Metáforas

Suponho que escrever este texto em primeira pessoa soará apenas como mais um texto intrigante e desprezível, assim como são todos os textos em primeira pessoa quando estão a falar de experiências e percepções próprias. Não tenho, porém, outra saída, aqui exponho mais uma opinião intrigante e desprezível, que se escancara como una, superior e verdadeira. Não que não seja, afinal é uma opinião, e opiniões, quando não usamos de má-fé, são sempre verdadeiras, corretas e inquestionáveis.

Dito isso caminharei egocêntrico.

Manifestações da massa sempre me assustaram, quando um sujeito se sujeita a deixar sua subjetividade de lado para compor um grupo está a privar-se da única coisa que é sua: sua liberdade de ser, sua contingência de ser. Paradoxalmente quando escolhe isso, exerce da maneira mais genuína sua liberdade, abdica da sua liberdade pelo grupo, permanece nele porque exerce sua liberdade de estar, mas quando está torna-se refém do coletivo. O que não quer dizer que o coletivo é ruim; ruim é abdicar de sua liberdade, seja pelo coletivo ou não.

Umas pessoas julgam-se mais livres que outras, e aqui liberdade se manifesta em vários contextos: intelectual, social, cultural etc. E se julgar mais livre que alguém é uma suposição pretensiosa, arrogante, assim como os textos em primeira pessoa. O que é de difícil compreensão é que não há sujeito mais ou menos livre, a única prisão de todas as subjetividades é a liberdade. Todos se equalizam na liberdade. Assim nivelados, os sujeitos passam a se diferenciar por diversos fatores, alguns contingentes outros não.

No atual momento o que anda a diferenciar uns de outros é a posição política. Uma classe medíocre que bate panelas lavadas pela classe miserável. E aqui voltamos ao assustador momento da massa, onde medíocres e miseráveis perdem a subjetividade pelo pertencimento do grupo. Logo, incompreensível torna-se o ato da classe medíocre – esta que é abastada financeira, intelectual e culturalmente (é o que dizem, mas eu duvido) – pegar as panelas lavadas pela classe miserável e batê-las em sinônimo de indignação e protesto e depois largá-las na pia para que a classe miserável limpe toda a poeira da corrupção que naquelas panelas se instalaram. Pode não ser, mas me soa contraditório alguém querer varrer a sujeira do país sendo que não limpa nem as próprias panelas. A questão posta não é o medíocre em detrimento do miserável, as injustiças ou mazelas sociais que assolam a humanidade, com raras exceções escandinavas, coloco apenas a incoerência de uma massa que quer se livrar de um governo, mas que suprime a própria subjetividade. E por outro lado uma massa que quer defender um governo e suprime da mesma maneira a própria subjetividade.

A liberdade individual foi deixada a margem para favorecer, como diz a poesia nórdica arcaica, a “teia de homens”, metáfora para batalha. Vivemos uma conjuntura que sujeitos se entrelaçam em lanças a ferir o que há de mais genuíno no ser. E medíocres e miseráveis compõem esta teia que prende e que mata.

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