Paris vista de perto

 

Chegar em Paris três semanas depois de tudo o que aconteceu em novembro foi diferente. Sair do avião e encontrar coturnos, fardas, metralhadoras no lugar de atendentes de aeroporto é chocante. Mas o exército é gentil e seus soldados ensaiam sorrisos ao menor sinal de cumprimento e têm no olhar a mensagem que estão ali para a proteção e não para o susto, bonjour, madame.
O aeroporto é lento, lotado por filas e filas de pessoas que têm que apresentar em detalhes suas intenções no país: data de saída, endereço de estada, reserva de hotel, mostrar o dinheiro para passar os dias em questão, malas remexidas, filas e filas para dizer “oi”. Apesar de ser uma multidão que se amontoa nas ondulações para imigração, tudo é muito calmo e silencioso. Há paciência e compreensão.
Não mudei a data porque o medo da violência é o território onde aprendi a caminhar. Todos os dias, quando vou à pracinha, ao banco, ao supermercado, ao bar, a uma praia, há sempre um olhar para trás por cima do ombro, uma desconfiança, um apertar da bolsa contra o peito. É um enfrentamento diário e absurdamente neurótico que se instalou como jeito de sobreviver onde nasci.
Não sei quantas pessoas morreram no Brasil no dia 13 de novembro de 2015. Nem me refiro a mortes por crimes com armas, mas outras, causadas por atropelamentos, batidas de carro, doenças infecciosas em crianças, abortos clandestinos, falta de informação e tantas outras que fazem parte do calendário de coisas que o Estado deveria cuidar e não cuida, nos deixando órfãos e entregues às próprias decisões para combater.
O descaso dos governos é a pior das violências porque é o gerador de todas as outras. Quem olha para o berço e percebe tudo isso acaba ficando com o casco duro, quase impermeável. Por isso, viajar a Paris em dezembro não me pareceu ser mais perigoso do que ficar no Brasil à mercê de qualquer intempérie que apesar de tudo chegará como surpresa.

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Foto: Reprodução/site startribune.com

Nas ruas de Paris há uma quantidade impressionante de homens armados, rostos firmes, olhar no horizonte, espinhas eretas. As ruas estão cheias, as gentes do mundo andam, riem, fazem compras, vão aos restaurantes. Mas não sem tensão ou com aquele absoluto relax dos outros tempos. Um barulho qualquer é motivo para olhar em volta, saber causa e ouvir hipóteses. Sim, há um medo que acompanha todos aqueles que querem que Paris volte a viver os seus dias de liberdade.
Para entrar em qualquer lugar, todos têm as bolsas revistadas, é preciso abrir os casacos, passar por detectores portáteis. Ninguém reclama e o exército, a polícia e os seguranças particulares são cobertos de gentilezas e quase se desculpam por terem que nos enfrentar desta maneira. O francês se constrange em ter que tratar assim quem o visita.
Nem tudo é facilmente superado em Paris por esses dias. Tenho medo dentro do metrô, algumas distâncias prefiro percorrer de ônibus. Não cedo em beber água que não esteja engarrafada, lacrada e a olhar no rótulo origem e data, quanto mais antiga melhor. Evito me largar pelas ruas sem destino certo como fazia antes porque não quero me perder, tenho a necessidade de saber onde estou, de poder avisar onde estou caso aconteça alguma coisa. A viagem desta vez é diferente.
Mas olho em volta e as pessoas estão a trabalhar, a diariamente erguer suas portas, vestir seus ternos, pegar o metrô. A vida segue e a gente sabe bem, não tem como ser diferente. Há um esforço pela normalidade. Placas de promoções de natal nas lojas, cardápios convidativos de restaurantes nas calçadas, ambulantes com chaveiros da Torre.
Não sei como os muçulmanos se sentem, mas sei o que falam sobre eles. E as opiniões racionais são muito diferentes dos sentimentos. Apesar de ninguém com formas intelectuais em dia tratar de esparramar por todos os praticantes de uma religião o mal que sofreram e ainda sofrem, não há como disfarçar os descontentamentos a respeito de mudanças culturais promovidas por um número cada vez maior de habitantes com outras ideias. Os limites individuais franceses são bem elásticos e aquele ar blasé tem muita relação com não se importar com quem está em volta – e, é verdade, com um torcer de nariz pra quem vem de fora ocupar suas terras, mas a antipatia não significa intolerância. E isso é bem incompatível com as restrições islâmicas. “Nós permitidos tudo e todos e este pode ser exatamente o nosso declínio. Se mantivermos nosso padrão cultural o perderemos. Se mudarmos, perderemos também” – disse-me um francês que dá pistas sobre a confusão particular que tudo isso provoca. Quando perguntei sobre as mudanças que as colônias francesas promoveram quando chegaram em outros lugares, não respeitando os modos locais, falou-me que não era a mesma coisa e ponto final na conversa. E me lembrei em silêncio, para não parecer provocação, de um artigo de José Pedro Teixeira Fernandes que li algumas semanas atrás: “a França e as democracias ocidentais, bem como todas as sociedades livres, abertas, democráticas e respeitadoras dos direitos humanos no mundo devem tirar destes acontecimentos: os seus valores não podem nunca ser dados como adquiridos”.
E é para não dar por abalável o meu conceito sobre o que é Paris e o que é bom para mim foi que decidi viajar. Faço o culto ao prazer, à beleza, à boa comida, à arte. E tudo isso é Paris.
Pais brincam com filhos nas pracinhas, mulheres com burcas fazem compras na loja da Chanel, trens partem cheios de turistas para Euro Disney, luzes de natal estão acesas, franceses leem dentro dos vagões, músicos tocam nas estações, alunos apressados entram correndo na Sorbonne. Paris resiste.
Tenho sim, dias de preocupação pela frente, porque viajarei para outros lugares, porque atravessarei a Bélgica, porque a situação não é a mesma de outros tempos. Não posso cair na esparrela de dizer que ando tranquila, feliz e segura por aqui, mas ainda assim, andar em Paris é mais fácil que andar no Brasil.

 

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Foto: Reprodução/site vosizneias.com

 

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