projeto de perpetuação no poder, os contratos da maior empresa brasileira com grandes empreiteiras eram usados como fonte de propina para partidos e políticos. Dá para entender as razões da vergonhosa crise da Petrobras – pilhagem, saque, banditismo, estratégia hegemônica -, que atinge em cheio os governos de Dilma Rousseff e Lula. E que vai se mostrando um esquema que contaminou as outras estatais e, por fim, todo o sistema de governo.
O escândalo da Petrobras também mostrou que o sistema eleitoral brasileiro está bichado e só será reformado se a sociedade pressionar para valer. Hoje, teoricamente, as eleições são livres, embora o resultado seja bastante previsível. Não se elegem os melhores, mas os que têm mais dinheiro para financiar campanhas sofisticadas e milionárias. Empresas investem nos candidatos sem qualquer idealismo. É negócio. Espera-se retorno do investimento. A máquina de fazer dinheiro para perpetuar o poder tem engrenagens bem conhecidas no mundo político: emendas parlamentares, convênios fajutos e licitações com cartas marcadas.

Brasília - Senador Delcídio do Amaral coordena o 1º Fórum Nacional de Infraestrutura. Em debate, transporte, energia elétrica, combustíveis, mineração, telecomunicações, saneamento, entre outros(José Cruz/Agência Brasil)

Delcídio do Amaral (PT) primeiro senador preso em exercício. Foto: José Cruz/Agência Brasil

 

Passarinho que come pedra

Fábio Campana

 

Passarinho que come pedra não pode reclamar dos efeitos colaterais, diz o dito popular muito citado pelos políticos nativos em formulação mais chula. O PT no poder confiou na impunidade e chafurdou na corrupção com uma soberba típica de alpinistas sociais bem sucedidos. Foram 12 anos de glórias, retaliações e sublimação de ressentimentos que explicam nosso atraso e a patologia social que marca o comportamento petista.
Queixo empinado, prontos para processar jornalistas, Lula, Dilma, o PT, seus epígonos e seus sócios acreditaram que controlavam os parlamentos pela distribuição de propinas, o Judiciário pela troca de favores e nomeações, a polícia pela condição de organismo de Estado que lhe devia subserviência e a mídia pela dependência financeira. Naufragou nessas ilusões quando o seu modelo exauriu todas as reservas e todas as esperanças.
A época das vacas magras chegou e com ela a desmoralização da farsa petista. Bastou que um juiz se enchesse de coragem e bancasse a delação premiada como método para investigar com rapidez e eficiência os intestinos do poder lulista e expusesse o inacreditável esquema de corrupção usado para enriquecer os emergentes petistas e para financiar sua reprodução no poder.
Hoje, o PT é um partido no poder que já não controla, com sua presidente da República a correr o risco de impeachment, seu presidente de honra e criador, o ex-presidente Lula, sob investigação policial, a maioria de seus membros mais destacados na cadeia, ao lado de seus sócios nos negócios espúrios que conseguira, entre outras, aniquilar uma estatal como a Petrobras através de negociatas como a da compra de uma refinaria falida em Pasadena, EUA.
O PT já não tem discurso, não sabe o que dizer para justificar a crise política, econômica, social e moral sem precedentes que produziu ao levar à prática todos os equívocos acumulados pela concepção esclerosada e esclerosante de um nacionalismo estatólatra que sobrevive apenas nas áreas mais atrasadas do planeta.
pixulecoSob a direção do PT, o país perdeu todas as oportunidades que a conjuntura internacional favorável lhe ofereceu na última década. O populismo petista fez sucesso ao expandir o crédito e o consumo para criar uma falsa sensação de prosperidade. Segurou os preços administrados das tarifas públicas. Investiu pesado na filantropia estatal para garantir bases eleitorais permanentes. Nenhuma originalidade. O populismo latino-americano, hoje consagrado nas cartilhas bolivarianas, sempre fez isso. A vocação dos nativos de esquerda e direita fiéis à veia autoritária faria corar o pandego Mussolini.
Agora, no fundo do poço, testemunhamos o bate-boca entre a tigrada do PT e a caterva do PMDB e seus sócios nas falcatruas. Já não se entendem. Ninguém quer largar o osso. Patética, a esquerda funcionária, que adquiriu alma de trombadinha e fez da sinecura seu meio de vida, se desespera com a possibilidade de perder as benesses. Esperneia contra o impeachment, acusa os adversários de golpismo. Tenta fazer pose de vestal e invoca os interesses do proletariado. Lula, o farsante, retoma o discurso maniqueísta do bem contra o mal. Ópera bufa que encobre nossa triste realidade. A de um povo condenado a amargar anos de depressão econômica, de atraso intelectual, de regresso espiritual às cavernas. É o que nos espera.

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