Latim em pó o que quer, o que pode essa língua

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Fernando Pessoa

 

fernando pessoa ++ ESCRITOR ESCRITORES

Fernando Pessoa – Foto: Divulgação

Um dia desses a pensar em nossa sofrida Língua Portuguesa a imaginei como um desses bonecos infláveis que na infância conheci como João-bobo. Leva socos e pontapés de tudo quanto é lado, cambaleia, chacoalha, deita-se na lona para depois, colocar-se, glorioso, em pé. Oh! São Camões!, como podemos machucar tanto a última flor do Lácio?

O Latim disse adeus ao mundo dos vivos e entrou para História a nomear a Língua Portuguesa como filha caçula. Pai tardio, ele já não era clássico, íntegro, habitual na hora do parto; por aqueles tempos era chamado vulgar, a transitar pela comunicação dos colonos romanos três séculos antes de Cristo. A irmã mais nova da família se desenvolveu robusta, não teve medo de se misturar e tratou de, serelepe, absorver o que melhor lhe servia para comunicação. Tornou-se representante de reino, de conquistas, de expansão de territórios. E, por fim, depois de um longo caminho, se transformou no nosso jeito brasileiro de pensar e dizer o mundo.

O último biscoito do pacote da marca Latim não se acomoda, não tem sossego e continua num flerte com quem encontra pela frente. Dizem por aí que a Língua Portuguesa tem 500 mil palavras, com variações para mais ou para menos, sem margem de segurança. Num piscar de olhos ou num dedinho de prosa novas surgem para nos dizer alguma coisa que ainda não foi dita ou para novidades em nosso cotidiano e aos poucos, em gerúndio, vão engrossando o caldo do vocabulário.

Também corre a informação que uma pessoa com nível médio de instrução (que não sei dizer o que é exatamente) utiliza cerca de 1500 palavras em sua coleção particular de comunicação.

Pois bem, não bastasse toda a complexidade de uma língua, ainda há os inevitáveis furos às regras, as invencionices, as ignorâncias e as, assim chamadas, licenças poéticas. Tem muita gente boa que anda por aí a utilizar desta concessão, um pouco para fazer graça, um pouco para expressar melhor, um pouco para caber na métrica, um pouco para trabalhar menos atrás de solução dentro das regras. A MPB tem um leque grande de exemplos. Nesta edição, um passeio pelo lado de fora dos limites da norma.

Adoniram Barbosa - Foto: Reprodução/site ogeleiageral.com

Adoniram Barbosa – Foto: Reprodução/site ogeleiageral.com

Para começar, o português italianado de Adoniran Barbosa. Com a observação da mistura entre idiomas mais o palavreado simples, característico de uma fatia da sociedade, Adoniran formou seus códigos de comunicação na música. Cantou a aldeia para falar ao mundo sobre belezas e mazelas, particularidades e generalidades. Foi inteligente e sensível ao dar voz literal a um pedaço de São Paulo e espalhar um jeito de tratar a língua, que significava mais de hábitos e costumes do que de sintaxe. “Mas um dia, nós nem pode se alembrá / Veio os homisc’as ferramentas / O dono mandô derrubá / Peguemo tudo nossas coisa / E fumos pro meio da rua / Apreciá a demolição / Que tristeza que nós sentia / Cada táuba que caía / Doía no coração” (Saudosa Maloca, 1955). Toda obra de Adoniran é composta por retratos de situações e personagens que formavam os subúrbios, vilas e cortiços paulistanos, por conta disso tratou de levar para dentro de suas criações o que de mais cru e verdadeiro havia naqueles lugares; se transformou no mais popular e verossímil compositor de São Paulo. Hoje, gentileza, cordialidade e até certa ingenuidade diante de algumas circunstâncias fazem parte do passado, mas estão bem documentadas nas frases do compositor-cronista: “Iracema, fartava 20 dias pro nosso casamento / Que nóisia se casá / E você atravessô a rua São João com a Consolação / E vem um carro, te pega e te pincha no chão/ O chofer não teve culpa, Iracema / Atravessou contramão” (Iracema, 1956).

A norma culta da língua impõe: após preposição o correto é empregar a forma oblíqua dos pronomes pessoais. Vamos lá, um exemplo: “que houve entre você e mim”, este é o jeito certinho, a seguir a cartilha. Mas quem é que consegue falar assim? O que está dentro do padrão, neste caso, não faz comunhão com o ouvido e Caetano Veloso tratou de sacar a licença poética, arma mais poderosa para mandar às favas as regras e deixar tudo no campo do conforto para quem ouve ou quem canta: “Acho que nada restou pra guardar ou lembrar/ Do muito ou pouco que houve entre você e eu” (Muito Romântico, 1977).

