Música Erudita. Ed. 173

Arvo Pärt, o contemporâneo audível

 

A música erudita contemporânea na cabeça da maioria remete imediatamente para a música experimental dos anos 1950, 1960. E a reação comum é dizer “não gosto, não entendo, nada me diz”. A verdade é que os experimentalismos mais radicais são do gosto e do acervo dos próprios compositores, instrumentistas e estudiosos da música. Não foram feitos para agradar grandes plateias, porque são parte de um movimento que procura a desconstrução da linguagem estabelecida para que se crie alternativas.
O serialismo estabeleceu, nos inícios do século XX, a igualdade das doze notas musicais, abolindo toda hierarquia entre elas, ou pelo menos a hierarquia existente no sistema tonal, e tornou-se sinônimo de música inaudível. Depois de Schönberg, durante a década de 1950, o serialismo desenvolveu, com Boulez e outros, formas de planejar e controlar os demais elementos da composição, como o ritmo. Com isso, a expressão de aspectos subjetivos foi virtualmente deixada de lado pela maioria dos compositores da época, e surgiu um tipo de música que em casos extremos quase ameaçou escrever-se sozinha, de tão predeterminada e automática.
Mas o importante aqui é dizer que a música contemporânea é mais rica. Muito mais. Um exemplo disso é a música de Arvo Pärt, que desenvolveu uma linguagem musical própria, que não é a do serialismo, nem a da música aleatória, muito menos a da música eletrônica. A essa originalidade acrescenta-se outra: são muitas as obras de Pärt que possuem várias versões para instrumentações diferentes. “Fratres” é uma delas. Escrita originalmente em 1977 para quinteto de cordas e para quinteto de sopros, foi adaptada pelo compositor para diversas formações.
“Fratres” já foi apresentada em versão para octeto de sopros e percussão. De  início, volume baixíssimo, que aumenta com o decorrer da peça. Sobre uma base grave de apenas duas notas, que dura a obra inteira, os violinos desenham uma melodia de sabor que lembra o oriental e aspecto de canto religioso. Esta caminha gradativamente para o grave, enquanto a dinâmica passa aos poucos do suave para o forte, como uma música que começou distante e vai se aproximando de nós.
As duas notas graves sustentadas durante toda a composição recebem, em inglês, o nome de drone, palavra para a qual nem sempre se encontra uma boa equivalente em português – alguns a traduzem por “bordão”. Presente na música indiana mas também em orientes mais próximos (e na gaita de foles), o drone não aparece na música européia de concerto, ou na chamada música erudita, antes do século XX (salvo raras exceções). De fato, seu aparecimento nesse tipo de música se deve a influências orientais, sendo uma de suas
manifestações pioneiras o “Lousadzak” (1944) de Alan Hovhaness (1911-2000), compositor
americano de origem
armênia.
Pärt viveu esse cenário no começo de sua carreira, nos anos 1950-60; compôs algumas obras que utilizam o serialismo e também a colagem. Entre as colagens realizadas por Pärt destaca-se o uso do primeiro “Prelúdio do Cravo Bem Temperado”, de J. S. Bach, em sua obra “Credo”, de 1968. Essa peça, que encerra a fase vanguardista de Pärt, precedeu oito anos de silêncio composicional, nos quais Pärt nada compôs a não ser a sua “Terceira Sinfonia” e uma cantata que hoje desconsidera.
A mudança deu-se em 1976, depois de alguns anos de estudo do canto gregoriano e da música medieval e renascentista, caracterizada pela complexidade polifônica. Nesse ano, Für Alina, uma breve peça para piano solo, marcou o início de um estilo e de uma técnica cujas sementes foram adquiridas e lançadas ao longo daqueles anos em que Pärt nada compusera. Desta vez, Pärt emprega apenas a escala diatônica, ou seja, a escala das sete notas musicais (dó-ré-mi-fá-sol-lá-si), sem utilizar as alterações cromáticas que as levam às doze do serialismo.
A nova técnica de Pärt nos faz ouvir sempre uma melodia que se move pelas sete notas, ao mesmo tempo em que uma outra linha da música circula entre apenas três notas – as que formam uma tríade perfeita, isto é, o acorde situado no primeiro lugar da hierarquia tonal. Esse reduzido número de três notas, constante em uma das linhas da música, confere às obras um caráter de certa forma estático, mas equilibra a liberdade da linha melódica mais variada.
Desde 1977, as composições de Arvo Pärt são escritas com base nessa técnica, dentro da qual o compositor obtém resultados variados e muito expressivos para diversas finalidades, do leve júbilo do salmo “Cantate Domino Canticum Novum” (1977) até a profundidade dramática da “Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Segundo São João” (1982) e do “Kanon Pokajanen” (1989-97).

Arvo Pärt. Foto: Eric Marinitsch

Arvo Pärt. Foto: Eric Marinitsch

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