Mamonas, quem diria?

Em 1995, aos 17 anos, eu vivia o auge do pedantismo intelectual e, claro, torcia o nariz para o fenômeno Mamonas Assassinas. Meu negócio era cantar e discutir as músicas “controversas” de Chico Buarque & corja. Vinte anos mais tarde, contudo, aqui estou me rendendo ao rock incrivelmente anárquico daqueles meninos.

Não só pelas músicas, mas também. Anos mais tarde, o acidente horrível que os vitimou abriu uma cratera enorme na minha alma. Por algum desejo mórbido, resolvi pesquisar as tenebrosas fotos da catástrofe quando me deparei com o cacófato inevitável: uma mão. Apenas uma, ali no meio da mata, separada de qualquer possibilidade de corpo. E de alma. Nunca me recuperei daquilo.

Apesar da pouca idade, eu já tinha tomado porres de Nietzsche e Dostoievski, mas o niilismo não fez nem cócegas no meu espírito se comparado àquela mão decepada. Minha fé, sempre claudicante, acabou por se render à conclusão tão inevitável quanto precoce: somos de uma fragilidade nada divina, somos matéria, somos finitos e condenados ao apetite dos vermes.
Das músicas deliciosamente tolas restou apenas a conclusão de que mergulhamos em inequívocas trevas. Não é preciso ser muito inteligente para constatar que aqueles versos estúpidos que as crianças de duas décadas atrás entoavam hoje estariam sujeitos a manifestos e petições virtuais pedindo – com o perdão da imagem trocadilhesca – a cabeça da banda.

E também convém perguntar por que ralo escoou a verve irreverente do artista brasileiro. Os Mamonas Assassinas, conscientemente ou não, vinham de uma tradição satírica que remonta às marchinhas de carnaval e aos versos do menestrel Juca Chaves. Uma tradição esgotada, ou melhor, extinta. A “vulgaridade anárquica” daquele rock infantil desapareceu em meio à vulgaridade explícita dos complacentes e tolos sertanejo universitário e funk.

Os Mamonas, quem diria, fazem falta. Mais do que isso: a arte de insultar e se deixar ser insultado faz falta. Passados vinte anos, já livre do pedantismo donjuanesco de meus anos imberbes, ouso dizer que faria bem à cultura brasileira se deixássemos “A Banda” um pouco de lado para rirmos de um “Robocop Gay”.

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