A burocracia que emperra a vida

Quando eu era menina, a cidade não era tão grande nem o mundo tão pequeno. A vizinha da minha mãe, Dona Albertina, quando ia visitar parentes que moravam no São Braz, saía numa sexta-feira à tarde e passava o final de semana lá, para voltar no domingo à noite para sua casa na Vila Guaíra. Os dois bairros eram tão distantes que não se tornava viável uma visita para um chá, conversas e só. Mais prático arrumar uma trouxinha de roupas e enfrentar a longa viagem. Naquela época, fazer um interurbano e falar com minha tia que morava em São Paulo também não era fácil, a telefonista ajudava, o preço era caro, a ligação ruim. Viajar para o exterior? Quase tão difícil quanto na época de Cabral.

Hoje, um clique e todo mundo está ligado. Um avião, passagem em parcelas, e em algumas horas cruzamos o oceano. A Ucrânia ficou logo ali. Entre a Vila Guaíra e o São Braz há uma série de possibilidades de trajetos, carro ou ônibus e há também a possibilidade de comunicação não presencial.

A cidade cresceu, o mundo encolheu, os tempos são outros.
A Curitiba de minha infância querida que os anos não trazem mais tinha, em 1970, pouco mais de 640 mil habitantes. Hoje pulamos para quase 1,8 milhão e se contarmos o que nos rodeia, toda a região metropolitana, mais de 3 milhões.

Há muito que se discute sobre as possibilidades e limitações das cidades. As questões vão além ao que se refere ao espaço urbano; elas abrangem as soluções para distribuição demográfica, utilização de recursos, estruturas e profissionais. A tecnologia – e o seu uso como ferramenta eficaz e atuante para descentralizar estruturas burocráticas, diminuir o tempo das soluções e subtrair o número de documentos físicos que circulam entre os habitantes e entulham arquivos – ainda não faz parte do cotidiano administrativo da maioria das cidades brasileiras.

Sabemos todos que a internet não é uma ferramenta para a mudança, ela é a própria mudança. A prova disso está nos novos hábitos reconhecidamente verdadeiros e atuantes das sociedades: a maneira como as pessoas se relacionam, interagem com o mundo, marcam seus compromissos, guardam e mostram suas fotos, músicas, novidades. Tudo isso se espalhou na vida privada dos cidadãos com muita agressividade e competência. Mas o setor público patina em uma ou outra tentativa de informatizar informações ou virtualizá-las, mas ainda está longe de dominar esse conhecimento para acompanhar a mudança ocorrida com seus cidadãos.

Curitiba, em 2013, contabilizava 35 mil funcionários em sua folha, fora os contratados para serviços temporários de várias ordens. Dos 399 municípios do Paraná 352 têm menos gente morando que a folha da prefeitura daquele ano.

Os recursos que uma prefeitura tem são limitados, se há um funcionário designado para carregar a escada, outro para subir nela, um terceiro para segurá-la e mais um para trocar a lâmpada, logo falta o dinheiro da lâmpada e a população sofre no escuro, o que é justificado (e provado) por dificuldades econômicas.

É preciso pensar num novo modelo de organização. Não um que tenha ataques modernóides inúteis com nomenclaturas recém saídas de gírias americanas e sem nenhum papel prático na vida cidadã. Algo que diminua os custos físicos e humanos e deixe que as verbas administrativas sejam deslocadas para onde a intervenção humana é, de fato, imprescindível.

Numa matéria publicada ano passado no portal da Câmara Municipal de Curitiba trouxe como manchete “Com cirurgias ‘sobrando’, burocracia emperra atendimentos”. O texto versou sobre as dificuldades que o Hospital Santa Madalena Sofia (com 54 leitos, 36 clínicos e 18 para cirurgias), no Bairro Alto, sofria com a papelada. Lá pelas tantas a diretora-geral da unidade Alessandra Campelo Diniz Picolo declarou: “Nós temos médicos para ampliar os atendimentos, e já comunicamos isso aos órgãos públicos, mas essas vagas estão demorando para aparecer no sistema. Da nossa parte, já podíamos receber a população, só que as internações no hospital só ocorrem via SUS, pela central de leitos ou pela central de consultas”. E também queixou-se da burocracia para liberar equipamentos e repasses da União que são mediados pela administração municipal.

A burocracia emperra a vida de várias maneiras, em todas as escalas. Imagine quanto custa (se considerarmos o impacto no trânsito, no transporte público, na estrutura física dos prédios, na estrutura de RH, sem falar no da vida do cidadão, que precisa sair do trabalho em horário comercial, pegar ônibus, andar de um lado pro outro) quando alguém precisa de uma certidão, um carimbo, um papel, uma assinatura. Misteriosa e paradoxalmente ainda vivemos num tempo de arquivos enormes, prédios imensos para suportá-los, funcionários para estocá-los.

É comum tratarmos desse apego aos papeis como uma herança portuguesa, uma marca de nascença impossível de ser extirpada. Mas desde 1922 fazemos o que bem queremos com nossa administração e de lá para cá nossa opção foi repetir, geração após geração, um modelo que nos complica.

Em 2015 o Banco Mundial contou um pouco sobre nossa condição no ranking sobre a facilidade em fazer negócios (são vistos pontos como facilidade de abrir empresa, conseguir crédito, obter alvará, registro de propriedade etc.), 183 países na pesquisa, nosso Brasil-brasileiro ficou com o inglório 116º lugar. Não é possível dar de ombros para essa informação, porque afeta a atividade econômica, investidores internacionais pensam nisso também. Para se ter uma ideia do tamanho de nossa encrenca, em qualquer um dos 34 países que formam a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) uma pessoa precisa, em média, dez ações a menos do que uma por aqui quando quer abrir uma empresa. No Brasil gasta-se mais de 2600 horas por ano com burocracias fiscais, a média da América Latina é de 385.

Se a Dona Albertina fosse viva, provavelmente não precisaria mais esperar data adequada para fazer sua viagem Vila Guaíra-São Braz-Vila Guaíra e saberia mais de seus parentes usando qualquer um dos artefatos tecnológicos; se posso falar com familiares que estão em qualquer lugar do mundo com agilidade online e praticamente gratuita; se a cidade cresceu, mudou, ampliou e estouramos a marca de 3 milhões não há sentido nos entupirmos de papel como se ainda vivêssemos num tempo em que outras opções não são possíveis.

É tempo de rasgar papeis, diminuir estruturas e realocar recursos. Está na hora da inteligência ocupar cadeira nos serviços públicos.

Deixe uma resposta