O controverso Narloch

Os historiadores torcem o nariz para ele. Agora, alguns economistas (sobretudo os heterodoxos) torcem o nariz para ele. Alheio a isso, Leandro Narloch segue em sua cruzada libertária, derrubando mitos históricos com uma das séries editoriais de maior sucesso no Brasil: a dos Guias Politicamente Incorretos.
Aos 38 anos, este jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná não é um polemista vazio. Apaixonado por história, ele investiga mitos que parecem sedimentados em nossa cultura, servindo de base para projetos de poder. Com um texto bem-humorado e recheado de fatos, Narloch leva o público sedento por conhecimento a se perguntar se aquilo que aprendeu nos bancos escolares tem lastro nos fatos ou se é apenas delírio do professor engraçadinho de história.
Nesta entrevista, ele fala sobre o impacto de suas publicações, bem como da existência de uma guerra cultural no Brasil.

Foto: Divulgação

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Seus livros foram inegáveis sucessos de público. Mas como eles foram recebidos nos meios acadêmicos por historiadores e, agora, economistas?
Costumo dizer que os guias de história são um sucesso e um fracasso de público e de crítica. Muitos historiadores e leitores comuns se incomodam com os livros, mas há muitos outros que se encantaram. No Guia da Economia, tive menos problemas com os acadêmicos, pois não disse nada de novo, nada que a ortodoxia econômica não tenha repetido.

 

Existe mesmo uma “guerra cultural” no Brasil? Neste sentido, os guias politicamente incorretos estariam sendo usados como munição por um dos lados do conflito?
Sim, acredito que existe uma guerra cultural. A posição política das pessoas depende bastante de como elas enxergam o mundo e a história. Meus livros quebram alguns desses fundamentos, então é natural que muitas pessoas fiquem bravas com ele e outras os utilizem como munição, fonte de argumentos contrários à esquerda.

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Ainda quanto às versões divergentes, seus livros parecem propor um ensino mais plural. Você percebe alguma mudança neste sentido?
Sim, desde que publiquei o primeiro, em 2009, o ensino de história está um pouco mais plural. A ideia, por exemplo, de que a Guerra do Paraguai foi um genocídio praticado pelo Brasil dificilmente aparece nos livros hoje sem uma dose de controvérsia, algum historiador dizendo que “não é bem assim”.

 

Já ouvi dizer que o sucesso da coleção representa uma guinada política à direita, com toda a conotação negativa que o termo ainda representa. Como você vê este tipo de afirmação?
Me parece que houve por algum tempo um monopólio da esquerda na lista dos mais vendidos, principalmente na história do Brasil. Nos acostumamos a pensar a história como uma série de episódios de humilhação de ricos contra pobres. Quando eu publiquei o primeiro livro, muita gente estava desconfiada que a história não era exatamente do jeito que o professor marxista havia ensinado. Eu disse muitas coisas que as pessoas queriam dizer, mas não tinham o pensamento claro para tanto.

 

Alguns “mitos econômicos” por você contestados no livro parecem bem entranhados na cultura brasileira. Você vê alguma chance de o patrimonialismo e coisas como a CLT um dia virem a ser de fato contestados?
A mudança da CLT deve acontecer em breve, eu acredito. Até a França, sob um governo socialista, resolveu mudar a lei trabalhista… Os principais problemas econômicos do Brasil não se explicam, acredito eu, na cultura brasileira. A ideia de que o governo dá coisas grátis (escolas, hospitais) atrai tanto brasileiros quanto ingleses ou franceses.

 

Levando em conta a história e a economia como são ensinadas nas escolas e discutidas em seus livros, isto é, levando em conta as versões politicamente corretas e incorretas, como você vê o momento histórico/econômico pelo qual passamos?
Toda essa crise atual nos mostrou que, se deixássemos o comando com os intelectuais e os acadêmicos de humanas, estaríamos num lamaçal ainda mais fedorento. As acrobacias intelectuais que os inteligentinhos estão fazendo para seguir apoiando o governo é patética, um caso típico de ignorância ativa. Um atendente de supermercado entende mais do mundo que esses intelectuais – não porque tenha estudado, mas porque não tem uma lente ideológica a deformar sua visão.

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