O PT perdeu

Lênin dizia que “Os elementos da cultura democrática e socialista estão presentes, ainda que de forma rudimentar, em toda cultura nacional… Mas toda nação tem uma cultura burguesa, na forma não só de elementos, como também da cultura dominante”.

Hoje vivemos um período que não é mais possível viver sob a perspectiva capitalistas versus proletariados, a sociedade mudou e a heterogeneidade se faz presente, mas, por mais inacreditável que possa parecer, o PT ainda sustenta um discurso classista, que agora não tem mais a ver com as classes, adaptou para a atualidade, fala de golpistas e não-golpistas.
A história mostrou que agentes políticos que criaram situações dicotômicas se enforcaram, o PT a dizer que 68% da população (dados divulgados em 19 de março pelo instituto Datafolha) que pedem o impeachment é golpista soa de maneira absurda, parece-se com o discurso classista do século XX do operariado contra o bloco de poder, mas agora quem tem o poder nas mãos é o próprio PT e não sabe como fazer para unir a população.

Estratégias cibernéticas funcionam de certa maneira, mas somente para criar a rivalidade e não conquistar a população brasileira. Obviamente que em paralelo a isso segue toda uma política trivial – que envolve o Congresso, o Senado, o toma-lá-dá-cá – mas, Dilma Rousseff já não tem mais, se é que algum dia teve, força política para unir o País num único projeto.
O lulopetismo deu certo até a parte “lulo”, o ex-presidente foi capaz de fazer o que se comumente faz-se em regimes populistas. Por populismo entendemos não apenas a referência ao povo e a popularidade, obviamente o que define o populismo é a relação com o povo, no entanto governos muito distintos podem ser chamados de populistas: Vargas, Peron, Hitler, Mussolini e Lula. O populismo anda a ser arrebatadamente usado, alguns chegaram a classificar Dilma Rousseff, em seu primeiro mandato, como populista somente por causa das suas engenhosidades sociais.

Se pensarmos como Aristóteles, populismo seria analógico (que possuem diversos significados, mas todos com um elemento comum) com o fundamento “povo”. Mas vai além, a capacidade de um governo ser populista está em dialogar com as mais diversas classes, a agradar gregos e troianos. Para ilustrar podemos lembrar a burguesia inglesa do século XIX, que conseguiu sua hegemonia não através de revoluções ou apelando completamente para as massas, e sim articulando seu discurso entre a aristocracia e os operários. Não há um caráter antagônico, como há hoje com o PT: golpistas e não-golpistas, há o contrário, há a conciliação, a aristocracia foi reduzida a um papel cada vez mais subordinado e decorativo, mas sem deixar de existir e exercer certo “poder”, enquanto o operariado teve algumas medidas atendidas, que resultaram no reformismo e no sindicalismo.

Vivemos outros tempos, é bem claro, mas o conceito de antagonismo permanece o mesmo, não funcionou no século XIX, nem no XX, não funcionará agora, seja na Inglaterra ou no Brasil.

Lula gozou do populismo, agradou as massas (aqui vale todas as classes que compõem significativo movimento social no país) e os donos do capital, assim como fez Getúlio em determinada medida – não de graça foi chamado como Pai dos pobres e, ironicamente, Mãe dos ricos.

Classe média

Historicamente a classe média é destituída de ideologia, navega no limbo dos pobres e dos ricos, funciona fisiologicamente como o PMDB, veste a camisa de quem ganha. A prova: Lula quando deixou o governo tinha aprovação de 87% dos brasileiros, obviamente que uma fatia considerável era da classe média, pois no mesmo ano mais da metade (50,5%) da população pertencia ao grupo. Lembremos que no Brasil o conceito de “classe média” é um tanto peculiar, em 2015 apenas 8,7% da classe média brasileira receberia a mesma alcunha nos EUA.

O que une de maneira geral a “pequena burguesia” é o nacionalismo, foi assim no século XX com os regimes nazifascistas e está a ser hoje com as manifestações enfeitadas carnavalescamente de verde e amarelo a representar o País, juntam-se em torno de um herói, Sérgio Moro. Tais comparações poderiam soar demasiada anacrônicas, mas nem tanto se analisarmos o comportamento desta pequena burguesia, que agora perde com o atual governo faz ferrenha oposição, melhor do que a tradicional politicamente estabelecida.
Intelectuais pós-marxistas analisaram a classe média do século XX como a que desempenha o papel político central na ascensão do fascismo, o que de fato foi verdadeiro, hoje ela desempenha o mesmo papel político, mas agora na queda do governo, a tratar do atual cenário brasileiro.

Nas manifestações de março deste ano, sete milhões foram às ruas. Falou-se que era apenas a classe média se queixando, a fazer birra, querendo tirar um governo assistencialista. São sete milhões a reclamar do atual cenário, sete milhões de pequenos burgueses. Mais: sete milhões de golpistas. O reducionismo por parte do PT está a sentenciar sua morte, o partido já passou por semelhante situação com o mensalão, mas à época tinha o populista Lula – e não contavam com sete milhões nas ruas; agora com o petrolão tem a reducionista Dilma.

O PT perdeu. O PT perdeu apoio popular. O PT perdeu apoio político. O PT perdeu na economia. O PT fracassou em seus projetos, pois hoje aquela classe que subiu para média volta para a baixa, pior do que antes porque agora está endividada por causa de todos aqueles incentivos para comprar carros, eletroeletrônicos etc. e tais; e sem emprego! Hoje temos desempregados – muitos! A propaganda petista vende um país melhor, que por um tempo foi, mas agora devolverá cedo ou tarde um Brasil em cacos, podre e ressacado da festa que um dia gozou.

Se não bastasse tudo isso, o PT agora perdeu nos conceitos, errou na estratégia. Não soube fazer política em época de crise, corrompeu-se em época de bonança. O PT perdeu e quem pagará serão os 200 milhões de brasileiros.

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