SKINHEAD

Além do que se vê, além do que se mostra

 

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Foto: Reprodução/site chicago.adl.org

 

Um rapaz, ao voltar de um piquenique com seu amigo no Museu Oscar Niemeyer, no dia 15 de março do ano passado, deu de cara com um grupo de neonazistas. Um dos amantes de Hitler agrediu-o com um tapa na cabeça, o jovem tentou se defender a segurar a mão do agressor. Bastou! O grupo de neonazis partiu para cima com mais contundência, mesmo com o agredido desacordado e a convulsionar eles não pararam. O motivo: supostamente ele era homossexual. As informações foram divulgadas num site de notícias pouco conhecido, na matéria ora a redação (está sem assinatura) classifica o grupo como neonazista – identificando-o por causa das suásticas tatuadas –, ora diz que era um bando de skinheads. Os comentários na página são unânimes quanto ao desprezo que sentem. Um leitor disse: “Guilhotina neles”. Ou seja, impera a lex talionis, em outras palavras o tal do “olho por olho, dente por dente”.
É insustentável defender alguém que tem uma suástica tatuada, defender a ideologia, a filosofia de vida, a razão de ser. Mas também é insustentável negar que ele tem direito a defesa. É uma questão ética, e não há ética que mate. Mais insustentável ainda é aplaudir ou concordar com quem defende os mesmos métodos neonazistas. “Guilhotina neles” é tão estúpido quanto a Solução Final – não há aqui tentativa alguma de comparação ao sofrimento judeu no holocausto, há coisas que não têm como ser comparadas.
Apesar disso tudo – de existir neonazistas, deles atacarem pessoas pelos motivos mais esdrúxulos e das pessoas quererem agredi-los porque eles agridem –, existe outro fato que chama atenção: os neonazistas serem chamados de skinheads e vice-versa.

 

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Laurel Aitken. Foto: Reprodução/site coverlib.com

História

Trazendo para um português simples, o termo skinhead significa “cabeça raspada”, logo já se tem uma dica como reconhecer um, porém nem todo mundo que raspa a cabeça é um skinhead, assim como nem todo skinhead é um neonazista.
A cultura skinhead surgiu nos subúrbios ingleses, principalmente entre migrantes jamaicanos e jovens desempregados. Esses migrantes trouxeram o ska, uma música sincrética que une elementos do rhythm and blues, jazz e da música caribenha (mento, música folclórica da Jamaica, e calipso, gênero afro-caribenho que surgiu em Trinidad e Tobago). Laurel Aitken, que está para o ska, como João Gilberto está para a Bossa Nova, disse que “o ska também veio do boogie de New Orleans, nos Estados Unidos”, o que mostra o tamanho do sincretismo da música que embala a cultura skin.
Além de terem a cabeça raspada e ouvirem ska, os skinheads foram associados à forma de se vestir e pelo apreço por futebol (surgiram num contexto em que a Inglaterra tinha acabado de conquistar a Copa de 1966). E, sobretudo, para fazer frente ao movimento hippie que despontava entre os jovens da classe média, não que tenha sido proposital, mas a vida nos subúrbios não era tão paz e amor como os hippies queriam.
A violência sempre esteve presente no movimento, o que pode-se dizer ser comum entre as culturas marginalizadas, havia disputa entre gangues por causa de espaços. Mas a segregação racial não era uma marca em seus primórdios. Aitken diz que “havia muitos skinheads negros […] eles não brigavam com os skinheads brancos porque naquela época eles se encontravam para dançar”.
Mas com o avanço da cultura e com cada vez mais adeptos, os skins passaram a ser vistos como criminosos, pois no final dos anos 1960 e começo dos 1970 quem andava com cabeça raspada na Inglaterra eram os bandidos, logo as revistas e agressões policiais tornaram-se rotineiras, o que gerou uma resistência e catalisou a rebeldia. Porém, ainda nos primeiros anos da década de 1970 o movimento era apolítico. E desta época ficou o chamado “espírito de 69”, que se remete à cultura skin associada com a Jamaica e o ska, longe de toda a deturpação que o movimento viria a sofrer.
Na segunda metade da década de 1970 o Reino Unido entrou em crise e imigrantes, principalmente paquistaneses, continuavam a chegar e a se estabelecer com mais facilidade, a concorrência de emprego passou a ficar maior, ainda mais com os imigrantes topando a trabalhar por menos, “a tirar” desta forma o emprego dos locais. Os skins até formaram uma Liga Antipaquistanesa, apesar do caráter xenófobo, eles não eram nazistas e se relacionavam bem com os negros. Diziam: “Não há como sermos nazistas. Meu pai enfrentou nazistas na guerra. Todos os nossos pais ajudaram. A APL (Liga Antipaquistanesa) é específica. Só porque eu odeio paquistaneses, isso não me torna um nazista!”. No entanto, passar da xenofobia para um fascismo não precisa muito.
Naquela altura o movimento punk já ganhava algum destaque e apreço por parte dos skins. A música feita pelos punks influenciou muito a formação do próprio gênero musical skin, que não era o ska e também não era o punk, era o Oi!. Apesar da enorme dissidência do ska para o Oi!, muitos skins permaneceram a tocar e ouvir o ritmo jamaicano, eram os admiradores do “espírito de 69”, os mais tradicionais e saudosistas.
Em 1976 surge na cena inglesa a banda do gênero Oi!, liderada por Ian Stuart, Skrewdriver, no começo era apolítica, as letras tratavam apenas das injustiças e mazelas sociais. Contudo, houve um redirecionamento e ela foi o divisor de águas entre os skinheads quando passaram a compor letras que tratavam do poder branco, ou o white power.

