E se por exemplo chover, não vou

Mas o que quer dizer este poema? —
perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? — respondi triunfante.
Uma nuvem — disse ela — umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo.
– Mario Quintana

 

Sou curitibana e gosto de falar do tempo. Não sinto problema nessa conversa repetitiva. É um dos trunfos de quem nasce por aqui: muito calor, muito frio, muita chuva, a geada, e aquele vento, o aeroporto fechado, o céu azul, o formato das nuvens, a imprecisão do Instituto, a neve de 75.

Na sala da minha avó tinha uma casinha daquelas em que um homem e uma mulher se revezam na porta a depender da umidade; meu ex-marido tinha um barômetro e olhava pra ele como um velho pescador que precisava saber, e comentar, das mudanças atmosféricas; tiro prints da tela do Iphone de hora em hora para acompanhar de um jeito visual o que meu corpo percebe a cada segundo. A obsessão curitibana me acompanha, me sinto bem com ela.

Dia desses conversava com o amigo Fernando Rodrigues e ele me chamou a atenção sobre como a MPB também gosta do tema. Faça chuva ou faça sol, nossos compositores estão prontos para os fenômenos. Não há intempérie que cale nossa boa e velha música.

Tim Maia

Tim Maia. Foto: Divulgação

Para abrir a coluna deste mês, a voz de trovão de Tim Maia. Em 1970, depois de um rolê de seis anos pelos Estados Unidos e uma paquerinha com a Jovem Guarda, o síndico lançou o primeiro disco solo e ele chegou com interpretações definitivas que estão por aí até hoje, entre elas, “Primavera (vai chuva)”, de Cassiano e Sílvio Rochael. O movimento do planeta em volta do sol marca a eternidade do amor, a vontade de estar perto, a promessa do querer: “Quando o inverno chegar / Eu quero estar junto a ti / Pode o outono voltar / Que eu quero estar junto a ti”. Mas a composição não se firma apenas nos planos do futuro, fala um pouquinho, devagar, sobre o dia de hoje, o sentimento que se vive no presente e dá uma espantada numa zica qualquer que pode chegar como um banho de água fria, “vai chuva”: “É primavera, te amo, meu amor / Trago esta rosa / Para te dar […] Hoje o céu está tão lindo / Vai chuva”. Em ideia bem parecida, lá pelas tantas Beto Guedes e Ronaldo Bastos também passearam pelas estações do ano na belíssima “Amor de índio”: “No inverno te proteger, no verão sair pra pescar / No outono te conheçer, primavera poder gostar / No estio me derreter / Pra na chuva dançar e andar junto”.

Beto Guedes também cantou a primavera em sua “Sol de Primavera” e Braguinha lá em 1934 com “Primavera no Rio” e também Lyra e Vinícius naquele lance tão lindo e comovente de “É que eu gosto tanto dela / Que é capaz dela gostar de mim […]E a poesia só espera ver  / Nascer a primavera / Para não morrer”.

Com as folhas secas caídas de uma mangueira o outono chega e com ele outros cantos, como o de Djavan: “Sedução, frenesi / Sinto você assim, sensual, árvore / Espécie escolhida, pra ser a mão do ouro / O outono traduzir viver o esplendor em si”. Na mesma estação, Edu Lobo e sua “Balada de Outono”; Luiz Bonfá em “Canção de Outono”, o choro de Paulinho da Viola “Oração de Outono” e a “Outono” de Billy Blanco que conta um pouco até daquele ilusório veranico de maio que conhecemos bem: “Outono, sopra o vento, folhas mortas vão ao chão / Para se erguer em poeira que volta errante / Numa brisa de Verão”.

