Se as vidas não importam, aos números

O governo Bolsonaro não consegue se entender com o governo Bolsonaro. O problema está em Jair Bolsonaro que atrapalha a atuação do governo Bolsonaro no combate à pandemia do coronavírus.

Uma ala do governo, comandada por Jair Bolsonaro, produziu um vídeo com o mote “O Brasil não pode parar”, um incentivo à retomada das atividades econômicas e sociais. Outra ala do governo, supostamente comandada por Jair Bolsonaro, pede que a população fique em casa para combater o vírus e evitar a contaminação e colapso do Sistema Único de Saúde, apesar de Jair Bolsonaro promover manifestações, fazer parte delas e ir às ruas para “visitar o comércio local” (gerando aglomerações). São duas raquetes, a população brasileira é a bola, o jogo é o pingue-pongue, que ao contrário do que se pensa, não foi inventado na China. É uma invenção britânica para substituir o tênis em dias frios. Assim como a gripe espanhola (1918) não surgiu na Espanha, e sim nos Estados Unidos, no Kansas, recebeu esse nome porque o país ibérico fornecia informações verdadeiras sobre a pandemia, ao contrário dos EUA cuja preocupação era a guerra e as atividades econômicas e omitia os dados daquela gripezinha que matou 50 milhões de pessoas.

O que dizem os estudos?

No dia 26 de março, um estudo divulgado por economistas do Banco Central dos EUA e MIT, com o sugestivo título “Pandemias deprimem a economia, intervenções de saúde pública não: evidências da gripe de 1918”, trouxe dados importantes para estabelecer paralelos entre as duas pandemias. A gripe espanhola foi a eleita para efeito comparativo porque é a que mais se aproxima com a atual, no sentido socioeconômico. Os jornais da época traziam os mesmos lemas: “lavem as mãos”, “fiquem em casa”, “evitem aglomerações”. Promovia-se a quarentena, métodos não-farmacêuticos, como combate ao vírus.

O estudo trata-se de uma análise da atividade econômica em 43 cidades americanas antes, durante e depois da gripe espanhola de 1918, que matou o presidente do Brasil, Rodrigues Alves.

O comportamento dos municípios foi bastante diverso, os dados apontaram: 10% das cidades analisadas executaram medidas de intervenção não-farmacêutica (quarentena, isolamento social etc.) por menos de 42 dias; 40% impuseram medidas com duração entre 42 e 88 dias; outras 40% passaram entre 88 e 156 dias sob intervenção; e 10% das cidades, o grupo mais rígido no combate à pandemia, tiveram medidas de intervenção não-farmacêutica por mais de 156 dias.

A primeira conclusão do estudo foi que a oferta de bens e serviços assim como a demanda por eles caiu, claro. Causando recessão e impactos dúbios na inflação: a diminuição da produção pressiona a inflação para cima, porém o desemprego crescente – outra consequência da pandemia – segura a inflação.

O Banco Central americano e o MIT também disseram que “De modo geral, nossas evidências mostram que pandemias são altamente disruptivas para a atividade econômica. Porém, medidas oportunas visando mitigar a severidade da pandemia também foram capazes de reduzir a severidade da crise econômica. Ou seja, intervenções não-farmacêuticas (como quarentenas) podem reduzir a mortalidade ao mesmo tempo em que são economicamente vantajosas”.

Os indicadores de emprego, produção e crédito levaram os pesquisadores a concluir que as cidades mais rígidas com a quarentena tiveram desempenho econômico similar durante a pandemia e melhor depois. Além é claro do óbvio fator de número de infectados e mortes, que segundo o estudo caiu drasticamente nas cidades com quarentenas mais longas. O que nos leva a outro estudo que aponta como o número de mortes impacta na economia.

Luigi Zingales, pesquisador italiano liberal ligado à Universidade de Chicago, cita os dados da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos que estima uma perda média de 10 milhões de dólares para cada trabalhador americano morto durante a pandemia, embora pondere dizendo que “existem muito mais considerações além da questão econômica nessa decisão de confinar ou não as pessoas”.

Segundo Pedro Menezes, economista especializado em políticas públicas e desigualdade social, conclui: “Caso dois milhões de americanos morram, uma estimativa bem abaixo do esperado caso a curva não seja achatada, o custo dessas mortes a longo prazo representaria 20 trilhões de dólares, 10 vezes o que o governo estadunidense pretende gastar para manter os cidadãos em casa.”

Carlos Góes, economista liberal do Instituto Mercado Popular, toma dados brasileiros como referência, retirados de uma pesquisa da qual ele participou durante o governo Temer, R$ 630 mil foi o limite inferior da estimativa quando há perda de trabalhador. Nesse sentido, partindo desta lógica liberal e se trabalharmos com o pior cenário do Ministério da Saúde, a perda em reais seria de 800 bilhões, de acordo com Góes. Jair Bolsonaro até o fechamento desta matéria tinha lançado um pacote de R$ 40 bilhões.

Daí, pode-se concluir que o Brasil precisa parar; primeiro por ser uma questão de saúde pública e envolver risco de vida das pessoas; mas caso, para alguns este argumento não seja convincente, embora constitucional, segundo, por ser economicamente mais “vantajoso”.

 Divulgado também em março, o estudo “Macroeconomia das epidemias”, uma parceria do Departamento de Economia da Northwestern University com a Escola de Negócios da Universidade de Berlim, construiu modelos com diversos fatores para avaliar o que é mais eficiente, economicamente falando, para o combate à pandemia. Eles chegaram à resposta que os pesquisadores do Imperial College London (da onde saiu o principal estudo que está guiando as políticas públicas em todo o mundo no combate ao coronavírus) já haviam fornecido: se cada um agir de acordo com suas necessidades particulares, a letalidade do vírus aumenta e a recuperação econômica tornar-se-ia mais lenta.

Quando o modelo considera a possibilidade de novos testes, tratamentos e aumento da capacidade de atendimento dos hospitais, a recessão é maior no curto prazo, com recuperação mais rápida posteriormente.

Na mais recente atualização do estudo do Imperial College London até o fechamento dessa matéria, no melhor dos cenários, com supressão precoce, o Brasil teria 11.457.197 de infectados e 44.212 mortes, apenas pela Covid-19, há ainda as mortes correlatas, não contabilizadas (exemplo: quem se acidentar de carro e precisar de UTI não haverá porque estarão todas ocupadas). A demanda por hospitalização seria de 72.398. E a demanda por leitos de UTI seria de 15.432, ambas no pico da pandemia, que deve estar acontecendo neste mês de abril quando circula esta Ideias. No pior dos casos, se o Brasil não parar como alguns empresários preocupados com o lucro querem e o Bolsonaro também, contrariando o Ministério da Saúde, a população infectada será de 188 milhões (num total de 212 milhões), as mortes seriam de 1,1 milhão. Mas o Brasil, apesar do Bolsonaro, parou e provavelmente o cenário não será tão catastrófico. O mês de abril, este mês, dirá.

O que virá depois ainda é só especulação, alguns dizem que a retomada será rápida, outros que será lenta. Zingales afirma que independentemente de uma coisa ou de outra “vai ser necessário redistribuir essa renda, dos mais velhos pros mais novos, dos mais ricos pros mais pobres.”

 

Deixe uma resposta