O salvador da vez?

O Brasil era uma selva pouco explorada e sujeita a invasões estrangeiras quando D. Sebastião fez a besteira de morrer na batalha de Alcácer-Quibir, contra os mouros. Era remoto ano de 1578. A morte do monarca não apenas deu início a um movimento messiânico mais tarde chamado de sebastianismo; ela acabou por dar origem a uma forma muito brasileira de pensar o presente e o futuro político de uma nação, o Brasil.

Explícita ou implicitamente, o sebastianismo foi um dos marcos da história brasileira desde a queda do Império (de Antônio Conselheiro a Lula). E não há nenhum motivo para pensar que esta “tendência psicossocial” tenha perdido a força. Com a possível queda de Dilma Rousseff (até o fechamento deste texto ela continua firmemente agarrada ao osso), o salvador da vez ironicamente tem o messianismo até no nome: Jair Messias Bolsonaro.

Bolsonaro nunca foi tão popular. Uma sondagem do instituto Paraná Pesquisas realizada logo depois das manifestações de 13 de março de 2016 aponta que o deputado do PSC é o presidenciável preferido de 16% dos entrevistados. Mais incrível ainda é o baixíssimo índice de rejeição, ainda mais para um personagem inegavelmente autoritário: 3,2%.

Claro que estes são números colhidos no calor do momento, em meio ao caos. Mas a popularidade do ex-militar não é algo que se possa desprezar. O problema é que, para chegar ao Palácio do Planalto, o deputado que se orgulha da firmeza de seu pulso teria de lidar com algumas contradições graves em sua carreira política.

O Jair Bolsonaro que hoje em dia aparece em cima de trios elétricos chutando um boneco que representa o ex-presidente Lula como presidiário paradoxalmente fez parte da base aliada dos governos do PT de 2005 a 2016 – isso mesmo, inclusive durante o julgamento do Mensalão, Bolsonaro votou com o Partido dos Trabalhadores.

Eleito com quase meio milhão de votos pelo partido mais enrolado nas investigações da Lava Jato, o PP, Bolsonaro passou a última década votando a favor do governo que tanto condena, andando de mãos dadas com seus inimigos ideológicos, da deputada Maria do Rosário (PT-RS) a Jean Wyllys (PSOL-RJ).

A contradição só foi resolvida recentemente, em março, com a chamada “janela partidária”, que permitiu que Bolsonaro saísse de um partido da base aliada do governo e fosse para o PSC – o conservadoríssimo partido que, juntamente como PRB, forma a chamada “bancada evangélica”.

Mais graves do que meros arranjos partidários parecem ser as contradições ideológicas que estão na essência deste político de 61 anos. O ideário de Jair Bolsonaro é uma mistura de liberalismo econômico, religiosidade e autoritarismo. Se por um lado ele quer abrir a economia e diminuir o tamanho do Estado, por outro quer que este mesmo Estado se intrometa em questões individuais como o homossexualismo. D. Sebastião parece ter tomado sol demais na batalha contra os mouros.

A cartilha ideológica de Bolsonaro pode parecer confusa, mas eleitoralmente faz sentido. Ao defender uma maior abertura econômica ao mesmo tempo em que defende aberrações como pena de morte, Bolsonaro acaba por atrair parte da população disposta a abrir mão de alguns princípios em troca de alguma ordem em meio ao caos. Há liberais que dizem tolerar um pouco de autoritarismo em nome da prosperidade econômica, ao mesmo tempo em que há fundamentalistas religiosos dispostos a apoiar medidas economicamente liberais em nome de um pulso moralmente firme.

A verdade é que Jair Messias Bolsonaro se alimenta destas contradições, controvérsias e polêmicas. Numa época em que reina o discurso politicamente correto, Bolsonaro parece não ter muita vergonha de dar a cara a tapa. E as pessoas gostam disso. É um fenômeno do nosso tempo, e não só no Brasil. Não é à toa que Donald Trump esteja fazendo tanto barulho nas eleições norte-americanas.

Desde a década de 1980 Bolsonaro tira proveito político das polêmicas em que se envolve – uma “arte” que aperfeiçoou ao longo destes 30 anos. Ele surgiu politicamente em 1987, depois de entrar em confronto direto com o ministro Leônidas Pires Gonçalves ao pedir aumento no soldo dos militares. Na época, Bolsonaro foi acusado de ser mentor da Operação Beco Sem Saída, que pretendia colocar bombas de pouco poder ofensivo nos banheiros dos quarteis, a fim de assustar o governo.

A traquinagem que muitos consideram um verdadeiro ato terrorista levou Bolsonaro ao parlamento, de onde ele nunca mais saiu. Mas onde também tem sido extremamente improdutivo. Em vinte e cinco anos de atuação parlamentar, Bolsonaro teve apenas um (UM!) projeto aprovado – a emenda constitucional que obriga as urnas eleitorais a emitirem uma espécie de “recibo” do voto.

Jair Bolsonaro será o novo salvador da Pátria? Ele tem fôlego e cacife político para tanto? Em meio à confusão política instalada no país com a ruína do projeto petista, ainda é difícil saber. Há quem acredite que o caos só o favorece; mas ainda faltam dois anos para as eleições, e até lá Bolsonaro pode cometer gafes maiores e politicamente mais prejudiciais do que simplesmente dizer que usuários de maconha têm de apanhar e que a fosfoetanolamina tem mesmo eficácia contra o câncer.

Já que ofídios estão na moda, resta saber: do caos será gerado mais este ovo de serpente?

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