Isto é Brasil

Eu estava deitado no sofá, tentando sobreviver ao calor insuportável do outono curitibano, quando começou a votação pela admissibilidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara – popularmente conhecida apenas como “votação do impeachment”. Já no começo deu para ver que o espetáculo seria divertido. Ao menos para alguém que gosta de comédia-pastelão, como eu.

E tudo correu razoavelmente como previsto. Eu tirava sarro do português claudicante dos deputados que, por algum motivo, são avessos aos plural. Eu ria do deputado que dedicava o voto ao filho Eudemauro. Eu zombava dos pecedobistas que falavam em golpe parlamentar. Já no final, porém, senti um desconforto. Algo se revirando no estômago. A votação terminou tarde e fui dormir. Não estava lá muito tranquilo. Alguma coisa me incomodava.

No dia seguinte, percebi que meu mal-estar não era isolado. Nas redes sociais, centenas de pessoas reclamavam do baixo nível dos parlamentares e de seus discursos. Alguns simplesmente davam continuidade à zombaria – e zombar de políticos é sempre muito saudável. Mas claro que também havia petistas usando as dedicatórias dos votos, os erros gramaticais e outras questões menores para desqualificar o processo como um todo.

O mais interessante, porém, eram aqueles (entre os quais me incluo) que demonstravam espanto com o baixo nível intelectual dos deputados. Alguns simplesmente não entendiam como é possível que sejamos representados por pessoas tão esdrúxulas, quando não vulgares. No conforto de suas bolhas urbanas, educadas e talvez até mesmo com um mestrado na Sorbonne, estas pessoas simplesmente não conseguiam enxergar o óbvio: o Congresso é o Brasil.

Sim, porque o Brasil não é aquele capaz de compreender o vocabulário bizantino dos ministros do Supremo. O Brasil não é aquele que assiste a House of Cards e entende todas as referências shakespearianas. Não, o Brasil definitivamente não tem a menor ideia de quem seja Sérgio Buarque de Hollanda. O Brasil sequer entende direito as manobras contábeis que caracterizam o crime de responsabilidade fiscal.

Anos 60

Uma das coisas que mais surpreendeu a “elite iluminada” no dia seguinte à votação do impeachment foi a onipresença dos termos “Deus” e “família” no voto dos deputados favoráveis ao afastamento da presidente. Para muitos, estas palavras ecoavam os mesmos gritos de guerra da famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade que antecedeu o Golpe de 1964. Uma impressão que logo depois seria desfeita pelos fatos – ainda que poucos tenham atentado para eles.

Uma nuvem de palavras feita pela Fundação Getúlio Vargas mostrou que a palavra mais dita em todas as dedicatórias não foi nem “Deus” nem “família” nem “povo”, e sim “Estado”. O que só mostra mais uma vez que o Congresso, a despeito da nossa repulsa e estranheza, é mesmo a cara do Brasil. Estado, Estado, Estado. Quem votou “sim” ou “não” defendeu tão-somente o domínio do grupo sobre o indivíduo. O tempo todo.

O Brasil – e, por consequência, sua versão parlamentar – parece ter parado nos anos 1960. Só que agora os dois lados se misturam e nem percebem. Ao mesmo tempo em que defende a família e fala em nome de Deus, o nobre deputado tece loas ao Estado Babá em todas as suas manifestações (enoja-me a expressão “Constituição Cidadã”), principalmente os programas sociais dos governos petistas.

Fotos: Divulgação

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Ora, o que dizer dos clichês sessentistas que marcaram as dedicatórias dos deputados contrários ao impeachment de Dilma? Jean Willys (PSOL-RJ), que mais tarde protagonizaria uma deprimente cusparada no também deprimente Jair Bolsonaro (PSC-RJ), dedicou seu voto aos “direitos da população LGBT, do povo negro e exterminado nas periferias, dos trabalhadores da cultura, dos sem teto, dos sem terra”. Glauber Braga (PSOL-RJ), pouco antes de ouvir Bolsonaro enaltecendo um notório torturador, votou por “Marighella, por Plinio de Arruda Sampaio, por Luis Carlos Prestes, eu voto por Olga Benário, eu voto por Zumbi dos Palmares” – muitos destes também assassinos.

Belíndia?

Claro que a disparidade cultural, por assim dizer, dos votos deu margem a comparações de cunho antropogeográficas de fazer corar qualquer pessoa com QI acima de 70. Não faltou gente para dizer que os deputados do Nordeste é que são a escória, enquanto os do Sul-Sudeste são “esclarecidos” (algo que o parágrafo anterior deixa claro que é mentira).
Sim, foi ridículo e constrangedor ouvir o deputado Wladimir Costa (SOL-PA) dedicar o voto ao rio Tapajós e agir como animador de plateia, usando até mesmo de um destes dispositivos que disparam uma chuva de confetes. Mas teria sido menos constrangedor ouvir Marco Feliciano (PSC-SP) mencionar Olavo de Carvalho ou Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) falar da Revolução de 32?

Não, o Brasil não é Belíndia (termo antigo cunhado pela esquerda para descrever a desigualdade regional do país, que segundo o qual estaria dividido numa porção rica, semelhante à Bélgica, e outra miserável, semelhante à Índia). O Brasil é essa deformidade nacional mesmo. É a traição contida no riso cínico do palhaço Tiririca (PRB-SP), é a vaidade brega do deputado Luiz Carlos Ramos (PTN-RJ), que dedicou seu voto “às pessoas moradoras de rua que moram nas ruas”, é a ignorância do deputado Ronaldo Fonseca (PROS-DF), que votou “pela paz em Jerusalém”. E é a pequenez de espírito do deputado maçom, do representante dos corretores de seguros e até do cantor sertanejo Sérgio Reis (PRB-SP).

 

Covardia & Covardia
bolsonaro

Foto: Divulgação

A votação, em si histórica, ficará marcada ainda pelos exemplos incríveis de covardia. Porque, sim, o Brasil também é o país dos covardes – e eles têm seus representantes no Parlamento, como deve ser. Aqui falo primeiro da covardia daqueles que se abstiveram de votar, a despeito da importância do assunto. Uns por causa da orientação partidária da qual discordavam, outros simplesmente por medo. Surpreendente? Não, o Parlamento não é composto por 513 heróis.

O Brasil é ainda a covardia de Jair Bolsonaro evocando a memória de um torturador, para desespero de outro covarde, Jean Wyllys, que posteriormente cuspiria no adversário. Insisto, o Brasil não é o país da dialética, do conflito saudável de ideias mesmo que antagônicas. Não! O Brasil é o país da eterna infância, aquela que manifesta seu descontentamento com manha, com bravatinhas, com cusparadas.

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