Música Erudita. Ed. 171

Salve Schubert

Emílio Fabri

circa 1820:  Austrian composer Franz Schubert (1797 - 1828).  (Photo by Hulton Archive/Getty Images)

Franz Schubert. Foto: Divulgação

Ouço Schubert emocionado. Os lieder – canção – e as músicas de câmara expressam de forma genuína toda a intensidade introspectiva das composições schubertianas. Por nutrir uma obsessão pelos poemas de forte dramaticidade de Goethe, Franz compôs as mais profundas e reflexivas lieder baseadas na poética do célebre escritor alemão, como a melancólica Gretchen am Spinnrade (“Margarida na roca’’). Schubert conseguia metamorfosear magistralmente os densos poemas goetheanos em potências metafísicas apenas com voz e piano.
A obra de câmara exige imersão completa para provar a sua poética musical. O Quinteto para piano em lá maior, op 114, “A Truta’’, é a mais difundida e a mais complexa obra desse gênero. O Quarteto de cordas, n° 14, em ré menor, “A Morte e a Donzela” é uma obra que mistura a obscuridade e a leveza. Pode-se dizer que Schubert apresentava dificuldade com sinfonias, sonatas e óperas, mas que encontrava sua espontaneidade artística nos lieder e nas elegantes, dançantes e trágicas músicas de câmara, despejando nesses gêneros toda a sua solidão, miséria, melancolia e angústia.

Três peças para Blues Band e orquestra, William Russo

José Augusto Jensen

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A capa do LP. Em CD, foi editado com “Um americano em Paris” de Gershwin. Foto: Arquivo pessoal

Seiji Ozawa em 1966 era novo no cenário americano, apesar de ter sido assistente de Bernstein e Karajan, tinha pouco mais de trinta anos, vestia camisas floridas e cortava o cabelo à moda dos Beatles. Após uma noite de ensaios com a Sinfônica de Chicago, foi a um bar em que orquestras de blues tocavam regularmente, entre elas a de Corky Siegel e Jim Schwall. Um repórter que frequentava o lugar os apresentou a Ozawa que os havia fascinado. Disse que gostaria de incluir o conjunto em um de seus concertos. Um ano depois, regia uma sinfonia de Russo no festival de Ravinia, da qual era diretor. Em conversas com o compositor, e deste com a banda, surgiu a obra para orquestra e conjunto de blues.
As “Blue Pieces”, terminadas em 68, deixavam um grande campo livre aos solistas: em suas partituras são, sobretudo, os ritmos e raramente as notas, que são especificados. Quanto à orquestra, a música é quase inteiramente anotada, deixando poucas passagens para a improvisação. Estreou no festival de Ravinia, com sucesso. Mais de um ano depois, a Filarmônica de Nova York interpretou a obra com a Siegel-Schwall Band. No primeiro ensaio, a orquestra aplaudia ao fim de cada movimento, e no dia do concerto, o público respondeu igualmente entusiasmado. Outras execuções se seguiram em diversos lugares dos Estados Unidos, uma delas em San Francisco, onde dois anos depois, Ozawa, a banda de blues e a Sinfônica de San Francisco se reuniram para esta gravação, belamente executada pelos dois conjuntos. O escritor e crítico de música Norman Lebrecht a incluiu numa lista de obras primas: 100 marcos do século da gravação, “como ponto alto no gaguejante diálogo entre a música sinfônica e jazz, numa conversação que vinha acontecendo desde os tempos de Gershwin”. Por ocasião da morte de Russo em 2003, o prefeito de Chicago proclamou o dia 16 de abril como “Dia de William Russo”.

 

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