O Ópera Rio

Uma coisa é o Operário, a sociedade beneficente famosa, com participação histórica nas ações obreiras: outra o Ópera Rio, a designação simulada, eufemística, de maridos, amantes e noivos para referir-se com um nome tão pomposo a um lugar clandestino. Um mimetismo clássico dos curitibanos: o sujeito ia aos bailes do Curitibano, Circulo Militar, Thalia no carnaval e não perdia, de jeito nenhum, os arrasta-pés do Operário, ao qual se referia em código e com os cuidados especiais como Ópera Rio mormente para ver o desfile dos enxutos, gala gay.

Como a Flama Filmes do Sibut, presidente da Thalia, mostrava, logo depois do carnaval, a força dos salões era inevitável de as mulheres, por verem tudo e às vezes ao próprio marido ou os conhecidos da roda, em reportagens cinematográficas, se acharem no direito de curtir aquele mundo estranho, interditado à burguesia luminosa e às pessoas de bem. Não houve nenhuma ruptura como a das sufragistas inglesas ou das americanas que lançavam os sutiãs na rua, tudo veio normalmente, só que para evitar constrangimentos e acautelar pudores, elas iam de máscara para a suposta orgia.

Houve um caso de um gerente de jornal que simulou uma pescaria em Camboriú com um amigo e se mandou de jipe não à praia, mas diretamente ao Alto São Francisco para o baile dos enxutos. Terminada a simulação praieira ele e a mulher foram ao Cine Ópera e chegaram antes da sessão para ver o jornal cinematográfico que a abria justamente com um documentário sobre o carnaval de salão. Pois de repente, não mais que de repente, aparece num balcão do Ópera Rio o gerente que descuidadamente tirava a máscara e se divertia com alegre mulata. Reação imediata: a mulher cravou as unhas no marido e saíram às presas do cinema para indesviável arranca-rabo doméstico.

O Ópera Rio criava situações teatrais com a excitação das mulheres escondidas nas máscaras tirando sarro das suas amigas, cujos maridos eram vistos às vezes em idílios com meretrizes, mas também com rapazes, o que na época nada tinha de politicamente normal. Uma delas foi de lascar: o casal, ela escondida em cobertura integral do rosto, se aproxima de amigo comum que está com uma diva gordíssima e levemente de porre. Este, vendo que o companheiro estava com uma mulher bonita, alegando que eles têm esse trato de honra, de trocar parceiras, foi se atracando na cintura de vespa da mulher que, irritada com a revelação, fingiu ou quis aceitar a troca só pra desafiar o cara-metade.

Outra foi a de uma disputa final de travecos, o que ficou com a medalha de prata não se conformava e liberando a calcinha, em ato de revolta, fazia girar um pênis enorme como um ventilador. Boa parte das mulheres saiu do Ópera Rio com a certeza de que a partir daquele momento achavam seus respectivos maridos, noivos e amantes, ao menos pelo tamanho da peça, deficientes em matéria de bilau, revelação traumática.

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