Dinheiro na mão é solução

“Depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à arte” Millôr Fernandes

 

Pronto! Parece que a vida voltará ao normal. As festas, as férias, o verão, as folgas, as comemorações, tudo vai ficando para trás de um jeito que ganha ritmo frenético para estarmos novamente a repetir que o ano passou rápido. Nessa balada vamos tratando dos compromissos e fazendo o corte aos excessos do verão.

Esta coluna poderia trilhar vários caminhos sobre o que acontece em demasia nos meses de férias. Mas talvez por preocupações próprias e algum compromisso com a realidade, vamos ver como a MPB canta sua relação com a grana, tutu, bufunfa, tostão, papel, capim e por aí vai…

Para não nos jogarmos com tanta força entre a fantasia e a realidade, começamos com simpática marchinha que desde 1960 desfila pelos salões de carnaval. “Me dá um dinheiro aí”, dos irmãos Homero, Ivan e Glauco Ferreira foi lançada por Moacir Franco que ajudou muito na popularização da composição vestindo a pele de mendigo n’A Praça da Alegria que tinha o título como bordão: “Ei, você aí me dá um dinheiro aí / Me dá um dinheiro aí… Não vai dar / Não vai dar não / Você vai ver que grande confusão / Eu vou beber / Beber até cair / Me dá, me dá, me dá, oi / Me dá um dinheiro aí”.

E aquele que perdeu tudo? Aquele que de fato está na miséria total, amor e dinheiro? Até o mais paupérrimo dos homens tem lugar na MPB. E foi pensando nele, e com algum projeto de tratar socialmente uns problemas que nos acompanham há muito, que Elton Medeiros e Mauro Duarte escreveram “Meu sapato já furou”, lançada por Clara Nunes em 1974: “Meu sapato já furou / Minha roupa já rasgou / E eu não tenho onde morar […] / Eu não sei nem mais sorrir / Meu amor me abandonou / Sem motivo e sem razão / E pra melhorar minha situação / Eu fiz promessa pra São Luís Durão”.

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Beth Carvalho. Foto: Washington Possato

Em 1977, ali bem pertinho do milagre econômico, quando a inflação no Brasil girava em torno de 40%, Chico Santana, integrante da Velha Guarda da Portela, tratou do assunto de um jeito jocoso, mas bem direto a respeito do que o país passava. “Saco de feijão” foi lançada por Beth Carvalho: “Meu Deus, mas para que tanto dinheiro? / Dinheiro só pra gastar / Que saudade tenho do tempo de outrora / Que vida que eu levo agora?! / Já me sinto esgotado / E cansado de penar, meu Deus / Sem haver solução / De que me serve um saco cheio de dinheiro / Pra comprar um quilo de feijão”.

E aquelas contas que não fecham? Estica daqui, puxa dali, emenda acolá… não há solução que funcione quando falta um zero no ordenado: “Tá faltando um zero no meu ordenado / Trabalho como louco / Mas ganho muito pouco / Por isso eu vivo sempre atrapalhado / Fazendo faxina / Comendo no China” (Falta um zero no meu ordenado, 1948, Ary Barroso e Benedito Lacerda). Há também um tipo que figura entre o malandro e o ignorante, o sonso e o com poucos recursos matemáticos, o personagem foi cantado por Luiz Gonzaga em sua parceria com Miguel Lima em 1943 “Dezessete e Setecentos”: “Eu lhe dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos / Você tem que me voltar dezessete e setecentos / Sou diplomado, frequentei a academia / Conheço geografia, sei até multiplicar / Dei vinte mango para pagar três e trezentos / Dezessete e setecentos você tem que me voltar”.

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Paulinho da Viola. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Paulinho da Viola deu o recado lá em 1976 que dinheiro na mão é vendaval e muito antes disso, em 1940, Wilson Batista e Geraldo Pereira provavam que a teoria é válida até mesmo quando a grana em questão não passa de um delírio. A música “Acertei no milhar”, mostra uma tacada de sorte no jogo do bicho que rende a bolada de 500 contos de réis, dinheiro pra chuchu. O ganhador logo faz todos os planos de onde torrar a grana e, no final, a comprovar outra teoria, a de que alegria de pobre dura pouco, descobre que tudo não passava de um sonho. “Etelvina, / Acertei no milhar / Ganhei quinhentos contos / Não vou mais trabalhar […] Etelvina vai ter outra lua-de-mel / Você vai ser madame / Vai morar num grande hotel / Eu vou comprar um nome não sei onde / De Marquês Morengueira de Visconde / Um professor de francês, mon amour / Eu vou mudar seu nome pra Madame Pompadour […] / Mas de repente, derrepenguente / – Se acorda, vargulino! / Saia pela porta de trás que na frente tem gente. / Foi um sonho, minha gente!”.

A parcela pop-rock também deu umas voltinhas pelo tema e destaco como representantes, “Mim quer Tocar”, de Roger Moreira com o Ultraje a Rigor e “Esmola”, de Samuel Rosa e Chico Amaral, no repertório do Skank.

Agora, não se engane, não só de interesses materiais a MPB vivencia esta temática. Há aqueles abnegados que ou não pensam nisso ou pelo menos vez ou outra tratam de um jeito mais desprendido (“Não me amarra dinheiro, não / Mas formosura / Dinheiro não / A pele escura / Dinheiro não / A carne dura” – Beleza Pura, Caetano Veloso). Tim Maia, na vida e na arte, tinha lá seus desinteresses, quando soltou a voz em “Canário do Reino”, de Carvalho e Zapata “Não precisa de dinheiro / Pra se ouvir meu canto / Sou canário do reino / E canto em qualquer lugar” ou quando escrachadamente revelou que só queria amar. E é com a dançante “Não quero dinheiro”, que a coluna se despede, recomendando muita ponderação para os próximos meses: “Quando a gente ama / Não pensa em dinheiro / Só se quer amar / De jeito maneira / Não quero dinheiro / Eu quero amor sincero / Isto é que eu espero / Grito ao mundo inteiro / Não quero dinheiro / Eu só quero amar”.

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Tim Maia. Foto: Divulgação

 

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