Por que não eleger o vice?

O cenário atual da política brasileira mostra que a eleição automática do vice, que deveria supostamente consagrar a aliança, é colocada em xeque com o evoluir dos acontecimentos. Isso se deu com a saída de Fernando Collor de Mello e a entronização de Itamar Franco, ambos de viés populista, este mais concentrador e personalista, e que gerou o caminho para que o PSDB com Fernando Henrique Cardoso obtivesse o que Mario Covas não conseguira no primeiro pleito direto pós regime de chumbo.
Agora gera ansiedade com o protagonismo recente do vice Michel Temer, ainda mais se levarmos em conta a redescoberta do liberalismo pelo PMDB e a tese do Estado Mínimo, e a hipótese de ele vir a ser o agregador nacional que sugeriu quando mais despontava a crise política nutrida pelas deformações da gestão lulopetista na economia, ora em frangalhos, depois de tanto oba-oba.
Já tivemos vices eleitos diretamente como foi o caso de João Goulart que estava na chapa do PSD-PTB encabeçada pelo generalíssimo Henrique Teixeira Lott, craque em dignidade, péssimo em militância política, e enfrentava majoritariamente a figura de Milton Campos, uma das maiores expressões liberais do país, como regra três do Jânio Quadros. Para a aliança dominada pela UDN o Jânio era a “UDN de porre”. Para dar agrados à esquerda houve aquela condecoração ao Che Guevara, lance geopolítico para valorizar-se como contestador no bloco ocidental, do qual sabia não poder apartar-se.

A densidade ideológica

Essa foi a eleição mais ideológica do país, a de 1960, por ter colocado em exame dois caminhos para o Brasil no choque entre o nacional desenvolvimentismo e uma perspectiva mais liberal do capital externo. Duas fábricas de ideologia se empenhavam: a do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) do general da reserva Golbery do Couto e Silva, estratego do golpe, que derivava da Escola Superior de Guerra, e do IBAD de ultradireita empenhada no combate beligerante às esquerdas e no outro extremo do espectro o Instituto Superior de Estudos Brasileiros de linha radical nacionalista. Lembro que um dos seus melhores quadros, o sociólogo Hélio Jaguaribe, que veio inclusive a integrar o estafe de Collor ao lado do gênio Melchior, o maier exgeta da cultura na pregação de um tal liberal-socialismo (o dicionário de Norberto Bobbio indica que essa vertente precede o Manifesto de Marx) fazia uma redução do conflito entre o que ele chamava de nacional-trabalhismo oposto ao liberal-cosmopolitismo.
Esse choque já tinha ocorrido, com menor intensidade, na vitória de Juscelino que, embora liberal, marcava a sua atuação pelo desenvolvimentismo sem reserva ao capital forâneo, porém dando ênfase ao nacional como se viu na construção de Brasília, nas obras de infraestrutura e também na imposição de etapas de nacionalização progressiva no programa das montadoras, norteado pelo Grupo Executivo da Indústria Automobilística. Também quem primeiro colocou esse divisor foi Getúlio Vargas com estatatais, como a Petrobras e a Eletrobras. O anúncio foi feito por Vargas numa reunião da Comissão Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai, em Curitiba, entre as promoções do centenário em 1953. A CIBPU era integrada pelas unidades vinculadas à hidrografia, dentre os seus componentes lá estavam Lucas Nogueira Garcez, governante de São Paulo, Juscelino Kubitschek, de Minas Gerais e o nosso Munhoz da Rocha. No velho tom nacionaleiro e o arrebatamento de costume, Getúlio falou que as resistências havidas contra a Petrobras teriam sua especificidade com a estatal de energia elétrica e no dia seguinte de sua fala, momento em que caiam ações dos cartéis, um dos presidentes delas, pescando trutas no Canadá, colocou em dúvida o anúncio.
Essa polarização esteve presente no próprio regime militar estatizante e que com Geisel padeceu em rede pública de televisão ao anunciar os contratos de risco no petróleo, afinal um recuo.

A sedução de agora

Se o PMDB perceber que a resistência de Dilma venha a emplacar desiste das ideias hegemônicas e pode até apoiá-la, mas se perceber o contrário Michel Temer entra de sola. Se ele fosse eleito diretamente e não de forma automática teria mais legitimidade como se deu com João Goulart face à renúncia de Jânio Quadros e a resistência civil de Brizola pela posse do cunhado. Todavia num país cuja Justiça Eleitoral fica ameaçada de não adotar o processo eletrônico por causa do ajuste fiscal, pelo menos no momento, não há espaço para ponderações dessa ordem.
O pior é que sobre vice sempre há algo de conspiratório como houve no suicídio de Vargas e que Café Filho assumiu com empatia por forças um tanto quanto opostas ou também nos States em que até na literatura e no teatro tentaram opor Lyndon Johnson ao assassinato de Kennedy.
Dos nossos vices regionais, ninguém foi tão desapegado e expungido de vaidade como o mineiro londrinense José Hosken de Novaes. Perguntado o que faria como vice respondeu “recolher-me à minha insignificância” e como governador dispensava o automóvel oficial e eu o vi, muitas vezes, levando às costas, como um Sísifo nada trágico, as compras do supermercado.

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