Vargas e o panelaço

“O que fascina na história do Getúlio Vargas são as contradições, ambivalências, o lado controverso”

 

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Lira Neto. Foto: Divulgação

Lira Neto, jornalista e escritor, biógrafo de personagens ilustres da vida brasileira – Maysa, Padre Cícero, Castello Branco – mas seu trabalho que requereu mais fôlego, sem dúvida, é a trilogia de Getúlio Vargas, o presidente mítico, controverso como todo grande mito, mas que marcou de forma indelével a história e o imaginário popular. São 1.651 páginas distribuídas em três volumes, editados pela Companhia das Letras, que acompanham Vargas desde 1882 até o suicídio em 1954.

Lira Neto esteve em Curitiba no final de fevereiro para um colóquio com estudantes, professores e convidados e antes de sua palestra conversou com Ideias e, claro, falou sobre Vargas, mas demonstrou extrema preocupação com o atual momento político do país. “Percebo que a bandeira do moralismo sempre teve muito o eco da classe média brasileira. Foi assim em 1950, 1954 com Getúlio, foi assim em 1960, que foi o pretexto para que os militares tomassem o poder e não o largassem durante 20 anos”, analisa.

Sobre Vargas, apesar de totalmente avesso à política e ao rame-rame do Congresso Nacional, o gaúcho era um hábil negociador, o que se prova em cartas, documentos, testemunhos e entrevistas, os quais Lira Neto se debruçou para trazer o perfil desse brasileiro incomum. “A política é arte da negociação. E na arte da negociação ninguém melhor que o Getúlio para fazer isso. Ele foi um negociador nato em toda sua trajetória. Agora, o curioso é que o Getúlio que passou para a história como um grande semeador de consenso. Eu vou usar um chavão: como uma grande ‘raposa política’, Getúlio era um sujeito que tinha certa aversão para a vida política cotidiana, apesar de ser muito hábil”.

“Hoje a gente vive uma impossibilidade do diálogo. Para mim, o símbolo desta impossibilidade é o panelaço. Se eu estou falando para você e você bate panela, significa que você não está nem aí para o que eu vou dizer. Para mim, o panelaço é o símbolo dos tempos de hoje, infelizmente”, volta-se Lira a analisar a atual conjuntura.

 

“Vargas foi um homem que modernizou a administração pública, instituiu concursos públicos, modernizou a burocracia estatal, institui a legislação trabalhista. Todas estas conquistas são legados inegáveis da chamada Era Vargas”

 

Na juventude de Vargas, o que me surpreendeu foi o fato que ele lia vários autores. Na trajetória dele, o quão importante foi a literatura?
Quando a gente imagina a figura pública do Getúlio, sempre temos a ideia, meio cristalizada na memória popular, daquele velhinho bonachão, sorridente, fumando charuto e boa parte da população desconhece esta parte. O primeiro volume da trilogia tem o objetivo de apresentar ao leitor este Getúlio menos conhecido, que é exatamente o período de formação ideológica, política e cultural.

É aí que você vai perceber o Getúlio dos tempos da faculdade de direito, um compulsivo leitor com autores de predileção na área de filosofia, um leitor de Nietzsche, na literatura, Zola (que lia bastante). Isso fica evidente na própria concepção deste primeiro Getúlio. Vamos dizer assim: ele quando era líder de turma na faculdade de direito, fez um discurso notadamente calçado nas teorias de Nietzsche. Um discurso que inclusive, fez questão de esconder, deixando guardado num arquivo que impediu durante muitos anos que as pessoas tivessem acesso a este trecho.

Naquele momento, Getúlio, acadêmico de direito, era um anticlerical radical e ecoando as teses de Nietzsche, ele chega a dizer que a humanidade tinha sido bloqueada em seu desenvolvimento cultural durante milênios ou séculos e que uma religião que prega humanidade como valor, é uma religião que formaria, segundo ele, homens fracos.

 

Na passagem do primeiro para o segundo volume, tenho a impressão que se cristaliza a tese de que o político brasileiro, de forma geral, se conduz mais pelas circunstâncias do que por suas convicções?
A política é a arte das negociações e na arte da negociação ninguém melhor que o Getúlio para fazer isso.  Ele foi um negociador nato em toda sua trajetória. Agora, o curioso é que o Getúlio passou para a história como um grande semeador de consenso. Eu vou usar um chavão: como uma grande “raposa política”. Ele era um sujeito que tinha certa aversão para a vida política cotidiana, apesar de ser muito hábil.
E deixa muito claro nas suas cartas e nos seus escritos íntimos, que preferia governar sem política. Para ele a política era um fardo. Temos que entender isso ainda no seu processo de formação. Vargas veio do Rio Grande do Sul em um momento que a política gaúcha estava absolutamente absorvida pela ideologia positivista. Os positivistas tinham a necessidade de um líder sábio e que conduzisse as massas ao seu destino, já que as massas não teriam capacidade de se autogerir e produzir seu próprio futuro.

