Insuportavelmente humana

Dilma Rousseff. Foto: Jose Cruz/ Agência Brasil

 

Parece ser consenso hoje no meio político que Dilma cai. Não se sabe ainda quando, se daqui a uma semana ou um mês, mas a chance de ela terminar o mandato nunca foi tão baixa. Há muitas explicações – algumas até paranoicas – para isso. Na minha opinião, porém, não há irmãos Koch ou Mossad na jogada. Só a irremediável pequenez de um indivíduo (ou indivíduA, como ela deve  preferir).

 

Dilma não cai apenas por causa das trapalhadas econômicas, nem tampouco pela roubalheira do partido ou pelos conchavos com gente de índole duvidosa. Dilma não cai só porque é extremamente incompetente em tudo o que faz. Dilma cai principalmente por ser insuportavelmente humana.

 

Ao dizer que somos insuportavelmente humanos, o poeta (que poeta?) quis ressaltar a beleza das nossas fragilidades morais, das nossas vaidades tolas, nossas aspirações sem sentido, nossa perversidade infantil, estas coisas. Mas nossos defeitos só podem ser dignos de admiração quando há um movimento íntimo para refreá-los. No caso de Dilma, o superego parece tê-la abandonado há tempos.

 

Todos sabem que a presidente que vocês elegeram não uma, mas duas vezes, é prepotente e arrogante (Daí a fama ridícula de “gerentona”). Corre à boca nem tão pequena assim que também é grosseira e mal-educada, e até verbalmente violenta. Pelos discursos, dá para ver que não é das mais instruídas nas belas-letras. Neste pacote doce, a teimosia vem de brinde.

 

Estas características somadas revelariam apenas uma pessoa demasiadamente humana (foi esta a expressão do poeta, embora eu ainda não saiba que poeta), não fosse um ingrediente fundamental: a pequenez espiritual que impede aquela senhora de contornar seus pecadilhos e defeitoides, de superá-los, de subjugá-los. E aqui não me refiro a uma espiritualidade necessariamente transcendental, metafísica, religiosa, divina; refiro-me a epifania cotidiana que nos enobrece a todos.

 

(Bom, quase todos).

 

Para que a história não se repita, isto é, para que não nos vejamos novamente “liderados” por seres demasiada, insuportável e imperdoavelmente humanos, incapazes de uma mera reflexão sobre a própria mortalidade, sobre a fragilidade da própria condição e sobre a temporalidade do poder, talvez esteja na hora de abrir concurso público para o cargo de Escravo de César da República, cuja função seria acompanhar o chefe do executivo por todos os cantos, sussurrando-lhe no ouvido: “Lembra-te que és mortal”.

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