Prateleira. Ed. 175

O jardim, a tempestade de Snege

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Embora curto e aparentemente de leitura rápida, O jardim, a tempestade de Jamil Snege pode exigir tempo maior que o previsto para desvendar suas linhas, suas delicadezas, ora de jardim, e seus escrachos, ora tempestivos. No prefácio Fábio Campana foi preciso ao descrever o Jamil presente nesta obra: hermético e profundamente humano, ou seja, cuidadoso com a linguagem e perdido nas paixões, que nas palavras de Campana “nos fazem reconhecer um mundo que preferiríamos não fosse o nosso”.

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Foto: Divulgação

Enquanto agonizo

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Anse, personagem do livro de William Faulkner, definiu a narrativa: “Parece que não tem fim para o azar quando ele começa.” Publicado em 1930, Enquanto agonizo trata de uma família, pai e cinco filhos, que tenta levar a mãe morta para ser enterrada em Jefferson, cidade que ela pediu para descansar eternamente. Aqui Faulkner afasta-se da aristocracia sulista americana para descrever a massa. Sua maneira de narrar, através de cada personagem e dividindo em capítulos curtos, torna a história mais envolvente pelo fato de ceder ao leitor uma miscelânea de emoções.

O primeiro Fitzgerald

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F. Scott Fitzgerald tinha 23 anos quando escreveu Este lado do paraíso, uma narrativa fragmentada, cheia de diálogos, inquieta que exprime o drama de uma geração – uma “geração perdida”, termo cunhado por Gertrude Stein e popularizado por Ernest Hemingway. Amory Blaine, o personagem que navega neste lado do paraíso, aproxima-se com sua intensidade e decepção dos personagens presentes em Suave é a noite e o grande clássico do autor, O grande Gatsby. Desencantado sucessivas vezes, Amory através de seus questionamentos sobre seu caráter, sua personalidade e seu futuro passa a conhecer a si próprio.

As entrevistas da Paris Review

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Reunidas em dois volumes e editadas no Brasil pela Companhia das Letras, o livro traz as mais célebres entrevistas da Paris Review. A primeira, em 1953, teve como entrevistado E.M. Forster. Naquela altura não era tão comum escritores concederem entrevistas neste formato, lançado por William Styron e George Plimptom, que fazia um contraponto ao academicismo que dominava a discussão literária da época. Entrar para a seleta lista dos entrevistados da Paris Review é quase uma honraria, não só por causa da publicação, mas também por poder estar ao lado de nomes como Faulkner (1956), Capote (1957), Hemingway (1958) e Jorge Luis Borges (1967). Algumas das entrevistas demoraram anos e exigiram vários encontros, vê-se que as perguntas não têm como objetivo derrubar do cavalo ou por contra a parede os escritores, ao contrário, os jornalistas tentam extrair o máximo que podem, mesmo em casos difíceis como o do grosseirão Hemingway.

Mário Faustino esquecido

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Foto: Divulgação

Por que não reeditam a poesia de Mário Faustino? No Brasil edita-se pouca poesia porque poesia não vende. Aliás, pouca coisa vende além de livros de auto-ajuda e as narrativas longas que fazem sucesso em público ávido por histórias e enredos fáceis. Faustino publicou seu primeiro e único livro de poesia, “O Homem e Sua Hora”. Nele está parte da melhor poesia já produzida no Brasil. Entre setembro de 1956 e novembro de 1958, já vivendo no Rio, escreveu no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil a página Poesia-Experiência. Nessa página, exercitou a crítica mediante ensaios sucintos nos quais apresentou grandes mestres da poesia internacional – Baudelaire, Emily Dickinson, Rimbaud, Pound – e também discute a poesia brasileira. Crítica que também espera nova edição em livro. (Fábio Campana)

Ensaios dantescos

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Jorge Luis Borges percorreu o mundo dantesco e descobriu que os labirintos escondiam a mais extraordinária poesia de uma viagem lúcida através de outro e mesmo universo em que se espelha, conforme a visão de Dante: a aventura do homem na Terra e depois da morte. Os ensaios deste livro são como relatos que refazem, numa tela fragmentária, os sugestivos pormenores simbólicos da história dessa viagem, ao mesmo tempo comum e insólita. Ainda no mesmo volume “A memória de Shakespeare” e mais três contos fantásticos, em que o tranquilo domínio do estilo e as pulsantes obsessões se ligam a motivos recorrentes. “Shakespeare é meu destino”, como diz numa de suas páginas, mas além dele retornam a rosa, tantas vezes tematizada, os tigres, desta vez azuis e inalcançáveis, e o tema do duplo, que reescreve. Leitura essencial para cérebros em ordem. (Fábio Campana)

Relâmpagos de Gullar

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Como para um fotógrafo é quase impossível sem o auxílio da tecnologia captar o instante preciso de um relâmpago, para o crítico de arte é impossível falar sobre uma obra sem as suas próprias tecnologias: a materialidade significante, experiência sensorial, sensual e afetiva. Às vezes é necessário situar a obra cultural e historicamente ou perceber a ruptura ou continuidade artística. Munido destas e outras poucas coisas presentes em Ferreira Gullar, que se traduzem em grandiosas, ele fez uma compilação de suas críticas no livro Relâmpagos. “Toda obra de arte atinge nosso olhar como uma inesperada fulguração, um relâmpago. Atrevi-me algumas vezes a tentar fixar esse relâmpago em palavras”.

O estrangeiro de Camus

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Para lê-lo é preciso preparar o estômago. Albert Camus mostra que todos nós temos um estrangeiro dentro de nós mesmos e também somos estrangeiros aos olhares alheios. O título é muito adequado, pois nada mais estranho que alguém deslocado do seu próprio lugar. É assim que se sente Mersault - o protagonista - incapaz de amar e sofrer por ser estrangeiro de si mesmo.

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