Bullying, júnior e senior

Ilustração: Reprodução/site en.wikipedia.org/wiki/History_of_archery

Ilustração: Reprodução/site en.wikipedia.org/wiki/History_of_archery

Dois meninos encenam uma briga e um deles está armado com um pau. Aí aparece um adulto (que no fundo queria ver no que daria o racha) e a pretexto de fixar um mínimo de isonomia na disputa dispunha-se a tirar a aparente arma das mãos de um deles. O menino fazia com que a madeira escorresse nas mãos do interventor em cujo extremo havia excremento e aí os supostos litigantes saiam às gargalhadas no local vendo o pacificado lambuzado. Havia outras formas de maldades como a de colocar um fio, ao longo da rua, para derrubar ciclistas e motoqueiros que a transpunham ou ainda simplesmente tirar-lhes o boné ou o chapéu. Com o nylon a coisa ficou mais agressiva como de resto o uso do cerol para derrubar pipas e com isso gerar acidentes.

Arapucas não eram usadas apenas para capturar passarinhos: voçorocas eram escondidas no meio do campo para derrubar os incautos e outra maldade era fazer nós nos paletós colocados como trave na pelada e submetidos à urina nas mangas, o que obrigava muitos a usar os dentes no empenho em desamarrá-las. Havia provocações mais singelas como a de apertar campainhas das casas. Dizem que o Monsenhor Celso, religioso muito alto, ao ver um menino baixinho querendo tocar uma delas e não tinha como alcançá-la procurou ajudá-lo e entrando, afinal, no bullying da piasada sem sabê-lo.

Mas há o bullying dos adultos e um dos veteranos na especialidade era o cartorário José Nociti. Um dia encontrou o professor e escultor Osvaldo Lopes que, afetivo como era, queria contar-lhe a boa nova de que teria adquirido um aparelho importado para ouvir. Nociti quis mostrar alegria com a boa notícia e movia os lábios como se estivesse falando com máxima naturalidade e o professor, estranhando que nada ouvia, mexeu nos controles do aparelho até que um automóvel buzinou na entrada da Travessa Oliveira Belo e o mestre quase foi ao espaço com os decibéis produzidos.

Na Avenida Luiz Xavier os carros paravam nos dois lados e o Nociti entrou num moderníssimo Jaguar e um dos seus colegas ao vê-lo a mexer nos comandos do carro foi convidado a testar a máquina, o que fez sem cerimônia e vá a tocar em todos os comandos sem perceber que o “amigo” tinha se afastado. Nesse momento chega o dono e ao ver o intruso pede satisfações. À distância Nociti ria com o constrangimento do desatento que não percebeu ter caído numa fria.

Outra do cartorário foi no edifício Avenida, hoje sede bancária, então bastante desgastado, em que morava. À noite percebeu que havia vizinhos jovens no andar superior e como utilizavam som forte e ambiental bateu com a vassoura no teto e chamou-lhes pela sacada a atenção. Prometeram baixar os decibéis, mas lá pela madrugada o som voltou ensurdecedor. Em lugar da vassoura, Nociti pegou o revólver e descarregou no teto. De manhã ao sair viu o porteiro impressionado com o fato de os mais novos inquilinos terem se mandado como se estivessem perseguidos pela polícia com uma cinematográfica fuga precedida do trabalho de remoção de equipamentos, cadeiras, roupas, enfim de tudo o que possuíam.

De todas do José Eduardo Nociti nada supera o dia em que revoltado na Semana da Pátria com um símbolo que ele considerava do imperialismo norte americano, um balão publicitário da Coca Cola, deu vários disparos de sua janela e um mecanismo recuperava a postura do ornamento. À noite armou o artista plástico Nelson Matulevicius, com arco e flecha, instrumentos nacionalistas como ele, e passou a alvejar o balão até que o Corpo de Bombeiros o removeu diante do agito com mais de oito mil chauvinistas berrando slogans contra os “Esteites”. Exagerados dizem que os nacionalistas não deixaram por menos e entoaram o Hino Nacional. É o que dá o excesso de ideologia, isso se deu na disputa de 1960 entre o general Lott e Jânio Quadros.

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