Paisagem submersa

Abaixo do oceano havia outro oceano que revelava um novo mundo. Ninguém ouvira falar, não havia vestígio desta terra submersa, quando, nas profundezas do mar sem fim, este lugar foi encontrado.
Pausa. Respiro. Breve eternidade de surgir, ao acaso, um mundo perdido.
Vasto, incompreensível, gigante.
Em que horas seu rosto começou a dissolver-se no tecido fino da memória? Quanto tempo levou para sua imagem dissipar-se como fotografias lavadas pelo tempo?  Ainda existe o contorno dos seus olhos, a marca da sua boca, um sorriso pego por acaso. Suas linhas antes tão definidas apagaram-se, sumiram, como tempestade no deserto. Agora apenas aridez e sol escaldante.
Insolação.
Escrevo pelo meu corpo o que não quero esquecer. Frases, ritmos, números, símbolos. E o tempo os leva como fez desaparecer, quase por completo, sua identidade. Transformou-a em outra, suspendeu a lógica, sublinhou o ar. A respiração, que ouvia quando você estava ao lado, e quando estava longe, permanece nos sonhos.
Te ouço quando durmo.
Construo uma imagem de algo que foi inteiro um dia. Invento, crio, imagino. Sua pele suave como pétala, sua voz perto dos meus ombros, a fumaça entre os dedos.
Não é mais meu, não é mais nada, não faz parte.
Paisagem submersa.
O cheiro das coisas que estavam ali mudou, a cor das músicas esvaiu-se, o céu que assistia o anoitecer inundou-se de estrelas. Escrevo na minha pele todas as palavras que são minhas, que são agora o tempo incessante e preciso, que formam um outro rosto no qual eu escuto, soletro e respiro.
Até adormecer.
O oceano estava ali, intacto, abissal, entre as rochas, à espera do tempo seguinte. Onde estão as linhas, os segredos, as memórias, os contornos daquilo que um dia fomos nós.

 

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Foto: Marianna Camargo

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