O Rio e o tempo

No posto 6 da praia de Copacabana encontra-se sentado num banquinho, de forma introspectiva, Carlos Drummond de Andrade, agora eternizado numa escultura em bronze. Drummond, como eu, amava o Rio com todas as suas belezas e mazelas.

Certo dia em março de 2004 escolhi o Rio de Janeiro para uma comemoração especial. Escolhi o Rio entre tantas outras cidades possíveis para festejar e olha que amo muitas por esse mundo afora. Mas o Rio é uma daquelas coisas boas da vida. A cidade é eternamente linda, suas praias são encantadoras e seu povo é o mais simpático e o mais “malandro” do Brasil. No Rio há de tudo que um ser humano na plenitude de suas razões, gosta. Beleza natural de tirar o fôlego, o melhor carnaval do mundo, um clima tropical para poucas roupas, praias pra lá de charmosas, mulheres lindas e liberadas desfilando de lá pra cá, botecos com uma gastronomia de dar água na boca, noites quentes animadíssimas, sotaque alegre carregado nos esses(ss) e uma musicalidade inexplicável em todos os cantos. A cidade é uma poesia inacabada pois todo mundo escreve um verso.

Ao caminhar em suas velhas ruas do centro inexplicavelmente degradado ou nos calçadões de Copacabana, Ipanema ou Leblon, ouve-se lá no fundinho um samba ou uma bossa nova com renovado prazer de viver. Parece até que a qualquer momento vamos dar de cara com o Tom ou o Vinicius cantarolando “…manhã de sol…e o barquinho a deslizar…”. Uma delícia se você não estiver trabalhando percorrendo os corredores abafados e bagunçados do Fórum. Ah! Aí você sentirá que o Rio pode ser um paraíso, mas também um inferno. Só que eu estava ali a passeio e, portanto, que se danasse o Fórum e seus demônios.

Hospedado em frente ao Forte de Copacabana, do sétimo andar, tive a mais magnífica visão de um mito. Linda e deslumbrante, a princesinha do mar abria-se em leque como querendo me abraçar e dizer: “Seja bem-vindo ao paraíso meu querido amigo e esqueça o mundo, porque você só sairá daqui quando eu quiser.” Tipo o concierge do Hotel Califórnia.

No dia certo a lua cheia fez questão de se fazer presente num céu tão magnífico que…Ufa! Eis que um gigantesco disco iluminado pintou de prata toda a baía da Guanabara. Nasceu tão esplendorosa que naquele átimo me senti sem fôlego e pedi à minha mulher que me ajudasse a olhar aquela beleza, como fez o pequeno Diego ao pai Santiago Kovakloff personagem de Eduardo Galeano no Livro dos Abraços. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas, diria Drummond. Lembro-me ainda das primeiras luzes que já se faziam presentes em toda orla. Emocionado, fui me aprumando na cadeira da sacada e lentamente acendi meu charuto preferido e com lentas e vigorosas baforadas desejei ardentemente que o tempo parasse naquele momento.

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