O poeta o letrista

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
(Gilberto Gil)

 

Vira e mexe acompanho discussões a respeito das diferenças entre o que é poesia e o que é letra de música. Geralmente, geralmente!, elas vêm carregadas de convenções que as diferenciam uma como arte maior e outra nem tanto: o poeta e o letrista, o erudito e o popular, o eterno e o fugaz. A comparação é injusta porque pertencem a terrenos diferentes, não há como confrontar passarinho e gato.
Quando eles ocupam cada um a própria casa, a poesia nasce apoiada apenas nela mesma, na estrutura do seu texto e seu poder de beleza e comunicação – a poesia se estabelece a partir da própria força. Letra de música é diferente, ela se determina numa construção que conta e combina outros recursos, precisa ser desenvolvida e acordada com a estrutura da música – a letra de música é uma parte de um todo, precisa se disciplinar a outras ordens.

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Villa Lobos. Foto: Reprodução/site centroculturaledimilano.it

É bem verdade que há casos de letras que sobrevivem sozinhas e com grande valor longe dos acordes. O contrário também, alguns textos originalmente literários ficam mais interessantes ao serem musicados.
Tenho como opinião empírica, e longe do que prega a Academia conservadora, que os conceitos não são estanques nem que devem ficar cada um do seu lado. Vez ou outra podem namorar, se misturar, se encontrar e se complementar. Na coluna deste mês, as poesias que seduziram os músicos e os fizeram trabalhar acorde por acorde para fazê-las caber em sua arte.
Em 1954, Vinicius de Moraes trabalhava na delegação brasileira da UNESCO em Paris, suas conversas como compositor ainda estavam nos primeiros balbucios, mas já tinha no currículo longo e aclamado repertório de poeta. Foi naquele ano, durante uma visita ao Brasil, que escreveu os versos de “A Rosa de Hiroshima”, um protesto ou repúdio ou revolta a respeito das bombas atômicas lançadas no Japão na década anterior e suas consequências. Quase vinte anos depois, Gerson Conrad, integrante do Secos e Molhados, tratou de musicar o poema e o grupo distribuiu pelas rádios do país, letra e música, como das mais executadas em 1973. A força do texto de Vinicius é inconteste, sobrevive sozinha, trata da mensagem, do poder da imagem, das palavras escolhidas por um intelecto superior, faz todos os caminhos sozinha. Mas a música deu-lhe alcance, dramaticidade, mais possibilidades de entendimento. Casamento perfeito.
Ferreira Gullar começou a ouvir Villa-Lobos na vida adulta, a novidade chegou em sua casa no enxoval de Thereza, a esposa, que era fã do compositor. Gullar gostou de imediato. Um dia, sozinho, se encontrou com a Tocata da Bachiana nº 2. Logo teve ganas de colocar-lhe letra, tamanha foi a identificação. Lembrou de umas viagens que fazia ao lado do pai enquanto ainda era menino entre Teresina e São Luís. Tentou várias vezes escrever versos, mas não teve jeito. Muitos anos depois, em 1975 quando estava em Buenos Aires, às lutas com seu Poema Sujo, lembrou das viagens, da infância, do pai, da vida e tratou dos versos de Trenzinho do Caipira. A intenção não era de letrar música, mas de dar vazão a um sentimento comunicado pela composição de Villa-Lobos e foi por isso que no livro do ano seguinte, o poema saiu com a indicação “Para ser cantada com a Bachiana nº2, Tocada”. Edu Lobo leu, levou a sério e quis gravar.

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Ferreira Gullar. Foto: Reprodução/site mis.ma.gov.br