 

“O episódio da Olga Benário é mais um destes crimes que o Estado Novo cometeu”

 

Vargas chega ao poder em pleno avanço do fascismo, nazismo… E vem contrapor esta suposta falência da democracia…
Tem-se o oposto à democracia, que é a ditadura. Naquele momento começam a surgir as tentativas de antídoto a esta suposta falência da democracia. Que antídotos são estes? O contrário da democracia, governos fortes, unipessoais, aonde o legislativo não tem poder, o poder é o executivo, líderes carismáticos que comandam grandes massas. Este cenário mundial se junta com a sua formação política.

Getúlio chega ao poder em 1930 e o que está acontecendo no universo da política mundial neste mesmo momento? Os EUA estavam em crescente depressão. Por serem o símbolo da democracia, quando entram em grande depressão, sinalizou-se para o mundo que a democracia não tinha dado certo. Havia fila de desemprego, executivos vendendo maçãs nas esquinas. Este modelo não tinha dado certo. A democracia não deu certo.

 

Mesmo com um governo autoritário, forte e personalista, pode-se dizer, por mais contrassenso que seja, que Vargas modernizou o Estado?
Sem dúvidas. O que me fascina na história do Getúlio Vargas são as contradições, ambivalências, o lado controverso. Umas das maiores controvérsias, e os três volumes servem para mostrar isso, é de que ao mesmo tempo em que Getúlio foi este homem que impôs uma das piores ditaduras ao país, sendo tão nociva e nefasta quanto a ditadura que viria a partir do regime militar em 1964. As duas institucionalizaram a tortura como método de interrogação, as duas cercearam os direitos civis, as duas cercearam o Legislativo, as duas cercearam o Judiciário. E ao mesmo tempo em que ele foi tudo isso, ele também foi um homem que modernizou a administração pública, instituiu concursos públicos, tentando tirar o apadrinhamento, modernizou a burocracia estatal, instituindo uma coisa que para a época era modernista, a legislação trabalhista (consolidação das leis do trabalho). Todas estas conquistas são legados inegáveis da chamada “Era Vargas”.

O que se pergunta é se essas mesmas conquistas não poderiam ser implantadas em um ambiente sem o que Getúlio impôs. A resposta é não. Mesmo porque naquele momento da República, a gente não poderia dizer que vivia em uma democracia. Nas eleições, nem 5% da população ia às urnas, e mesmo os 5% que iam, eram para eleições com voto aberto, as pessoas estavam nas listas. Ou seja, havia uma fraude escancarada e a Revolução de 30 chega com seus pretextos de acabar com a fraude eleitoral do país.

 

É possível fazer um paralelo entre o populismo do Getúlio e o populismo atual? E qual é o legado que o populismo deixou?
Assim como o Bresser Pereira, tenho certa dificuldade de engolir toda a carga pejorativa que se colocou em cima do termo populismo. Qualquer tipo de política que beneficie, vise beneficiar ou que pelo menos mantenha como alvo prioritário os grandes conglomerados, o grande capital ou uma política liberal no sentido clássico, uma política em que não pregue o Estado mínimo, mas um Estado gestor passou a ser chamado de forma muito reducionista, populismo. Ou seja, qualquer governo que tenha uma penetração maior com as massas, começa a receber a pecha de populismo. Eu acho isso muito simplista e acho que é desprezar a complexidade do fenômeno. Então, é claro que Getúlio deixou um legado que a gente hoje consegue identificar quais são os setores mais ou menos alinhados neste legado.

É interessante notar também, isso é mais um acontecimento fascinante do Getúlio, que naquele primeiro momento em que assumiu o poder, ele estava se alinhando a um aspecto político que hoje a gente chamaria de extrema direita. Inclusive tem uma frase, que eu reproduzo no meu livro, em que ele deu em uma entrevista a um jornal gaúcho, quando é indagado de quem era a grande inspiração política: “eu me inspiro na renovação criadora de Benito Mussolini”, ou seja, o fascismo. Naquele momento o fascismo era um dos possíveis antídotos para a falência democrática. Então naquele momento já estava tudo alinhando com o que nós hoje conhecemos como direita.