Quando a gente tá contente, tanto faz o quente, tanto faz o frio, cantou Gal Costa em 1974 no seu álbum “Cantar” (e lá também estava a “Flor de maracujá”, de Donato e Lysias Ênio: “Dia de sol, cheiro de flor / Gosto de mar, amor”), mas será que se o humor for bom a temperatura não importa? Frejat provou que sim: “Por você… / Eu tomaria banho gelado no inverno”. Adriana Calcanhotto também, mas nesse caso ao contrário, o sofrimento não permite muitas alternativas, se fosse verão, talvez ela estivesse igualmente infeliz: “De lá pra cá não sei / Caminho ao longo do canal / Faço longas cartas pra ninguém / E o inverno no Leblon é quase glacial” (Inverno, Adriana Calcanhotto e Antônio Cícero). Chico Buarque cantou em “Bye Bye Brasil” (em parceria com Menescal), para estampar filme de Cacá Diegues, as aventuras mambembes de um personagem para sua namorada, num jeitinho de relatar história, saudade, desculpa e garantir que a moça continue no aguardo, tudo ao mesmo tempo: “Assim que o inverno passar / Eu acho que vou te buscar / Aqui tá fazendo calor […] Capaz de cair um toró / Estou me sentindo tão só […]Eu vou dar um pulo em Manaus / Aqui tá quarenta e dois graus / O sol nunca mais vai se pôr”.

E a chuva, hein? O que chove na MPB não é brincadeira. Tem chuva de prata que cai sem parar; tem chuva que cai em março para fechar o verão; chuva que acompanha suor e cerveja; chuva que encharca o vestido branco da garota linda e muito tímida; chuva que molha o divino amor de alguém que é muito lindo, é mais que o infinito e é puro e belo; chuva que desaba numa roseira que só da rosa mas não cheira; chuva no brejo; chuvas de verão, que são como ressentimento, coisas do momento, que passam como o vento. Com a desculpa do trocadilho, a MPB é inundada por chuva, é água que não acaba mais. Uma das minhas preferidas é a criada por Durval Ferreira e Pedro Camargo e se me coubesse apenas uma indicação de audição acho, mas só acho, que faria esta. Prefiro a versão instrumental de Maurício Einhorn e Baden Powell, vai lá no YouTube e procura, é uma experiência sublime. Mas se você prefere música com letra, a Claudete Soares e o Dick Farney fizeram dueto nessa belezinha.

Duas chuvas que não podem ficar de fora desse rol são chamadas pelo mesmo nome: a primeira, na identidade: “Chove lá fora”, nascida em 1957, filha de Tito Madi, tem aquela surpresa das primeiras horas da Bossa Nova na harmonia, mas também traz a temática exagerada de antes: “A noite está tão fria / Chove lá fora, ora / E essa saudade enjoada não vai embora”. A segunda, tem “chove lá fora” como apelido, mas de nascença é “Me chama”, 1984, Lobão: “Chove lá fora e aqui faz tanto frio / Me dá vontade de saber / Aonde está você, me telefona / Me chama”. Sem querer me alongar muito neste parágrafo, mas já assim, é bom lembrar que os 27 anos que separam as duas composições sublinham um sofrimento igual, que infelizmente não se perde no tempo: a dificuldade de não saber o que o ser amado faz, por onde, com quem depois que vai embora da sua vida mas ainda permanece como desejo (Tito Madi cantou: “Só Deus pode entender como é infinda / A dor de não saber / Saber lá fora, onde estás, onde estás / Com quem estás agora, agora”, que é exatamente a mesma coisa da agonia de Lobão).

Dorival Caymmi. Foto: Divulgação

Dorival Caymmi. Foto: Divulgação

Agora, nada como Dorival Caymmi, em caso de chuva, uma preguicinha básica se instala, afinal, pra que enfrentar os elementos: “Se fizer bom tempo amanhã / Eu vou / Mas se por exemplo chover / Não vou / Uma chuvinha, redinha, cotinha / Aí, piorou / Nem tô, nem vou”.

Finda a tempestade, o sol nascerá e com ele outras tantas composições, com este nome, derivando dele ou só tratando de citá-lo. Não começo a relação porque o editor avisa que o espaço da coluna está bem pertinho do fim. Caracteres só para uma breve despedida. Não é antipatia ou falta de assunto, nem cansaço ou descaso, mas me despeço com as palavras de Alceu Valença, “não quero mais brincar de sol e chuva com você / não suporto mais brincar de sol e chuva com você”. Nos vemos mês que vem ou em edição extraordinária, não esqueça guarda-chuva, capa, óculos de sol e protetor. Bons ventos!

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