Foi na quarta-feira de cinzas de 1940 que Roberto Roberti e Mário Lago escreveram “Aurora”, um ano de antecedência antes de ganhar as ruas do Rio de Janeiro e mesmo assim a marchinha se entregou ao apelo da sonoridade em oposição à normativa: “Se você fosse sincera / Ô, ô, ô, Aurora / Veja só que bom que era / Ô, ô, ô, Aurora”. O correto, segundo os xerifes da língua, seria “seria” em vez de “era”, mas, cá pra nós, daria um atrapalho daqueles na métrica e no ritmo, a não ser que Aurora fosse trocada por Maria ou Sofia, mas vai ver que estas eram mais chegadas à sinceridade e não era o caso de misturá-las nesse caldo. Uma curiosidade, ainda em 1941, Harold Adamson fez versão em inglês para a composição que viajou pela interpretação das Andrew Sisters pelos Estados Unidos e Inglaterra e também fez parte da trilha sonora do filme Segure o Fantasma, de Abbott e Castello. A Aurora da letra em inglês também não era nenhuma santa: “When you smile and call me honey / Oh oh oh oooh (be mine oh oh) Aurora / Is it me or just my money?”.

E Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, será que estavam errados ao tirar Asa Branca do folclore e estampá-la na MPB com aquele jeito tão particular de expressão? “Quando o verde dos teus óio / Se espaiá na prantação / Eu te asseguro, não chores não, viu? / Que eu vortarei, viu, meu coração”. Claro que não, né? Fora da variante culta, há outras formas de dizer o nosso idioma e elas se estabelecem a partir do ambiente, dos falantes, das conversas e entendimentos. E todas elas são reais e válidas, o que não quer dizer propagar erros, mas respeitar culturas locais.

Outro exemplo da língua ceder aos costumes de ambiente é As Mocinhas da Cidade, de Salvador Graciano, nosso Nhô Belarmino: “As mocinhas da cidade são bonita e dançam bem […] E o sol já vai entrando, e a saudade vem atrás / Vou buscar aquela linda moreninha para mim viver em paz”.

Roger - Foto: Reprodução/site cultmagazine.com.br

Roger – Foto: Reprodução/site cultmagazine.com.br

Às vezes o que parece erro é construído com toda consciência para dar mais tinta a uma ideia. Caso do sucesso da década de 1980 do Ultraje a Rigor “A gente não sabemos escolher presidente/ A gente não sabemos tomar conta da gente / A gente não sabemos nem escovar os dentes/ Tem gringo pensando que nós é indigente/ Inútil, a gente somos inútil”, neste caso, não saber concordar sujeito e verbo faz parte da grande catástrofe estampada na mensagem. Isto acontece também na desordem psíquica que o personagem de “Fora de Si”, de Arnaldo Antunes, é acometido: “Eu fico louco / Eu fico fora de si / Eu fica assim / Eu fica fora de mim”. Ah! O Arnaldo também é autor (com Marisa Monte e Arto Lindsaye) de Beija Eu, outra que provoca um arrepio nos puristas.

Arnaldo Antunes - Foto: Divulgação

Arnaldo Antunes – Foto: Divulgação

Portugal, Ilha da Madeira, Arquipélago dos Açores, Brasil, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe são os países que têm a língua portuguesa como idioma oficial. Macau, Goa (um estado da Índia) e Timor Leste na Oceania utilizam a língua de forma não oficial. Ao todo são 250 milhões de falantes, a quinta mais dita no mundo e a terceira no ocidente. Com esses dados, é fácil concluir que as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como as outras. Já seria tarefa complicada entender que, apesar de diferenças (que se dão principalmente pelos hábitos, distâncias, imigrações e vizinhos), Brasil e outros lugares falam a mesmíssima língua. Mas aqui, em nosso território-continental há uma forma para cada lugar e elas vão além do sotaque. Quem canta a própria aldeia, muitas vezes dá o colorido do seu lugar. Quem canta as generalidades às vezes escorrega nas normas. Quem canta os sons esquece dos sentidos. E assim vai.

De qualquer forma, é sempre aconselhável pensar nas diferenças daqueles que se aventuram no mundo das palavras. Uma coisa é ter consciência da língua e dos porquês das puladas de cerca, outra, é simplesmente fazer o idioma sofrer dentro da ignorância – trigo e joio.

As palavras finais são de Olavo Bilac, Língua Portuguesa:

 

Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela…

 

Amo-te assim, desconhecida e obscura.

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura!

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

 

em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

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