Homem, essa metamorfose ambulante

No decorrer de sua existência o homem tem sido uma verdadeira metamorfose ambulante, como muito bem disse o inesquecível Raul Seixas em sua canção. Muito necessárias, essas transformações constantes conferem-lhe uma capacidade de adaptação e resiliência frente ao desenvolvimento e cobranças de uma vida em sociedade. Foi assim desde os primórdios, passando por todos os períodos marcantes da história. Transformando-se, adaptando-se e evoluindo. Infelizmente, nem sempre essas mudanças renderam frutos positivos em algumas questões éticas e morais, acontecendo verdadeiros retrocessos nesses quesitos. Mas, chegou até aqui, em pleno século XXI. E como se encontra?
Desorientado, confuso, profuso nas opiniões e julgamentos, econômico nas convicções e ideais. Como muito bem colocado pelo Dr. Enrique Rojas catedrático de psiquiatria da Universidade de Madri, “O homem, hoje, tornou-se light. Um sujeito cuja bandeira é uma tetralogia niilista: hedonismo-consumismo-permissividade-relatividade. Tudo costurado pelo materialismo.” Por isso o chamou de light, pois o comparou aos  nossos produtos atuais: alimentos sem calorias e gorduras, cerveja sem álcool, refrigerante sem açúcar, açúcar sem glicose, cigarro sem nicotina, manteiga sem gordura, enfim, um homem sem substância e conteúdo.
Mas quando isso se deu? Quando distanciou-se de sua essência, de sua busca mais profunda pelo verdadeiro sentido de sua existência. Trocou tudo pela superficialidade. Trocou a alegria pelo prazer, não sabendo sequer sua diferença. Ignorante apesar de toda a informação que tem. É a cultura do bastantão, do espeto corrido, um pouco de tudo sem se aprofundar em nada. Dá sua opinião baseada no achismo, não tem solidez. Constrói castelos de areia e vive na ilusão de que está bom.
Contaminado pelo vazio cultural que desfila pelos nossos canais de televisão, plim plim, que fazem apologia ao sexo, violência e banalidades, idolatra big brothers. Senta-se à frente da TV e fica zapeando, como zapeia pela vida, sem saber aonde quer chegar, pois sequer sabe para onde quer ir, tipo aquela piada do português “Que andar quer ir? Tanto faz estou no prédio errado!”
Desenvolvimento de linguagem paralela, inóspita e árida para ganhar-se velocidade de comunicação via MSN ou Whatsapp. Necessidade de redação só para não zerar a prova do Enem. Sócrates foi um jogador de futebol e Platão é um planeta distante.
Longe desta reflexão, desejar a formação de intelectuais, mas um mínimo necessário para a sobrevivência de uma sociedade culta que buscasse informação de maneira criteriosa com um mínimo de bom senso. Hoje temos um Carrefour de informações com prateleiras repletas de isopor.
Perdeu-se a fé e ganhou-se a religiosidade que escraviza e cobra($). Não quer buscar a Deus, quer apenas que o ajude!
Tudo muito fast, inclusive o food. Rápido, insosso e vazio, foi para onde essa metamorfose o levou. Diz-se contente e ao mesmo tempo frustrado!
Quer ser politicamente correto mas vota sem convicção em quem vai representá-lo. Não cobra nem participa, dá trabalho. Dá no que está aí, um semianalfabeto sucedido por uma guerrilheira.
Porém, como é uma metamorfose ambulante nada o impede de reavaliar-se e reinventar-se, desde que queira. A luta não é em vão. Talvez em algum momento pare de negociar valores inegociáveis e volte a sentir o ardor da necessidade da busca do autoconhecimento e busque. Seria necessário um novo Big Bang?

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