Orfandade sem pé nem cabeça ou o samba do crioulo doido

Eu sou brasileira, sem nenhum orgulho, com um amor fraquinho, cambaleante. Há anos não tenho televisão e há algum tempo deixei de ler jornal impresso, a não ser os classificados, porque gosto de pensar numa teoria sobre literatura e classificados, mas esta é outra conversa.

O que sei das notícias corre na internet. Tenho assinatura de três jornais (todos com classificados), que me entendiam e me fazem ter a noção exata da impossibilidade de acompanhar a agenda política do país. Às vezes tenho a impressão que ler a Caras e o Estadão é quase a mesma coisa. Na Caras você vê casais apaixonados, desfrutando paraísos e palácios, em juras eternas; semana seguinte, a notícia sobre o rompimento do casamento, que custou 50 mil e durou seis meses; na próxima, o Fulano conheceu o amor de sua vida e a Beltrana sua grande paixão, e está grávida; a história volta ao mesmo ponto para se repetir perpetuamente na mesma espiral. O Estadão, mesma coisa: Fulano e Beltrano dão as mãos e formam um partido, explicam convicções, arrumam teorias, juram caminhar juntos e para sempre unidos por ideias e ideais; algum tempo e falcatruas depois, se separam, fazem divisão de bens, acusações e cada um parte para um novo lar; conchavos, discursos, promessas e decisões; um desentendimento aqui, uma verba a menos ali, um deslize acolá e vai pro ralo a comunhão; a história recomeça, envolve outras pessoas, famílias, amigos, bens, viagens. Envolve sempre um escândalo em maior ou menor proporção, e olhe que estamos ultrapassando em velocidade galopante o número e a qualidade que é difícil acreditar que escândalo novo virá, mas ele vem, surpreendentemente aparece e tudo se repete. Os atores são os mesmos.

É trabalhoso acompanhar a novela. E inútil. Já fiz um teste. Fiquei duas semanas sem ler única notícia sobre o assunto. Sabia que o mundo verde-amarelo fervia, só não lia notícias, mas não estava morta, ouvia o burburinho e a excitação das torcidas. Foram dias de muita intensidade, aquelas que sucederam a condução do Lula para depor, lembra? Pois bem, quinze dias depois, abro o jornal como quem fica duas semanas sem ver a novela. E é exatamente assim, quem acompanha diariamente, não consegue se desligar e não perde um capítulo; quem volta tempo mais tarde, pega o bonde andando e parece não ter muita diferença de onde parou.

Por conta de declarações como esta já fui apontada como alienada, ignorante e outros adjetivos que só me qualificaram. Tenho cá meus motivos muito particulares. O primeiro, e mais importante, é que sou um tipo sensível; não passo pelas folhas do jornal sem ser atingida. As notícias me deprimem, me esgotam, sugam minha energia e me derrubam. Lona. Se levar a sério mesmo o espetáculo que se estampa diariamente, não consigo achar motivos para sair da cama, para ir à luta, para pagar imposto, para tentar melhorar o mundo ao meu redor. É uma proteção, tem coisas que é melhor não saber, mesmo que se saiba. Em segundo lugar, eu sou ocupada. Tenho coisas para fazer e não posso dividir meu tempo entre minhas urgências e essa loucurada toda. Não dá para perder o pôr do sol porque há um pronunciamento em processo; não posso atrapalhar o jantar com os amigos para saber os motivos pelos quais meus vizinhos batem panelas; não consigo, mesmo, deixar que o Fernando Pessoa fique ali solitário na prateleira porque estou a traí-lo com um editorial ferino.

E o que cobre como um poderoso manto minha falta de apetite para esse expediente é a dificuldade de compreender os caminhos da democracia, seus buracos, vielas, encruzilhadas, armadilhas. Juro que não entendo. E como justificativa para sair da minha condição de alienada, ignorante e outros adjetivos eu recorro ao início do parágrafo, terceira frase.

Outro problema para esses tempos é o Facebook, lugar em que a quantidade de informações se multiplica, primeiro pela obviedade: o mundo está ali. Depois, pela possibilidade de divulgação de tudo quanto é tipo de site, de assinatura, de posição. Tem também os produtores de notícias falsas, inventam coisas, publicam e já era, 500 curtidas depois vira verdade, se duvidar até Polícia Federal está investigando. E o máster aterrorizante do assunto: ver como os nossos amigos podem ser selvagens malucos e insanos, a defender ou acusar – nem dá para continuar a falar disso, porque é assuntinho bem batido e fosse para tratá-lo, seria bom encontrar forma original, não é o caso.