Quando ele cai, depois da queda do Estado Novo e retorna nas eleições de 1950, assumindo em 1951, o mapa da geopolítica mundial estava em outro ponto, porque depois da Guerra Mundial, se instala a Guerra Fria. Então os EUA passam a ser o grande condutor do mundo ocidental e há como ponto oposto da balança, a União Soviética. Neste cenário, quem defendia o Estado gestor já não era mais de direita, era de esquerda. Então o Getúlio passa a se identificar e dizer em seus discursos de campanha, de uma forma socialista, passa a se dizer socialista.

No terceiro volume tem um discurso em que ele prega a necessidade de instauração do socialismo porque, ao contrário dos americanos que diziam sobre Estado mínimo, ele queria um Estado máximo. Todo o projeto nacional e desenvolvimentista é nesta premissa do país precisar, para sair de seu estado de país agrário, subdesenvolvido e para competir no mercado internacional, ele precisava que o Estado tomasse algumas responsabilidades e algumas missões. Entre elas, a exploração do petróleo, que é a bandeira central, ou seja, o monopólio do petróleo com a criação de uma empresa, a Petrobras, que teria o monopólio estatal sobre a exploração deste produto estratégico.

 

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Lira Neto. Foto: Divulgação

Vargas e o STF foram responsáveis pela deportação de Olga Benário?
O episódio da Olga Benário é mais um destes crimes que o Estado Novo cometeu. No meu livro reproduzo a carta que foi endereçada a dona Darci Vargas, pedindo que Olga fosse libertada e comunicando que ela estava grávida e que se não fosse libertada iria para um campo de concentração. Os getulistas mais fanáticos e mais devotos disseram ”mas nesta época ainda não se sabia da existência dos campos de concentração”. Uma grande falácia. A legislação antijudaica já estava em pleno vigor na Alemanha desde os anos 1930. Desde a ascensão do nazismo, já começava ser imposta com a proibição dos casamentos inter-raciais e havia um conhecimento claro de que Olga teria um destino trágico.

Então não tem como passar a limpo esta história. Este realmente foi um dos pecados. E o Getúlio comentava na época de que ela era uma espiã comunista e que naquela época o Brasil estava vivendo uma guerra contra o comunismo desde o momento em que o Prestes fez em 1935 aquele movimento fracassado e que inclusive deu a justificativa para que Getúlio instaurasse mais um golpe, o do Estado Novo. É um episódio lamentável e realmente Vargas tem culpa no cartório e no STF também.

 

A história brasileira precisa ser mais contada com dados cruzados, conteúdos, informações. Na minha época era aquela coisa decorativa com data, personagens e pronto. Como você avalia agora, há mais interesse?
Eu vejo isso com um olhar muito otimista. Percebo que hoje há um interesse cada vez maior e crescente de, não digo a maioria da população brasileira, infelizmente ainda vive na fase do analfabetismo funcional e político muito grande, mas cada vez há mais interesse das pessoas apostando na popularização ou na democratização do conhecimento da divulgação científica histórica. Vejo colegas que têm trabalhos que eu respeito. Não vejo com um olhar severo e crítico como todo mundo conta. Eu acho que Laurentino Gomes tem um mérito extraordinário que é de fazer com que pessoas que aparentemente não teriam nenhum interesse nos livros de história tenham uma porta de entrada, para depois buscar livros mais elaborados, profundos e densos.

Em qualquer banca de revista, você encontra pelo menos quatro revistas com título de história, uma delas infelizmente passando por uma crise muito grande, que é a revista História da Biblioteca Nacional, mas você tem a História Viva, Aventuras da História, ou seja, existe um público com conhecimento histórico e durante muito tempo isso nos foi negado.

 

“Para mim, o panelaço é o símbolo dos tempos de hoje, infelizmente. Hoje as pessoas se resumem a rotular as outras. Se eu não concordo com você, eu sou petralha ou coxinha”

 

Vejo que estamos vivendo um tempo de moralismo sem precedentes em relação a todos estes casos de corrupção. Vivemos uma época de udenismo moralista novamente?
Eu acho que a gente tem que ter cuidado com algumas coisas. Uma delas é olhar uma época com olhos de outra. Os historiadores dão o nome de anacronismo para isso, ou seja, você tentar representar uma determinada realidade a partir dos olhares contemporâneos.