Concordo com quase tudo que o poeta explicou a respeito: “Ele fez o arranjo e gravou o ‘Trenzinho’, que passou a tocar muito no rádio e, verdade seja dita, contribuiu para popularizar a ‘Bachiana nº 2’, talvez a que mais se ouve atualmente. É que a letra facilita a comunicação com as pessoas pouco habituadas a ouvir música instrumental. O mérito não é meu, claro, mas dessa obra-prima que ele compôs, acrescida, então, da interpretação de Edu.” Ainda sobre este episódio, vale mais um comentário de Gullar, só para estampar bem como funciona a cabeça de poeta: “aproveito a oportunidade para desfazer um equívoco, que se tornou frequente, com respeito a essa letra. Em vez de ‘correndo pelas serras do luar’, como escrevi, põem ‘correndo pelas serras ao luar’. É o lugar-comum desbancando a poesia”.
Em 1948 a ONU adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, trinta artigos que tratavam de fortalecer os fundamentos inalienáveis do ser humano. Naquele mesmo ano, Julieta Augusta Drummond, mãe de Carlos Drummond de Andrade, morreu; enquanto estava no enterro em Minas Gerais, era executada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a obra “Poema de Itabira” que Heitor Villa-Lobos compôs sobre o “Viagem na Família”, do poeta. Para acordar homens e adormecer crianças é que Drummond escreveu, no mesmo 1948,“Canção Amiga” (Eu preparo uma canção / em que minha mãe se reconheça, / todas as mães se reconheçam, / e que fale como dois olhos. / Caminho por uma rua/ que passa em muitos países. / Se não me vêem, eu vejo / e saúdo velhos amigos…). As ligações dos acontecimentos do mundo e da vida do autor podem não ter existido e ser apenas uma livre associação minha, mas ainda assim, não há como desprezar as possibilidades de conversas muito íntimas sobre tudo isso. Trinta anos depois, Milton Nascimento gravava o seu Clube da Esquina Nº2 e foi lá que ele ocupou as redondilhas maiores do mineiro para também mandar seu recado. “Canção Amiga” foi cantada coberta de sutilezas e delicadezas com o respeito e a reverência que o dono dos versos merece. Ficou boa com música, mas é insuperável no silêncio do papel, acho eu.

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Carlos Drummond de Andrade em 1959. Foto: Marcel Gatheurot

Momento muito marcante da obra de Drummond, o “E agora, José?” também foi parar em disco. Os versos de 1942 viajaram pelo tempo até serem musicados por Paulo Diniz em 1974. A ousadia de Diniz foi aplaudida de um lado e vaiada de outro. Drummond escreveu gentilmente no jornal “não consegui mais pensar no poema, desvinculado da melodia”. Eu consigo, totalmente.
Como não se encantar com a força que Chico Buarque, tão discreto, deu ao “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto quando o texto foi para o teatro? Aqui vale uma cola de Frederico Barbosa: “foi escrito em 1954/55, por encomenda de Maria Clara Machado, então diretora do grupo O Tablado, que não pôde levar ao palco a peça. Publicado inicialmente no livro Duas Águas (1956), o texto foi finalmente montado pelo grupo do TUCA, (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), com música de Chico Buarque de Holanda, dirigido por Roberto Freire e Silnei Siqueira e obteve sucesso mundial durante turnê em 1966. A partir dessa data, passou a integrar o volume Poemas em Voz Alta que reúne a parcela mais comunicativa da obra do ‘poeta engenheiro’.” Além de popularizar os versos de João Cabral, a trilha de Chico se tornou peça importante na história da MPB e uma espécie de símbolo de luta. O ato “Funeral de um Lavrador” saiu das questões originais do nordeste e corre por aí como representante dos movimentos agrários.

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João Cabral de Melo. Foto: Reprodução/site campoliterario.files.wordpress.com

Fagner se aventurou pelas obras de Cecília Meireles, Ferreira Gullar, Florbela Espanca e Fernando Pessoa; Caetano Veloso cantou Haroldo de Campos; Tom Jobim, Bandeira; Dona Ivone Lara, Mário de Andrade. Clarice Lispector e Machado de Assis foram parar no pop-rock do Barão Vermelho e muito adolescente conheceu Camões porque Renato Russo fez releitura. É vasto o repertório neste câmbio, nem sempre dá certo, nem sempre agrada, mas é bom saber que existe aberturas, que as artes conversam, que poetas e letristas seguem, cada um em seu ofício e vez ou outra podem trocar de lugar.
Um último lembrete pra quem considera a canção arte menor: pense o quanto pode ser complexo encaixar ideias em simbiose absoluta entre o que é discurso verbal e o que é linguagem musical, nem todo poeta consegue. E para quem arrasta para o campo da poesia todas as letras bem elaboradas da MPB: cuidado, elas até podem passar em testes de métrica, construção, metáforas e outros princípios, mas nem sempre sobrevivem ao silêncio do papel.

 

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Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Foto: Reprodução/site revistagarimpocultural.com.br

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