Jovem demais para morrer

Foi na virada do ano. Senti uma estranha e incômoda dor. Olho então no espelho o meu dorso e o peito próximo ao pescoço e vejo a origem do mal. Estava tudo lá, cheio de “picadas” de uma maldita aranha marrom, pelo que interpretei naquele átimo infeliz. Por alguns momentos bateram as dúvidas. Seriam realmente “picadas” de um bicho peçonhento qualquer ou algo que desconhecia? Enfim, sorumbático, fiquei a sussurrar intimamente: que porra é essa?
Era um final de semana e achei por bem ficar observando as malditas lesões por algum tempo. Quem sabe aquilo não sumiria em três dias? Ou não seria perigoso gangrenar se a autoria fosse da maldita aranha marrom que prolifera em abundância em Curitiba? Sei lá, de qualquer maneira, ruminando as interrogações fiquei mesmo observando aquilo no espelho toda hora tal qual a bruxa dos irmãos Grimm a se olhar no espelho e a perguntar se existia alguma mulher mais linda que ela. No meu caso a perguntar ao meu reflexo se aquilo eram picadas de aranha marrom ou não.
Domingo, logo cedo, voltei ao espelho. Estava piorando e pensei: o próximo passo é a gangrena. Vou morrer de uma porra de uma picada de aranha marrom na virada do ano. E eu que achava que partiria dessa pra pior enfartado, mas não por uma merda de uma picada. Só faltava essa. Que mundo cruel!
De repente volto à razão e procuro ajuda. Encontro o telefone do Centro de Controle de Envenamento do Estado. Ligo e conto meu drama. Recebo a orientação: “Não procure atendimento particular, eles são despreparados para isso. Vá até um posto de saúde porque eles sabem identificar se é aranha marrom ou outro bicho peçonhento e lhe encaminham para tomar o soro”. Eu pergunto: como assim? E ouço mais uma vez: “É isso mesmo o que o senhor ouviu, e vá só amanhã porque domingo os postinhos estão fechados”. Exclamo: maldição! Como fui imprevidente.
Na segunda-feira estou cedo no postinho. Fui bem atendido. Gozado, achei que ia sofrer uma desgraça para ser consultado. Que nada! Em cinco minutos estava eu e o médico cara a cara. Parece que desta vez dei sorte. Ele vê as lesões. Sim, já estavam com bolhas e vermelhões. Vaticina na hora: “O senhor não foi picado por aranha marrom coisíssima nenhuma, isso é Zóster”. Como? Respondo eu. “Sim senhor, isso é Herpes Zóster. Sabe o vírus da catapora e da varicela?”. Sei, respondo. “Pois é, pois saiba que é ele que se encontrava dormindo no seu organismo preparando seu ataque na hora certa e para o senhor ela chegou. O Zóster é muito comum em idosos, principalmente quando eles fazem um quadro de estresse ou baixa imunidade. Vai tomar um antiviral e torcer pra não complicar, só isso. Está aqui a receita, observe se não piora e passe bem”. Ainda indago mais uma vez: doutor, como assim esse negócio de atacar idoso? Ele responde com ar enfadonho: “Estou vendo pela sua ficha que o senhor tem mais de sessenta anos não? É um idoso, portanto tornou-se um alvo fácil do bicho. E tem mais, o Zóster ataca desde os cinquenta, só pra sua informação. E também já que o senhor tocou no assunto eu lhe pergunto: o senhor tem pressão alta?” Sim. “O senhor sofre de dores nas articulações?” Estou com talalgia no calcanhar, respondo. “O senhor é diabético?” Não. Menos mal. “Vou ser breve: o senhor toma remédios de uso contínuo?” Sim, uma porrada. “Então meu amigo, o senhor querendo ou não é um idoso e por isso sujeito a moléstias indizíveis e lamento ainda lhe dizer que idosos têm apenas que rezar para suas doenças estabilizarem, porque a cura é uma utopia cruel. Cuide-se”. E se despede balançando o seu jaleco branco ridiculamente desarticulado, pronto para dar outra notícia cruel ao seu  próximo paciente.
Naquela humilde sala de atendimento daquele humilde postinho de saúde sinto num repente uma solidão sem dó. Ainda sob o efeito daquelas verdades ditas sem rodeios, colocando de volta a camisa, olho-me no pequeno espelho oxidado pendurado naquela parede precisando de pintura e pela primeira vez na vida me vejo um idoso. Eu que passei a vida me achando jovem demais para morrer. Lembro que a despeito de querer ir ao show dos vetustos Rolling Stones pela segunda vez, preciso antes examinar a próstata, coisa que nunca fiz por ser um exame de idoso.
Já no carro, a solidão toma conta de vez e uma tristeza invade minha alma. Como assim, idoso? Sinto-me jovem demais para ser rotulado dessa forma. Idoso é o caralho, rumino. Então dou a partida e acelero em direção à farmácia mais próxima. Coloco pra tocar bem alto a música “Black Dog” do Led Zeppelin na tentativa de expurgar aquele sentimento incômodo e aí lembro que ela é de 1971 e que o grupo nem mais existe.  Então grito bem forte: foda-se!

 

Motorcycle-Rider

 

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