O fiu-fiu na MPB

Em 2014 o Senado belga aprovou uma lei que proíbe qualquer tipo de abordagem sexual nas ruas. No termo entraram intimidações pesadas, mas também aquele simples “fiu-fiu”. A multa para quem revela o encantamento com beleza alheia ou impõe isso de um jeito mais agressivo caminha de 50 a 1000 euros, a depender da situação.

 

No Peru, uma cantada em espaço público pode acabar em 12 anos de cadeia para o metido a galã. Em 2012 quando a pena foi decidida correu em paralelo uma campanha chamada “Síbale a tu madre” (“Assobie para sua mãe”), mulheres foram produzidas em salões de beleza e colocadas para passar rapidamente por seus filhos numa via pública, alguns não reconheceram a própria mãe com roupas e maquiagem fora do usual e assediaram-na, o puxão de orelha veio na hora.

 

Tem gente contra e tem gente a favor a esse tipo de proibição. O quanto uma mulher se sente constrangida ou ameaçada diante de uma cantada na rua depende muito da ocasião e da maneira como ela é feita, é claro. Uma cantada numa via pouco iluminada e sem movimento produz uma sensação diferente do que um assobio numa avenida à luz do dia e com vários transeuntes. Entre o medo e a indignação é preciso ponderar e dar a dimensão certa para cada feito.

 

Como o mundo caminha nessas terras desonestas do politicamente correto, é um tanto perigoso se deixar levar pelos gritos histéricos dos que colocam no mesmo saco o despertar de um interesse, um flerte, uma manifestação sadia e uma tara descontrolada. Não dá para tratar tudo da mesma forma. Nenhuma sociedade sadia vive nos extremos: ou preto ou branco, ou isso ou aquilo. As nuances entre um ponto e outro existem e precisam ser mantidas.

 

Por conta dessa coisa toda que revivi recentemente ao ler artigo da Fernanda Torres que também desfilou sobre o assunto (com pedradas e aplausos) pensei sobre a MPB e seu comportamento diante de belezas que passam pela rua. Fosse a música também proibida de revelar impressões de estampa, perderíamos grandes páginas em nossas radiolas.

 

Foto: Divulgação

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A mais famosa que trata do assunto é nosso patrimônio nacional, internacionalmente cantado, “Garota de Ipanema”, que nasceu da observação de Tom e Vinícius sentados no bar Veloso (hoje Vinícius de Moraes) entre as ruas Montenegro e Prudente de Morais. Helô Pinheiro que invariavelmente fazia aquele trajeto para chegar à praia, chamava atenção dos rapazes. Veja só, a menina Helô tinha na época 15 anos e os barbados não se constrangiam em assobios. Da observação da musa nasceu a inspiração que percorreu alguns endereços dos compositores até chegar ao produto final. “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça / É ela a menina que vem e que passa / Num doce balanço, caminho do mar / Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema / O seu balançado é mais que um poema / É a coisa mais linda que eu já vi passar”.

 

Outra música de inspiração bem parecida é a de Tito Madi, de 1963. Também vai tratando de um percurso e de como a musa o faz. Alguns versos poderiam soar meio cafajestes ditos a queima roupa, mas com o apoio da música são muito sedutores: “Balança toda pra andar / Balança até pra falar / Balança tanto que já balançou meu coração / Balance mesmo que é bom / Do Leme até o Leblon / E vai juntando um punhado de gente / Que sofre com seu andar”.

 

Dorival Caymmi. Foto: Divulgação

Dorival Caymmi. Foto: Divulgação

Antes de todas essas passantes, Dorival Caymmi também deu seu testemunho sobre moça bonita na rua. Samba de 1946, “A Vizinha do lado”: “A vizinha quando passa / Com seu vestido grená / Todo mundo diz que é boa / Mas como a vizinha não há / Ela mexe com as cadeiras pra cá / Ela mexe com as cadeiras pra lá / Ele mexe com o juízo / Do homem que vai trabalhar”. E um ano antes, o mesmo Dorival já tinha tido visões públicas sobre beleza rara. Ele mesmo explicou o caso em depoimento prestado à Associação de Pesquisadores da Música Popular Brasileira, em 1983: “O bar já estava fechando quando, de repente, ouvi uma banda rasgando um frevo. Era um bloco, o ‘Pão da Tarde’, que vinha em direção ao hotel, recolhendo donativos para o carnaval. Na frente, dançando descalça, destacava-se uma mulata clara, monumental, que nem devia ser do bloco, estando ali por gostar de dançar. Então, fiquei visualizando a imagem da moça e naquela madrugada mesmo comecei a fazer os primeiros versos: ‘Dora, rainha do frevo e do maracatu / Dora, rainha cafuza de um maracatu’ e continuei repetindo aqueles versos, até que veio um empregado do hotel me avisar que havia desocupado um quarto. No dia seguinte fiz mais um pedaço. Mais adiante, já em Maceió, cheguei naquela parte que diz: ‘Os clarins da banda militar / tocam para anunciar…’”.

 

Caetano Veloso. Foto: Divulgação

Caetano Veloso. Foto: Divulgação

Agora, duvido que haja combatente ao fiu-fiu que resista aos versos de Caetano Veloso em “Você é linda”. O cantor fazia show em Salvador e durante “Lua e Estrela”, de Vinícius Cantuária, uma moça na plateia chamou sua atenção, no verso “quem é você, qual o seu nome?” ela respondeu “Cristina”, o papo continuou “conta pra mim, diz como eu te encontro” e ela: “Ondina”, mesmo bairro que o compositor morava. Algum tempo depois, Caetano a viu andando pelas ruas de Ondina, tentou conversa, a guria foi embora sem olhar para trás. Na segunda oportunidade, também na rua, o compositor teve mais sucesso e a música já estava adiantada: “Fonte de mel nos olhos de gueixa / Kabuki, máscara / Choque entre o azul e o cacho de acácias / Luz das acácias você é mãe do sol / A sua coisa é toda tão certa / Beleza esperta / Você me deixa a rua deserta / Quando atravessa e não olha pra trás”.

 

Na lindíssima “Minha Dalva de Oliveira”, de Celso Fonseca, ele exalta os predicados da amada e lá pelas tantas reconhece os suspiros que não são só seus: “Sai pela rua meio nua / Escandaliza o comércio / Deixa o povo te querer, te desejar / Perder a educação”.

 

Contar sobre o reconhecimento que se tem sobre a beleza alheia é uma homenagem. Às vezes isso é dito num olhar, às vezes num assobio, às vezes com música. De qualquer forma, quando acontece pelos trilhos do respeito e da admiração é bem-vindo, caso contrário o efeito é inverso. Mulher não é pedaço de carne que anda pela rua a inspirar instintos de caçadores. Homem não é ser irracional que baba e uiva quando vê uma fêmea. Por isso, a cantada é, também, um ato civilizado, urbano, bonito e até romântico, para quem sabe, claro.

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