O ano da peste

Curitiba, meados de março de 2020. Esse é um ano que certamente ficará marcado na minha memória como o ano da peste. Será o ano em que sentiremos na carne toda a irracionalidade dos homens frente a um inimigo incontrolável e invisível. O vírus que nos assola sem ter pena dos velhos e certamente dos pobres, até parece uma praga bíblica, enviada para punir severamente uma humanidade desprovida de fé e voltada exclusivamente ao sucesso material. Fosse eu um carola, estaria recluso em um mosteiro em fervorosas orações. Como não sou, estou inseguro e em quarentena em minha morada.

Sem dúvida o que está acontecendo e o que está por vir, me transporta ao século XVII, onde no ano de 1665, a peste bubônica dizimou metade da população de Londres. Os horrores, histeria e o pânico estão narrados no Um diário do ano da peste, de Daniel Defoe, – autor de Robson Crusoé – uma obra literária extraordinária, que mistura cobertura jornalística e ficção numa das mais tenebrosas narrativas que tive a oportunidade de ler.

O Diário mapeia a disseminação da peste em Londres passo a passo, bairro a bairro, com contabilização semanal dos mortos e uma exposição do alto custo humano   da   epidemia.   Descreve   as   valas   comuns, abertas   para   enterrar   as   pilhas   de   mortos   recolhidos   pelas   ruas   da   cidade, detalha   os   mais   descabidos   e grosseiros procedimentos médicos, as superstições, simpatias, benzeduras, talismãs, poções milagrosas e o vasto instrumental terapêutico vindos tanto da sabedoria popular quanto da bruxaria. Ainda   registra   os   mais   diversos   níveis   de   sofrimento, da   morte horrenda de mães grávidas contaminadas e a execução de 40 mil cães e 20 mil gatos a fim de conter a transmissão da doença. Um horror sem precedentes.

Quando essa peste de 2020 surgiu na China (de novo) – nossa Babilônia -, já dava para perceber o tamanho da desgraça que traria ao mundo, mas não nas proporções que hoje se vê na mídia escandalosa, ideológica e histérica. Durante vinte e quatro horas ela torna o terror da peste muito mais horrível do que já é. Tudo nos faz crer que estamos diante de uma praga medieval, divorciada de um mundo que se diz informatizado, tecnológico e de acentuado avanço medicinal. Uma grande balela!

Estamos todos confinados. O medo é nosso companheiro e o pânico nosso irmão. Na televisão as cenas destacadas são dignas do livro de Daefoe: tenebrosos caminhões do exército italiano, enfileirados, levando centenas de corpos insepultos das vítimas direto para o crematório porque já não dá para enterrar toda essa gente. O repórter dramatiza, emposta a voz e procura causar o arrepio na espinha do telespectador. Os idosos vão às lágrimas, provavelmente já se imaginando a bordo daquele comboio dos infernos. É a mídia da peste e do terror, trazendo angustia e pânico aos nossos corações. Não há boas notícias e sim a esperança que aquilo acabe em breve.

Se há algo de positivo nesse ano da peste, é de que ele foi pródigo em escancarar os governantes incompetentes pelo mundo afora. Perdidos em suas ambições pessoais e suas abjetas ideologias, demonstrando uma assustadora incapacidade de liderar uma nação em segurança ou dar-lhe esperança de um futuro promissor. Penso que se o planeta depender dessa gente, já estamos com os dias contados. No Brasil, por nossa incapacidade cultural, tem-se produzido em quantidade industrial, líderes apedeutas, sem precedentes na história recente. A proliferação dessa espécie é muito maior do que o vírus que nos ameaça. E o nosso confinamento não dará cabo deles.

Esse ano pestilento certamente passará, como passaram os anos da peste negra e da gripe espanhola, mas fica muito evidenciado que os sentimentos e reações coletivas pouco mudaram com o passar dos séculos. As epidemias certamente são outras, mas os povos continuam os mesmos.

 

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