Tudo está à venda

No limiar da era cristã, havia no Império Romano um dublê de político e historiador chamado Salústio, notável por sua capacidade de retratar o caráter dos povos. Num de seus livros, um grupo de aristocratas romanos resume numa frase para seus ouvintes númidas o alcance da corrupção na metrópole. “Tudo em Roma está à venda”.
Salústio sabia das coisas. Graças à sua amizade com Júlio César, ele governara a Numídia, uma possessão no norte da África, tornando-se conhecedor das entranhas do poder. Ora, pois, apesar desse diagnóstico tão curto e tão preciso, na mesma Roma erguia-se um templo dedicado a Vesta, a deusa da pureza absoluta, em cujo interior a chama sagrada ardia diante dos olhos vigilantes das virgens vestais.
Afastada no tempo e no espaço, Brasília lembra Roma dessa época de Salústio. Tudo está à venda, apesar dos discursos moralistas e declarações de honestidade da presidente Dilma Rousseff, no esforço para dar ao seu governo e ao seu partido, o PT, a imagem de que está sob o domínio de vestais.
“Nunca fui acusada de desonesta, não tenho conta no exterior, não usufrui de bem ou dinheiro públicos para enriquecer”, repete Dilma Rousseff para escapar de um julgamento político, enquanto o verdadeiro ocorre no Tribunal de um juiz de primeira instância, Sergio Moro, que se pôs à frente das investigações sobre o maior caso de corrupção continuada do planeta.
Premida pelos clamores de saneamento moral, Dilma sacou uma bandeja de prata para oferecer em sacrifício a cabeça de alguns de seus sócios no condomínio que dirige. Atribui a eles toda a corrupção revelada pela Operação Lava Jato. Procura atingir seu principal desafeto político, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, que tem muita culpa em cartório, comprovadas pelas contas secretas em bancos da Suíça e outros paraísos fiscais. Os dois se merecem e enquanto havia a certeza de que um poderia favorecer o outro para escapar da polícia, se entenderam perfeitamente.
Quem não os merece somos nós, espectadores dessa farsa do combate à corrupção onde ninguém aceita o papel de vilão. Ora, a Petrobras foi espoliada, vilipendiada, estuprada pelos governos Lula/Dilma e arma-se essa farsa das vestais de Brasília. O que é mais surpreendente, com o apoio de homens aquinhoados com inteligência e talento, como o Chico Buarque de Hollanda, que beija as mãos da presidente em nome de sua obra social. E em respeito a Lula, o ideólogo de todo esse sistema que se reproduz graças à corrupção, e que em surto preocupante, com os olhos esbugalhados e a expressão de quem não sabe bem onde está, diz que as denúncias da Lava Jato são mentiras, são montagens para prejudicar ele, Dilma, o PT e, claro, os mais pobres da Nação.
Tudo bem, o Brasil sempre se amparou em grandes equívocos. Há porções da esquerda nativa que ainda veneram a memória de Getúlio Vargas, um ditador tropical que torturou, matou, censurou e imitou Mussolini. Difícil é viver como espectador dessa farsa e dessa ignorância.

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