 

Nossa orfandade é tanta, que não há como acreditar em nenhuma instituição, ou político. Não é falta de vontade, simplesmente não dá. Falência múltipla dos órgãos, fase terminal, fundo do poço, vergonha geral

 

O fato é que saber da situação do país é coisa difícil, não há em quem confiar. Cada jornal tem suas próprias cores, em cada reportagem uma opinião, os acontecimentos vão sendo noticiados de acordo com a editoria e não haveria problema algum nisso, ao meu ver, desde que os veículos assumissem em brado claro em qual time jogam, e o porquê. Não acredito muito em quem se diz imparcial, isso não existe. Vamos imaginar um sonho dourado, aqueles de adolescente que não tolera nada menos que a verdade dos eventos. Pois bem, ainda se ocupando de um milagre assim, seria impossível saber o que acontece mesmo. Os jornais precisariam contratar um batalhão de repórteres investigativos para descobrir e desvendar o que os palácios mandam como divulgação e o que acontece realmente em seus porões. Ou, melhor ainda, no campo do devaneio vamos supor nossos governantes corruptos como são, mas paradoxalmente honestos, desviam, roubam e enganam, mas dizem a verdade: o presidente do senado avisa sua secretária, que fala com seu assessor, que manda chamar a assistente, que liga para o diretor do gabinete da assessoria de imprensa, que fala com o office-boy, porque todos os 375 funcionários públicos e mais os 645 comissionados foram embora porque é quinta-feira 13h e o expediente da semana acabou, e, finalmente, o guri solta a notícia, a contar, incluindo esse trajeto, presidente do senado avisa que a verba ilegal, fruto da última campanha presidencial, será destinada para comprar o apoio dos deputados da bancada do partido simpático e bonitinho que pontua bem em votações, não é grande coisa, mas garante 57 votos pra nós. E um imenso infográfico seria montado com cada um dos 57 deputados a mostrar a evolução de suas carreiras e de como chegaram onde chegaram, em quem se apoiaram, de quem puxaram tapete, onde mentiram, quanto de grana acumularam até a data e o que fizeram para escondê-la do fisco. Que bonito seria! Mas as negociatas são tantas, entre todos, impossível até haver uma organização na divulgação dessas informações. Duvido que toda a grana que rola por aí obedece normas da ABNT para serem endereçadas, anotadas e controladas (e falando nisso, um parênteses, lembra dos apelidos nas listas de pagamentos da Odebrecht? Mineirinho, Grisalho, Crente, Novo Canário, Jacaré, parece escalação de time do bom futebol da década de 1950, pronto, nem quero comentar, mas achei engraçado esse capítulo da novela. Fecho parênteses).
Nossa orfandade é tanta, que não há como acreditar em nenhuma instituição, ou político. Não é falta de vontade, simplesmente não dá. Falência múltipla dos órgãos, fase terminal, fundo do poço, vergonha geral.

Como ainda há espaço para mais umas palavrinhas e pouco, afinal, pode ser comentado sobre o festival de malandragens que nos fazem saltar da alienação total ao susto em cinco segundos, aproveito minhas linhas para tratar de assunto muito, mas muito mais importante. Os classificados de jornal. Imagine o quanto há de humano nos prosaicos anúncios, a evolução da economia, as ambições, os desejos, os movimentos da sociedade, as ocupações de cada época… tudo estampadinho na simplicidade de comunicação feita em três ou quatro linhas abreviadas. Um campo inesgotável, antropológico e fiel, sobre nossa história. Não dá para negar. Se você abrir um classificado hoje, vai ver pouca oferta de emprego, muita venda de carro, preço dos imóveis caindo, gente trocando dívida de condomínio por apartamento na praia e claro, a multiplicação dos serviços de massagistas, porque ninguém é de ferro.

Eu não tenho mais espaço por aqui, mas se você tiver um tempinho na sua agenda, despreze as notícias e avance até a literatura nos classificados. Essa que a gente mesmo pode montar sem muita erudição.Ou faça melhor, abandone a gazeta, vá à biblioteca e se dedique à leitura superior como a de Drummond: “Procura-se apartamento / pequeno, bem situado, / onde caibam dois amantes / de frente como de lado.”

Deixe uma resposta