A babá

(Foto: Reprodução/Facebook)

Ah, a babá. Eu não queria escrever sobre a babá. Meu Deus, como eu queria poder ignorar a babá! Mas não dá. Algo dentro de mim grita que não posso me calar. Sou uma voz minúscula, sei disso, mas ainda uma voz. Ainda. Então falemos sobre a babá. Por mais que a babá seja apenas pano de fundo desta história toda.

Para quem não sabe da história, um senhor e família foram ao protesto pelo impeachment do dia 13 de março levando consigo a babá. Negra. Usando uniforme branco. Empurrando um carrinho com duas crianças, alguns passos atrás. A imagem, muito comum em qualquer cidade brasileira, se transformou num símbolo do caráter perverso dos manifestantes anti-Dilma.  Antes fosse.

De nada adiantou o patrão da babá rebater as críticas dizendo que paga a funcionária em dia, com todos os direitos pressupostos por aquela excrescência que é a CLT. Não adiantou nem mesmo o argumento de que ser babá é um trabalho digno como outro qualquer. Não adiantou nada porque a desonestidade intelectual (e, por consequência, moral) leva as pessoas a compararem o trabalho da babá ao de um escravo.

Mas o que está por trás da exploração da imagem da babá não tem nada a ver com racismo ou exploração do trabalho, nem tampouco com subemprego ou luta de classes. O que está por trás da exploração da imagem da babá é uma das características mais abjetas do brasileiro, algo que se intensificou com o petismo: a falta de uma ética do trabalho.

Ética do trabalho não tem exatamente a ver com cumprir horários ou não roubar canetas do escritório. Eu resumiria toda a ética do trabalho numa afirmação simples: trabalhar é bom. Ou, para usar o velho ditado, “o trabalho enobrece o homem”.

Esse negócio de ética do trabalho nunca foi nosso forte. Histórica e culturalmente, digo. Nós admiramos grandes vagabundos que fizeram fortuna à custa do Estado. A gente adora um preguiçoso que ficou rico do nada e que passa a vida torrando o dinheiro. Por isso é que a gente (eu não!) se revolta ao ver uma babá trabalhando em pleno domingo, por mais que ela esteja sendo paga para isso.

Há toda uma geração que cresceu com ojeriza ao trabalho. Uma geração que não estuda nem trabalha, esperando “oportunidades melhores” – como se de repente fosse aparecer uma vaga de “provador de rede sob coqueiros na Bahia”. Uma geração que justifica a preguiça com a ideia de “trabalhar fazendo aquilo por que se é apaixonado”.

A babá, tenho certeza, vive com dificuldades. Provavelmente mora longe do emprego, pega ônibus ou trens sucateados, come mal, está sempre cansada, vive estressada porque sabe que não pode contar com a educação e saúde públicas e teme a violência. Mas também tenho certeza de que, ao chegar em casa, ela de alguma forma tem orgulho de se sujeitar à “maldição divina”, isto é, de ganhar a vida com o suor do próprio trabalho, de andar pelas próprias pernas e não depender da tutela do Estado-babá.

 

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