Lírico e assustador

Da mesma forma que temos imensa dificuldade em deixar de fazer analogias entre os atuais e os anteriores componentes da “Escolinha do Professor Raimundo” de Chico Anísio, também é bem complicado rever um espaço lírico de infância com o cenário da atualidade. Inevitável diante dessas situações em colocar o passado à frente do presente a começar do comandante da trupe, em que pese todo o talento do filho Mazzeo e passando por outros como o Peru e o Rolando Lero. É que a relação de empatia anterior, até pelos anos de visualizações, complica a analogia, correndo-se o risco de ceder ao nostálgico e até uma valorização, um sinal de imortalidade, de que não apenas os outros viveram, mas nós mesmos também a eles conectados.
Detenho-me diante do prédio da Secretaria de Cultura, o Ginásio Paranaense, que frequentei nos anos quarenta, e fico, abismado, a imaginar como cabiam ali todos os estudantes do médio e do científico ao clássico. Teríamos hoje nesse ciclo professores que já davam aulas na Federal como Rosário Farani Mansur Guérios, Metri Bacila, Olavo Del Claro, Homero de Barros, José Nicolau dos Santos, Ladislau Lachowski, Alcione de Castro Veloso, Portos Veloso, Vidal Vanhoni e mestres de latim como João Mazzarotto e Zavadski, José Carlos Figueiredo em geografia e história?
Eram profissionais do ensino, alguns com roupas cerzidas, raríssimos com automóveis, batalhando em mais de uma unidade escolar porque muitos, além da Universidade, a Federal era a única, lecionavam no Belmiro Cesar, Novo Ateneu, Colégio Iguaçu. O regente do Belmiro Cesar era o mestre Luis Cesar, professor de português, que andava sempre de preto e por isso apelidado de Corvo e que procurava incutir nos alunos o horror ao cacófato, som desagradável e não apenas quando forma palavras, lendo os textos e juntando as sílabas finais de um verbete às iniciais do próximo e testar o efeito produzido num condicionamento pavloviano.
Nada, porém, superava nos estudantes do que o temido gabinete do diretor, professor Francisco Gomes Ribeiro, educador à antiga e que confiava nas metáforas históricas e com finalidade pedagógica, tal qual fez quando saímos para empastelar um jornal e ele, de um automóvel, citando frases latinas, tentava nos convencer a determos a marcha. Éramos anjos da cara suja, lembro de uma passeata em data histórica, em que a banda do ginásio, diante do palanque das autoridades em pleno Estado Novo, ali bem à frente do Cine Ópera, resolveu tocar o ritmo da moda que era a conga com o pessoal do primeiro ao último escalão repetindo os passos em surpreendente harmonia.
E assim é também quando revejo sítios antigos como o rio Itiberê em Paranaguá, nossa praia no lugar em que os hidroaviões da Condor germânica amerrissavam, à vista da Ilha da Cotinga em que nasceu a cidade. Como o lamento de Drummond sobre os acidentes de Minas, um retrato na parede e como dói! Logo ele que profetizou em poema imortal o fim do rio Doce, hoje acelerado na tragédia de Mariana. E o nosso Belém de Curitiba, no qual Cassio Taniguchi e Jaime Lerner prometeram para mim, em cerimônia pública, o retorno dos lambaris de Mazzarabo vermelho refletidos nas crônicas de Dalton Trevisan, há bem pouco tempo recebendo a titica dos três poderes diretamente no Centro Cívico sob o silêncio suspeito dos ecologistas, muitos deles prestando consultoria à Sanepar. Nada me impede, porém, de repetir a toponímia do Barigui que nós mesmos criamos a um só tempo em que disputávamos frutinhas silvestres com os passarinhos e que apenas figuram em museus especializados onde perdem a graça como múmias de faraós porque para nós mais vale a São João que parece um balãozinho ou a amorinha de sapo do que Queops ou Ramsés.
A lembrança também é uma forma de viver e de ajustar-se ao presente inevitável, coexistência entre um drone, bolhas coloridas de sabão e um colibri no seu agito bailarino.

Deixe uma resposta