Papagaio de corrente

Um dos piores apelidos aos boêmios dos anos quarenta a sessenta era o de “papagaio de corrente”, isso é disposto a ir cedo para casa e não ter problemas com a mulher. Naqueles anos as mulheres não tinham essa pegada de hoje, institucionalizada em leis protetoras, razão pela qual suportavam – e isso se dava em particular com as dos jornalistas – com a chegada tardia em casa. Havia a boemia efetiva dos que eram colunistas da noite, navegadores de todas as boates como o Renato Ribas e outros que curtiam discussões, troca de sonetos e contos, reflexões filosóficas e que tinham, sobretudo, uma compulsão: a de tocar o jornal, recém saído da oficina, como quem está, no exercício do tato, tocando no pão fresco da manhã. E permeando tudo isso muita bituca.

A despeito desse fracionamento, todos eram boêmios, afinal varavam a noite e isso se iniciava nos jornais que à época fechavam de madrugada. Botecos havia no entorno de todos os jornais da cidade e o normal era que as tribos de uns e outros cruzassem seus caminhos. No “Diário do Paraná” chegamos à sofisticação de produzir o conhaque na fundição das oficinas e adequadamente misturado com chumbo e antimônio, algo de maior risco e morbidez do que os porres épicos de absinto do Lord Byron.

Havia, aliás, o hábito de impor o consumo de leite a esses profissionais para a devida desintoxicação e alguns deles armaram, para um novato, com a produção de um jornal fajuto em que um texto anunciava que a cerveja era bem mais eficiente e o cara embarcou nessa. Quem se referia muito ao episódio era o Antonio Colaço, aquele que bebia demais e ao ver, aconselhado, o clássico de Billy Wilder, “Farrapo Humano” com Ray Milland, que enfrentava um quadro terrível de delirium tremens, e perguntado se ainda continuaria bebericando, depois de todo aquele sofrimento, respondeu , de forma definitiva, que nunca mais iria ao cinema.

Uma das cenas mais fortes sobre papagaios de corrente foi na turma da pesada (Dude Ghignone, Nireu Teixeira, Osires de Brito, Samuel Guimarães da Costa, Marcel Leite, Jairo Regis) quando um dos participantes, novíssimo na roda e que datilografava os textos que o diretor Ericksen Pereira declamava na redação do “Estadinho” sob a forma de editoriais, levantou-se e declarou que a sua vida encontrava naquele ambiente um divisor de águas e que estava sumamente grato com o convívio, mas que tinha que deixar o ambiente porque a sua esposa tinha falecido e ele deveria ir ao guardamento. Uma sensação profunda de culpa abateu a turma, porque aquilo derrubava todos os paradigmas da boemia, o que foi amaciado pela intervenção genial do gravurista Marcel Leite que fez a observação apropriada: “esse cara poderia ao menos ter tomado cerveja preta!”

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