Enigmas morais

Outro dia, o New York Times propôs aos leitores um interessante enigma moral: se você pudesse entrar numa máquina do tempo e voltar à Áustria de maio de 1889, você mataria o bebê Hitler?

À primeira vista, a resposta parece óbvia. Hitler foi o responsável pela morte de seis milhões de judeus, fora os outros tantos milhões de inocentes mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Como não evitar isso? Como não matá-lo? O problema é que, de acordo com a pergunta proposta, Hitler ainda é um bebê. E alguém que mate um bebê (um ser que ainda não realizou todo o seu potencial destrutivo) só pode ser considerado um monstro.

Trata-se, obviamente, de uma variação do velho Dilema do Maquinista. Suponha que você está no comando de trem lotado, diante de uma bifurcação. Se você virar à esquerda, há um carro parado no trilho, com cinco pessoas presas dentro dele. O trem passará por cima do carro e matará todos. Mas à direita há nada menos do que um abismo. Todos os ocupantes do trem morrerão. O que você faz?

Em outras palavras: você faria o mal menor (matar um bebê, matar cinco pessoas) para evitar um mal maior (a morte de milhões de judeus, a morte de todos os passageiros do trem), pressupondo, assim, que existe valoração do mal?

Pensando nisso, resolvi propor um desafio moral à brasileira. Vamos supor que você possa voltar no tempo, para 1964, e seja capaz de impedir o famigerado Golpe Militar. Não sei como. Use a imaginação. O que você faria? Impediria o golpe, salvando milhares de pessoas da tortura, do assassinato estatal e do exílio, ou permitiria que a história seguisse outro rumo, isto é, que a esquerda instalasse aqui a tal da ditadura do proletariado?

Aqui também a resposta é aparentemente óbvia. Não é. Para muitos, as pretensões da esquerda de fundar uma ditadura do proletariado eram uma invenção da direita reacionária. Um delírio dos aquartelados, das velhas carolas, aquela coisa toda. Logo, o golpe de 64 não tinha nenhum sentido. Era o mal em si.

Por outro lado, examinando o que aconteceu e acontece em Cuba, as mortes provocadas pela Revolução Cultural chinesa, toda a podridão do regime soviético, a opulência das torneiras de ouro da Alemanha Oriental e, atualmente, o que acontece na América Latina, sobretudo na Venezuela, como ter certeza de que não viveríamos mesmo um regime totalitária de esquerda, com o potencial de matar milhões?

Ainda não encontrei uma resposta para nenhum destes dilemas éticos. Minhas respostas variam de um dia para o outro. Hoje eu mataria o bebê Hitler, atropelaria as cinco pessoas no carro e não evitaria o Golpe de 64. Hoje.

 

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