Descendo a ladeira

Deputado federal Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro defenestrou Sérgio Moro e negocia com as velhas ratazanas da política, gente da catadura de Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson. Resultado: Bolsonaro perdeu a principal ideia força de seu governo: o combate à corrupção e à “velha política” do toma-lá-dá-cá. Entrou definitivamente no esquema do é dando que se recebe, do vem cá, meu bem, como os políticos costumam se referir, despudoramente, à troca de benefícios e que tais pelo voto a favor do governo.

A guerra pública travada com Sergio Moro em meio às acusações de interferência política no comando da Polícia Federal empurrou o presidente a um patamar inédito na deterioração de sua imagem pública: pela primeira vez na série histórica de pesquisas realizadas pela consultoria Atlas Político, a maioria dos entrevistados (54%) é favorável a um processo de impeachment contra Bolsonaro.

Ora, Bolsonaro já vinha em queda na aprovação de seu governo desde fevereiro. O comportamento tresloucado durante a crise do coronavírus e do baixo desempenho econômico provocavam grande desgaste. Mas os reflexos da demissão de seu ministro mais popular afetaram diretamente seu capital político: 64,4% responderam que desaprovam seu desempenho enquanto 30% o aprovam. Enquanto isso, Moro fortalece a sua imagem pública e vê sua aprovação chegar a 57%, índice que não alcançava desde a suspeição levantada sobre a sua atuação como juiz após o vazamento de mensagens de integrantes da força-tarefa da Lava Jato.

Enfim, o embate entre Bolsonaro e Moro trouxe o impeachment de volta ao debate público. Oposicionistas têm aumentado a pressão na Câmara dos Deputados para iniciar um processo. A Casa já recebeu ao menos 19 pedidos que acusam o presidente de crime de responsabilidade, sendo oito deles protocolados neste ano. E um vigésimo pedido deverá ser entregue nos próximos dias pelo partido que elegeu Bolsonaro, PSL. É esta a principal razão para Bolsonaro chafurdar em negociações com o baixíssimo clero.

Bolsonaro se defende dos fatos e das acusações mentindo deslavadamente. Alguém esperava outra coisa? A mentira é o instrumento sistêmico que ele adotou para governar. Ninguém, nem mesmo os seus seguidores, deixam de admitir que a mentira é o forte de Bolsonaro. Com a maior desfaçatez ele Já disse que a “Amazônia é úmida e não pega fogo”, que ONGs e Leonardo DiCaprio estavam por trás das queimadas, que “não existe fome no Brasil”. Lembram? Disse que estava em Brasília quando foi multado por pescar na Estação Ecológica de Tamoios, em Angra, mesmo com fotos provando o contrário. E bate no peito para dizer que não há denúncias de corrupção em seu governo, mas acoberta os ministros do Turismo e do Meio Ambiente, ambos enrolados com a Justiça. E, claro, o filho 01, suspeito por rachadinhas e envolvimento com milicianos.

Listar mentiras de Bolsonaro é quase impossível. Levantamento do aosfatos.org aponta 926 declarações falsas ou distorcidas do presidente em 479 dias. Quase duas por dia. Diante da pandemia, Bolsonaro se negou a apresentar os resultados de seus testes que, disse ele, teriam sido negativos, e multiplicou seu estoque de mentiras. Em rede de rádio e TV tratou o novo coronavírus como gripezinha ou resfriadinho. Antes, afirmara à claque diante ao Palácio da Alvorada que o coronavírus, hoje com quase 4 mil mortos no Brasil, seria menos grave do que a H1N1, que, no pior ano, 2009, registrou 820 óbitos.

Pois, bem, até os analistas de primeira viagem entendem que o governo está descendo a ladeira. Vai demorar, mas a situação tende a se agravar. A crise deflagrada com a saída de Moro está longe de chegar ao pico. Para manter-se de pé, Bolsonaro decidiu contaminar ainda mais o seu governo e dar maior relevância à mentira. Expurgado o ex-juiz, Bolsonaro repete a galhofa de que não negocia nada enquanto reparte cargos entre a banda podre da política. Não bastasse a tendência de recrudescimento do coronavírus, tudo indica que m na política o pior também ainda está por vir.

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