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Ian Stuart. Foto: Reprodução/site metrolyrics.com

A partir de então o Skrewdriver passou a fazer o que se chamou RAC, traduzindo: Rock Contra o Comunismo, porém a sua identificação com os skinheads já era grande, a começar com a cabeça raspada. A ideologia de extrema-direita conquistou muitos skins e Ian Stuart a disseminava em todos os lugares onde fazia show. Numa apresentação na Alemanha disse: “Sou o único homem na Terra que visitaria os campos de concentração da Alemanha. Eu sou britânico, mas estou orgulhoso de estar aqui na Alemanha e estou orgulhoso pra cacete de estar em frente a alemães… E quero dedicar a próxima música a vocês, porque sem vocês não existiria Skrewdriver, porque sem a Alemanha, sem o nacional-socialismo o Skrewdriver jamais teria existido.”
Na década de 1980 os skins passaram a ser conhecidos como são hoje: neonazistas. Grande responsabilidade disso vem dos próprios skins que aderiram à linha nacional-socialista de Ian Stuart, mas também do sensacionalismo da imprensa; não era incomum a associação de skinheads a tudo de mal e errado que acontecia, e muito embora atentados e agressões viessem de fato dos skinheads a imprensa não se preocupou em diferenciá-los dos neonazistas, afinal muitos neonazistas eram skinheads, portanto todos receberam o mesmo título, até aqueles mais tradicionais, do espírito de 69, que adoravam a música sincrética – e negra – jamaicana. E isso perpassou o tempo e chegou até nossos dias, até 15 de março deste ano quando noticiaram que skinheads agrediram um rapaz por ser homossexual.

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Sigla SHARP (Skinheads Contra o Preconceito Racial). Imagem: Divulgação

Essa associação passou a incomodar os skinheads que não eram racistas e que não seguiam a estúpida ideologia nazista. Por isso que Roddy Moreno, conhecido nome da cena e vocalista da banda The Oppressed, trouxe de Nova York e disseminou pela Europa a sigla SHARP (Skinheads Contra o Preconceito Racial). E então, já nos anos 1990, as brigas entre os skins subiram um patamar e passaram a ser entre grupos: racistas contra não racistas, diferente daquelas brigas de gangues nos subúrbios ingleses, e isso se espalhou para o mundo. Os skinheads chegaram, inclusive, cá em terras tupiniquins, e de ambos os lados: os racistas e os não racistas.

Neonazistas

Os skinheads não racistas, principalmente do “espírito de 69”, não chamam de skins os neonazistas, dizem que é uma contradição em termos uma vez que o movimento começou com negros jamaicanos, além de ter surgido na Inglaterra no pós-guerra, isto é, em território inimigo dos alemães.
Os neonazistas brasileiros conseguem ser ainda mais equivocados. Talvez falte leitura, um mínimo de estudo. Falam de pureza de raça, da soberania da raça branca num país miscigenado como o Brasil, detestam negros, nordestinos e homossexuais. Mais. Se dizem nacionalistas mas importaram uma ideologia e um sistema europeu. Negam a história. Negam o holocausto. Um deles diz: “Essa história é pura ficção. Não morreram seis milhões de judeus, nem existiram câmaras de gás e nem Hitler foi um assassino”. Apoiam-se no revisionismo histórico para sustentar suas ideias. E, como tudo precisa de fundamentação, “fundamentam-se” no livro Os protocolos dos sábios de Sião, livro antissemita russo de cunho político e mentiroso que diz que os judeus têm um plano para dominar o mundo. Foi escrito no final do século XIX para legitimar e enaltecer o czar russo Nicolau II.

Curitiba

Em Curitiba os ataques de neonazistas, principalmente a gays, negros e moradores de rua, é relativamente rotineiro. E os jornais sempre noticiam da mesma forma, como se todos os skinheads fizessem parte do mesmo balaio, o que de certa forma prejudica o movimento que não pactua com essa barbárie. No entanto, os neonazis fazem parte de uma vertente skin, assim como os torcedores do Coxa que invadiram o gramado em 2009 também faziam parte da torcida do Coxa.
A diferença é que os skinheads que não são racistas pagam o preço pelos que são. Houve toda uma construção baseada em fatos reais e mentirosos para caracterizá-los como nazistas, por isso que desde a década de 1990 quando criaram o selo SHARP há uma imensa necessidade de afirmação por parte dos skins em dizer que não são racistas, em carregar a suástica com o xis bem grande para mostrar que não compactuam com isso.

Outro rapaz

Um rapaz foi ao centro histórico de Curitiba para se divertir. Cheio de bares. Queria entrar em algum. Não sabia da programação e aleatoriamente entrou no então Blues Velvet, que hoje existe com outro nome. Lá tocava ska, deparou-se com uma porção de skinheads, havia negros, gays, havia pessoas naquele dia, todos dançavam harmoniosamente, com um jeito peculiar que se dança o ska. Ninguém sentiu a necessidade de esfaquear ninguém. O rapaz cumpriu seu objetivo, se divertiu e foi embora. Os jornais não noticiaram que os skinheads não esfaquearam ninguém, que estavam juntos com gays e negros, que quando saíram do bar se depararam com moradores de rua e não mataram nenhum. E nem havia motivo para noticiar. Mas noticiaram – como havia de ser – quando o rapaz que voltava do MON com seu amigo levou uma surra dos neonazistas, ou foi dos skinheads? Tanto faz. Afinal, todo skinhead é neonazista, não é?!

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Foto: Reprodução/site macsporran.deviantart.com

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