Música Erudita. Ed. 175

Anna, insuperável

Emílio Fabri

No dia 20 de junho, Anna Netrebko estreia em Viena na ópera de Puccini “Manon Lescaut”.  Ela será Manon, é claro. Eu espero estar lá. Vale a pena ver Anna Netrebko. Exuberante, linda, um ar de Juliette Binoche, e a voz de soprano mais perfeita que já ouvimos. Sua história virou lenda. A ex-faxineira do teatro onde a Opera Kirov ensaiava virou a diva mais importante de todas.  Na época, Valery Gerkiev, diretor da companhia, teve paciência com a faxineira que almejava cantar.  Ela escolheu as árias de Rainha da Noite, do repertório de A Flauta Mágica, de Mozart, tidas como penosas para sopranos experientes, imagine para uma estreante. Anna foi aprovada e passou a interpretar clássicos da ópera russa, em especial autores como Prokofiev (Guerra e Paz) e Glinka (Lyudmila, Ruslan).
Qualquer ouvido civilizado deve reservar algumas horas (ou muitas)para ouvir o CD de estréia de nossa diva do século XXI. Ela transita acima das dificuldades do universo musical rígido ao extremo, repleto de regras, hierarquias e vaidades aniquiladoras. O CD da Grammophon foi gravado com a Filarmônica de Viena, regência de Gianandrea Noseda. Por que o CD de estréia? Porque é fantástico e mostra uma voz estruturada, pronta, fascinante que impressionou profundamente nomes como o maestro Nikolaus Harnoncourt e a cantora Renata Scotto.

Anna-Netrebko-2

Foto: Divulgação

Não há paralelo para a voz de Anna com outra soprano. Foi tida como sucessora da australiana Joan Sutherland. Bobagem. Ela é incomparável. De timbre aveludado e suave ao ouvido, a voz de Anna Netrebko oscila entre o intimismo e a grandiloquência com a mesma desenvoltura, sem medo de trechos mais complexos e traiçoeiros. A soprano (escala mais aguda do canto lírico) lapidou seu talento optando invariavelmente por personagens difíceis e desprezando os menos ambiciosos das grandes óperas. Em Don Giovanni, por exemplo, ela escolheu Dona Anna em vez de Zerlina, que teoricamente seria mais adequada à sua voz. Essas escolhas forjaram a trajetória da estrela desde o seu descobrimento, em São Petersburgo, numa história que faz lembrar os contos da Gata Borralheira.

Dois concertos de Poulenc

José Augusto Jensen

Poulenc

Francis Poulenc com uma amiga em 1936. Foto: Divulgação

pôs o balé Les Biches para Diaghilev produzir em Monte Carlo. Cheio de vivacidade, ao estilo de Stravinski, conheceu um enorme sucesso, tornando-se conhecido na Paris de então. Como típico músico francês, compôs música espirituosa e elegante, fazendo parte do grupo dos “seis”, capitaneados por Jean Cocteau. Por sugestão da grande cravista Wanda Landowska, compôs o Concerto Campestre para cravo e orquestraem 1928, seu primeiro de muitos concertos, principalmente para piano, que também conheceu o sucesso. Pouco antes, Manuel de Falla, compôs seu concerto para cravo, também sob encomenda de Wanda Landowska, porém apenas com flauta, oboé, clarineta, violino e violoncelo, concebido como música de câmara. São os dois primeiros concertos para este instrumento da era moderna. O de Poulenc estreou em 3 de maio de 1929, sob a regência de Pierre Monteaux, com  Landowska ao cravo.Todavia, o ouvinte não deve esperar a evocação romântica selvagem e solitária da natureza rural. O título descreve o campo pelo habitante de uma grande cidade como é o caso de Poulenc. Em três movimentos, alegro molto, andante e finale.
Composto em 1938, o poderoso concerto para órgão, cordas e tímpano, revela o compositor mais maduro e profundo. No intervalo destas obras, converteu-se ao catolicismo, que fez dele também um compositor de música sacra. A obra foi comissionada pela Princesa Edmond de Polignac, e ele, que nunca tinha composto para órgão, estudou a fundo peças barrocas para o instrumento, principalmente Bach e Buxtehude, auxiliado pelo amigo Maurice Duruflé, organista e também compositor. Este concerto neo-barroco reflete isto. A peça tem aproximadamente 20 minutos de duração, com oito tempos sem interrupção, que diferem substancialmente em estilo, tom e textura. Andante, alegro giocoso, súbito andante moderato, tempo alegro moltoagitato, très calme-lent, tempo de alegro, tempo introduction largo. Segundo Poulenc, o órgão é capaz de produzir os sons das madeira e metais, e ao limitar o concerto a uma orquestra de cordas e três tímpanos, quis tornar a execução facilitada em igrejas. Recebido com certa frieza a princípio, foi muito difundido nos Estados Unidos, também por uma gravação, hoje clássica, de Charles Munch regendo a Orquestra sinfônica de Boston, BerjZamkochian ao órgão, RCA Living Stereo, de 1961, que fez e ainda faz a delícia deaudiófilos.
Concertos de grande originalidade.

Concertos-Poulenc

Foto: Divulgação

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