Os extremos não contêm a verdade

Essa afirmativa de Buda encaixa-se perfeitamente a uma questão que vem sendo discutida ultimamente no meio acadêmico, qual seja: trabalhar pouco pode ser tão prejudicial quanto trabalhar demais.

Num primeiro momento causou-me certa estranheza essa afirmação, porém vendo a seriedade dos estudos publicados na Experimental Brain Research, conceituada revista ligada a estudos da neurociência, com certeza temos que parar e fazer uma reflexão a esse respeito.

Para uma melhor ordenação, creio que a conceituação do que é trabalhar demais, ou o que é trabalhar pouco, se faz imprescindível.
Existem pessoas que trabalham 12 horas por dia e sentem-se motivadas a trabalhar mais. Por outro lado, temos pessoas que trabalham 6 horas por dia e não suportariam nem um minuto a mais.

Que variáveis então devem existir que fazem uns quererem trabalhar a mais e outros a menos? Tipos de trabalho?Remuneração? Ambiente? Reconhecimento?
Sem dúvidas, são fatores que à primeira vista seriam os determinantes. Mas, o que acontece então, com uma pessoa que tem um bom emprego, uma boa remuneração, um bom ambiente de trabalho e mesmo assim não está satisfeita e deseja trabalhar menos, ou ainda pior, não deseja nem estar trabalhando ali? A resposta é: frustração. Que leva ao tédio. Cuidado ao taxar essas pessoas como preguiçosas, pois James Danckert, professor de neurociências da Universidade de Waterloo, em Ontário, no Canadá, em um de seus estudos, mostra-nos que o tédio não está associado à preguiça, mas sim à profunda incapacidade de se envolver com o ambiente. E por que isso ocorreria? Muito provavelmente, e essa é minha conclusão, por não estar fazendo aquilo que realmente gostaria.

Já vi frustrações com o trabalho de garis a médicos. Exemplo vivo, o filho de um colega meu, médico, que tendo feito medicina por imposição do pai, após formar-se deu a ele o diploma de presente e disse: “Agora vou fazer o que realmente gosto,vou ser músico.”
Trabalhar é uma necessidade. Naquilo que se gosta, uma dádiva!

Parece-nos que a questão é: estar feliz ou frustrado com o que se faz. Estando feliz, 12 horas é pouco, no entanto estando frustrado, 6 horas é uma eternidade.

Vejamos sob a ótica comportamental pura dos extremistas, independente de seus trabalhos ou satisfações pessoais de resultados. Numa ponta os “workaholics”, sem férias, sem tempo para lazer, refeições incompletas, vida social e familiar prejudicadas. Na outra ponta, pessoas com pouco trabalho, entediadas por isso, sem ânimo até para as férias, sendo que sequer as desejam, desmotivadas para o lazer, inapetentes apesar de terem tempo para as refeições, vida social e familiar possível, mas não aproveitadas.

Podemos concluir que o trabalho é uma questão em que o excesso ou a falta são prejudiciais, e como tudo na vida o meio termo é que está ligado à boa saúde.
Finalizando, parafrasearemos Buda novamente, “A justa medida é o caminho do meio. A verdade está contida entre os extremos e não neles”.

Deixe uma resposta