Por outro lado, é irresistível fazer algumas analogias. Se eu tivesse que fazer algum vínculo entre o que aconteceu ali na crise de 1954, que encadeou o suicídio do Getúlio, e os dias que correm hoje, eu diria que, lamentavelmente, estamos vivendo novamente um momento de polarização e radicalização política, que sempre é nefasta. A polarização leva ao irracionalismo e ao empobrecimento do debate. Basta você, não precisa ir para as redes sociais, abrir um jornal, uma revista semanal você vai perceber que o mesmo nível rasteiro do debate que se dá nas redes sociais, se dá também na grande imprensa. Uma coisa realimenta a outra.

Eu percebo que a bandeira do moralismo sempre teve muito o eco da classe média brasileira. Foi assim em 1950, 1954 com Getúlio, foi assim em 1960, que foi o pretexto para que os militares tomassem o poder e não largassem durante 20 anos. E a gente percebe que há um pedigree, vamos dizer assim, de capitalizar essa insatisfação pública, principalmente localizada na classe média em prol de determinados retrocessos. Não que essa indignação não seja fundamentada, essa indignação tem fundamento. É claro que no momento em que se vive hoje, que temos que apurar tudo. As pessoas que prevaricaram, corromperam são pessoas que têm que responder por seus atos.

Agora, o que não pode acontecer é que o nome disso caia em dois pecados históricos. Primeiro o do moralismo seletivo, ou seja, você aponta um dardo para um lado e não aponta para o outro. Você execra um lado e protege o outro. Alguns escândalos são mais engavetáveis que outros. Isso é um problema claro. Não é preciso ser um expert em análise de discurso para saber que há um pêndulo pesando mais para um lado que para o outro. E que determinados escândalos são cobertos e outros escândalos tão graves, são absolutamente passados em branco. Este moralismo seletivo é uma questão grave.

O segundo é que em nome do combate justo ao que está errado, se retroceda décadas em conquistas sociais ao país. Quando você percebe que políticas compensatórias e transferência de renda começam ser satanizadas porque são associadas a um determinado projeto político. Aí, há um problema grave de perceber determinadas conquistas históricas como a inserção social de camadas mais pobres da população que viviam na mais extrema penúria e abandono. Essas pessoas podem regredir a um estágio anterior ao que estas conquistas levaram.

Tendo uma última analogia em relação às duas épocas, felizmente há uma grande diferença. Hoje você não tem aquele açodamento dos militares para derrubar o Getúlio do poder. Isso tomou um poder porque o impacto do suicídio do Getúlio foi tão grande que eles não tinham condições políticas objetivas de assumir naquele momento. Outra das grandes diferenças, os soldados estão nos quartéis e estão conscientes de seu papel constitucional que é de continuar no quartel, defender a fronteira e agir no caso de guerra. Isso é o papel do Exército. Eu dou gargalhadas quando escuto pessoas defendendo a volta dos militares, isso é de um desconhecimento histórico e de uma estupidez abominável.

A outra grande diferença é que hoje não temos, felizmente, um sujeito como Carlos Lacerda. Ele foi um grande mau-caráter, um dos maiores, da história brasileira, mas tinha uma coisa, ele era brilhante. Ele tinha uma oratória, você detesta o cara, mas quando se escuta as gravações dele, você se sente seduzido por aquele verbo inflamado, por aquele moralismo. Hoje está cheio de “sub-Lacerdas”. Nenhum com o brilhantismo do Lacerda. Às vezes tem mais mau-caráter do que brilhantismo.

Então eu acho que estas diferenças são definidoras, mas se você me pergunta o que vai acontecer amanhã, eu não sei te dizer. Ninguém em sã consciência pode dizer o que vai acontecer no país nas próximas horas. Nós vivemos em um momento de absoluta perplexidade. De um lado temos um imenso desencanto por um projeto político de poder que parecia ser uma correção de rumos e de mudar determinadas práticas políticas, mas que acabou se contaminando pela busca da manutenção deste poder. Isso é grave e absolutamente frustrante. Mas de outro lado, você tem uma oposição que partiu para o tudo ou nada, que partiu para o irracionalismo e apelou para o irracionalismo coletivo.

Hoje a gente vive uma impossibilidade do diálogo. Para mim, o símbolo desta impossibilidade é o panelaço. Se eu estou falando para você e você bate panela, significa que você não está nem aí para o que eu vou dizer. Para mim, o panelaço é o símbolo dos tempos de hoje, infelizmente. Hoje as pessoas se resumem a rotular as outras. Se eu não concordo com você sou petralha ou coxinha. Então não tem nenhuma possibilidade de a gente sentar, conversar, trocar argumento e chegar a um consenso mínimo.

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